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Investidor volta a apostar no Brasil

Mesmo antes da decisão do Fed de manter estímulos à economia, estrangeiros já haviam voltado a aplicar em renda fixa no País

JOSETTE GOULART, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2013 | 02h22

Quase R$ 10 bilhões de investidores estrangeiros, já na conta líquida, entraram no País este mês, até o dia 19. E engana-se quem creditar esse movimento ao efeito da decisão do banco central americano de não reduzir agora o seu programa de estímulos monetários.

Desde junho, quando esses investidores ficaram isentos do pagamento de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de renda fixa, os estrangeiros estão destinando seus investimentos ao Brasil em volumes históricos recordes, segundo o banco de dados do Citibank, onde ficam guardados 60% dos recursos aplicados no País. Em quatro meses, as entradas superaram as saídas em cerca de R$ 50 bilhões.

Os dados, abertos em detalhes pelo banco pela primeira vez a pedido do Estado, ficam ainda mais significativos se confrontados com o diagnóstico do JP Morgan, o segundo maior "guardador" de investimentos estrangeiros, onde estão 17% dos recursos aplicados nas ações e títulos de renda fixa brasileiros. Juntos, Citibank e JP Morgan detêm a custódia - responsabilidade de guardar e movimentar os ativos financeiros de clientes - de mais de 75% dos cerca de R$ 700 bilhões que estão hoje aplicados no Brasil.

Apesar de não detalhar seus números, o JP afirma que não verificou grandes oscilações, nem de saída, nem de entrada. "Nosso cliente tem perfil de aplicação de longo prazo e não saiu do Brasil", diz Ricardo Nascimento, diretor de custódia.

Os motivos para a migração de tanto dinheiro, mesmo com a volatilidade dos mercados mundiais e os fluxos se movendo dos países emergentes para os Estados Unidos, são variados e vão desde a especulação pura e simples, realocações, até às apostas de longo prazo.

O diretor de custódia do Citibank, Márcio Veronese, explica que boa parte do que chegou em junho, cerca de R$ 20 bilhões, por exemplo, foi de investidores que já aplicavam no Brasil, mas em "operações sintéticas", ou seja, que reproduzem o risco sem a necessidade de ingressar capitais efetivamente. Quando o Ministério da Fazenda decidiu tirar os 6% de IOF que incidiam em operações de renda fixa, esses investidores decidiram efetivamente enviar seus dólares ao País.

O presidente da gestora Franklin Templeton no Brasil, Marcus Vinícius Gonçalves, diz que a percepção dos investidores internacionais não é tão pessimista quanto a dos investidores locais. A gestora tem mais de US$ 20 bilhões de seu portfólio no mundo alocado em risco Brasil. Ele diz que o País é visto como bom ativo de longo prazo, a despeito de questões políticas, e que as taxas de juros estão em patamares atrativos desde que o BC decidiu por elevá-las em meados deste ano.

Assim, apesar de o fluxo mundial de dólares ter se voltado para os juros crescentes dos títulos do Tesouro Americano, desde maio - quando o presidente do Fed, Ben Bernanke, anunciou a possibilidade de se reduzir o programa de estímulos monetários - o Brasil também elevou taxas.

Curto prazo. Parte do movimento também é explicada pelo investimento especulativo. O diretor da Schroders Investment, Marcos De Callis, diz que houve uma combinação de dólar e juros excessivamente elevados possibilitando ganhos de curto prazo. O investidor que aplicou em títulos do governo brasileiro com vencimento em 2050 às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária americano ganhou 7% de retorno em apenas dois dias.

Esse dinheiro viajante também teve como destino a bolsa de valores. A corretora do Credit Suisse, que responde por 12% do que é movimentado na Bovespa, percebeu que boa parte do fluxo está entrando por meio de fundos chamados ETFx (que replicam índices da bolsas) e não diretamente em ações, evidenciando que são apostas de mais curto prazo. O principal executivo da corretora, Emerson Leite, diz, no entanto, que já em julho os investidores estrangeiros tinham a percepção de um pessimismo exagerado, que levou à bolsa próxima aos 45 mil pontos. De lá para cá, a bolsa valorizou 20%. O mesmo exagero aconteceu no câmbio quando o dólar chegou a valer mais que R$ 2,45 e na sexta fechou valendo R$ 2,21, queda de 10%.

Veronese, do Citi, diz que junho deste ano foi o único mês em que o fluxo para bolsa ficou efetivamente negativo, com uma saída do País de R$ 1 bilhão. De resto, houve apenas realocação. O que também se viu no JP Morgan. Nascimento diz que, antes da crise gerada pelo Fed, os investimentos estavam 80% em renda variável e caíram para os 60%.

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