Investidores apostam em pagamentos via celular

Um dos argumentos usados é que o usuário sabe o número do telefone, mas não o do cartão de crédito

The New York Times, SAN FRANCISCO, O Estadao de S.Paulo

29 de junho de 2009 | 00h00

Em um PC, ter de preencher um formulário e digitar um número de cartão de crédito para comprar alguma coisa é apenas medianamente incômodo. Já em um celular, isso pode fazer a pessoa desistir da compra. É por isso que investidores, companhias iniciantes e grandes corporações estão despejando dinheiro em serviços para facilitar o uso de celulares para comprar bens e transferir dinheiro. O objetivo é transformar telefones em cartões de crédito e talões de cheque virtuais, permitindo o comércio clique-e-compre e os serviços bancários online com os quais as pessoas se acostumaram em seus PCs. Mas estruturar a operação desses serviços via celular é um desafio sério, pois eles precisam funcionar em telefones diferentes e em muitos provedores de serviços de celulares, que geralmente controlam os processos de cobrança dos consumidores. Isso aumenta a complexidade da espinhosa atividade de transferir recursos com confiabilidade e segurança. Sistemas de pagamento móveis já foram tentados antes, com sucesso apenas modesto. Porém, executivos e analistas do setor creem que o sucesso do iPhone, BlackBerry e outros aparelhos sofisticados, capazes de fazer interações complexas mais facilmente, podem impulsionar um novo surto de negócios. Esses aparelhos mostram que pessoas antenadas estão dispostas a gastar em música, jogos e artigos visuais, como uma roupa de US$ 2 para um personagem de videogame. Agora, a corrida é no desenvolvimento de novos sistemas de pagamento - e para obter muitos pontos porcentuais em taxas sobre cada transação. "Vários operadores com dinheiro estão investindo pesado nisso", diz J. Gerry Purdy, analista do setor na Frost & Sullivan, empresa de pesquisa de mercado. "Eles estão percebendo que os retornos podem ser imensos", observa. "Sabemos que ela vai chegar", diz, sobre a tecnologia. "A questão é como torná-la mais fácil de usar."A Obopay, empresa iniciante que permite que pessoas transmitam dinheiro a outras via mensagens de texto, levantou US$ 35 milhões da divisão de investimentos da Nokia em março. Foi o maior investimento isolado numa empresa iniciante de serviços financeiros neste ano, segundo a National Venture Capital Association. Na semana retrasada, a MasterCard introduziu um serviço chamado MoneySend que utiliza parte dessa tecnologia. Também na semana retrasada, outra iniciante de pagamentos móveis chamada Boku anunciou que havia recebido US$ 13 milhões em financiamento de capital de risco. A Boku, que resultou de uma fusão entre a Paymo e Mobillcash, se considera a resposta da telefonia móvel para MasterCard ou Visa. Mas em vez de depender dos números de cartões de crédito, pede que os usuários digitem os números de seus celulares. O sistema envia então uma mensagem de texto a compradores pedindo-lhes que autorizem as transações com uma resposta textual, e a despesa aparece na conta de seus celulares. As empresas de comunicação podem ganhar até 50% do preço de compra, enquanto a Boku fica com 5% a 10%. "Todo o mundo conhece o número de seu celular. Ninguém conhece o número de seu cartão de crédito", diz Mark Britto, presidente da Boku. Quando a pessoa pode usar seu número de celular para fazer uma compra, é dez vezes mais provável que prossiga com uma transação do que se tivesse que digitar informações sobre o cartão de crédito e cobrança, diz David Marcus, presidente executivo da Zong, outra empresa do ramo. Como a Boku, a Zong permite que as pessoas usem números telefônicos para comprar jogos, produtos virtuais e moeda virtual. TRANSFERÊNCIAOutro grupo de companhias de pagamento móvel permite que as pessoas usem seus telefones para enviar dinheiro a outras por mensagem de texto. Usando esses serviços, uma pessoa pode enviar dinheiro, por exemplo, para uma baby sitter ou um membro da família.Esses serviços depois transferem o dinheiro entre as duas contas bancárias, de cartão de crédito ou de débito. A Obopay levantou US$ 104 milhões de investidores, entre os quais a Nokia, a empresa de investimentos de James D. Wolfensohn, um ex-presidente do Banco Mundial, e o Citigroup, que usa a Obopay para gerir seu serviço de pagamento móvel.Por enquanto, os serviços de transferência de dinheiro móveis tiveram mais sucesso em países em desenvolvimento, onde menos pessoas têm contas bancárias tradicionais, e com pessoas em países desenvolvidos que querem enviar dinheiro a parentes no exterior. Nos EUA, dizem os céticos, as pessoas continuarão usando cheques, cartões de crédito e dinheiro vivo em vez de adotar mais um sistema para seus celulares. Mas a oportunidade potencial de conseguir taxas do número crescente de transações móveis é promissora demais para se deixar passar, apesar dos riscos, afirma Aaron McPherson, analista da IDC Financial Insights, empresa de pesquisa de mercado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.