Bastiaan Slabbers/Reuters
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Paulo Bilyk: "Quem está comprado em 4 ou 5 ações corre risco grande de perder tudo"

Investidores começam a perguntar: e se Biden for eleito presidente?

Wall Street, depois de meses fixado na pandemia, tem algo novo com que se preocupar, ou seja, uma possível presidência de Biden

Matt Phillips, The New York Times

08 de julho de 2020 | 11h00

Com pesquisas recentes sugerindo que Joe Biden assumiu uma liderança incontestável sobre Donald Trump na disputa presidencial no final deste ano, investidores começam a perceber que um futuro não muito distante poderá ser bem diferente do empurrão favorável às empresas por parte do atual governo. E isso está deixando alguns nervosos.

Os investidores ainda não estão adotando decisões de compra e venda com base na eventualidade de um governo Biden, de modo que as quedas e corridas nas Bolsas não refletem totalmente suas preocupações. Mas há vestígios.

Em 24 de junho, quando a Bolsa registrou queda de 2,6% durante um forte aumento de infecções pelo coronavírus, alguns operadores e analistas de Wall Street atribuíram parte daquela queda a dados de pesquisas, incluindo uma realizada pelo The New York Times e Siena College, mostrando a liderança de Biden frente a Trump.

Naturalmente, ninguém está totalmente seguro do que movimenta os mercados de títulos. Mas as ações de algumas empresas militares também registraram um fraco desempenho, refletindo a perspectiva de alguns investidores de que uma vitória de Biden deve pressionar as vendas de armas.

E analistas de Wall Street, que fornecem pesquisas de mercado para fundos e gestores de ativos e outros grandes investidores, afirmam que seus clientes vêm pedindo cada vez mais seus conselhos sobre o impacto de uma presidência ocupada por Joe Biden, especialmente no campo dos impostos.

Recentemente, as indagações dos investidores sobre a liderança de Biden nas pesquisas se concentraram quase exclusivamente na questão tributária, disse Jonathan Golub, estrategista da área de patrimônio no Credit Suisse. “No momento este é o foco do mercado”, disse ele.

Em 29 de junho, Biden disse a doadores potenciais durante um evento virtual de arrecadação de fundos do qual participaram pessoas de Wall Street, que pretende reverter a maior parte dos US$ 2 trilhões de cortes de impostos aprovados por Trump, “e muitos de vocês podem não gostar disto”, disse ele.

Além disto, a opinião pública vem mudando de uma maneira que indica que os democratas. que já controlam a Câmara dos Deputados têm uma chance maior de retomar o Senado nas eleições de novembro. Esse controle unificado significaria uma mudança repentina de diversas medidas políticas – como no caso de cortes de impostos de empresas, desregulamentação e vendas de armas para governos estrangeiros -, que contribuíram para o aumento do valor das ações nos últimos anos.

“O mercado começa a se preocupar com a possibilidade de Trump não ser reeleito”, disse Lori Calvasina, chefe da área de estratégia patrimonial na RBC Capital Markets. “Trump é visto como um fator positivo para o mercado acionário.”

Os investidores nas Bolsas se saíram bem no governo Trump. O índice S&P 500 subiu mais de 45% desde a eleição dele em oito de novembro de 2016, apesar de períodos de forte volatilidade, incluindo um nos últimos meses quando a pandemia provocou uma enorme liquidação de papéis seguida de um robusto retorno com a gigantesca ajuda das medidas de estímulo do governo.

Nem sempre foi assim. O choque da eleição de Trump no início abalou os investidores. Após sua vitória o mercado de futuros sofreu uma queda de mais de 5%. Mas não demorou para os investidores se adaptarem à perspectiva de um controle republicano do governo federal, que durou até as eleições de meio de mandato em 2018 e introduziu várias políticas de impostos e desregulamentação consideradas favoráveis para os mercados.

Agora, analistas e investidores tentam imaginar que políticas serão abolidas se Biden chegar à Casa Branca. Entre as propostas feitas pelo candidato está uma reversão parcial dos cortes de impostos decididos pelo governo Trump que foram transformados em lei no final de 2017. Esses cortes, favorecendo indivíduos e empresas, foram uma das mudanças mais abrangentes no código tributário em décadas.

Os cortes de impostos aprovados por Trump foram um ganho inesperado para grandes empresas americanas, contribuindo para o aumento da lucratividade de companhias listadas no índice S&P 500 em mais de 20% em 2018.  Embora os cortes tenham sido estabelecidos como uma maneira de aumentar os incentivos para as empresas investirem e elevarem os salários, muitas usaram as economias na recompra de ações, aumentando o patrimônio dos seus acionistas em bilhões de dólares.

Em um evento de arrecadação de fundos no mês passado, Biden detalhou suas propostas, entre elas um aumento da alíquota de imposto para empresas de 21% para 28%.  

Uma análise recente dos planos do candidato feita pelo Goldman Sachs indica que que, se implementado esse aumento reduziria os ganhos por ação das empresas listadas no S&P 500 em 12%, perspectiva que seria negativa para as ações.

“Vai se tornar um assunto mais acalorado se mais pesquisas surgirem mostrando que Biden lidera a disputa”, disse Tony Dwyer, estrategista chefe da corretora Canaccord Genuity de Nova York.

As ações de empresas militares, beneficiárias do impulso dado pelo governo Trump para a venda de armas para a Arábia Saudita, vêm caindo na bolsa à medida que Biden avança nas pesquisas.

“Vemos um risco maior com as vendas de armas para o Oriente Médio, e especialmente a Arábia Saudita, num governo Biden”, disseram analistas do JPMorgan Chance em nota recente enviada aos clientes.

Os investidores no setor de petróleo e gás também têm indagado os analistas no tocante a uma mudança na Casa Branca e o que isso implicará no caso das empresas de energia em termos de acesso a terras federais para perfuração até um possível aumento de regulamentos sobre emissões de carbono pelas refinarias. 

Num informe de pesquisa publicado no mês passado, analistas do Goldman Sachs observaram que muitas das suas conversas com investidores se concentraram nos riscos para as empresas desse setor na eventualidade de uma vitória do democrata em novembro.

Mas setores como os da saúde e tecnologia, que foram alguns dos maiores beneficiários dos cortes de impostos de Trump, não têm tido um mau desempenho na bolsa.

Alguns analistas observaram que uma presidência Biden pode ser uma fonte de estabilidade para os mercados. Desde 2018, sua política comercial descontínua, sua guerra de tarifas e tecnologia com a China têm gerado ondas de volatilidade das ações.

“Uma presidência Biden resultará em menos tensão comercial com a China, o que seria um alívio bem-vindo para os investidores em títulos”, escreveram os economistas do BCA Research. Eles observaram também que os aumentos de impostos para as empresas poderão financiar gastos do governo que devem estimular a economia, um benefício a mais quando uma recuperação pós-pandemia parece lenta e longa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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