Investidores em títulos projetam alta da inflação

Para mercado de juros,meta não será cumprida nos próximos dois anos por causa de posição mais frouxa do BC

Fabio Graner , Adriana Fernandes BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Mesmo com os números mais favoráveis do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o mercado está desconfiado da capacidade do Banco Central em levar a inflação para o centro da meta de 4,5% nos próximos dois anos. Desde a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no final de julho, um fenômeno marcou o mercado de juros: o aumento da inflação prevista pelos investidores em títulos públicos prefixados - com remuneração definida no momento da venda do título.

A chamada "inflação implícita" - que, em linhas gerais, decorre da diferença entre a taxa de juros dos títulos prefixados e o juro dos papéis corrigidos por índice de preços - saltou de uma faixa de 4,8% a 4,9% ao ano para o período até 2012 para uma faixa de 5,1% a 5,3%, chegando a atingir o pico de 5,4%. A meta de inflação até 2012 é de 4,5%. Os números foram obtidos junto a fontes do mercado e também do Tesouro Nacional.

Posição do BC. O significado do aumento forte da inflação prevista nos títulos públicos prefixados em agosto é que os investidores estão receosos com a posição mais frouxa do Banco Central na condução da política monetária, indicada na ata de julho. E, por isso, elevaram suas expectativas de inflação.

Na prática, isso também representa um custo maior, pelo menos em termos relativos, para a rolagem da dívida pública por meio desse tipo de papel. A inflação implícita é um indicador relevante porque não se trata apenas de uma projeção, como a pesquisa semanal Focus, mas significa uma perspectiva que envolve dinheiro dos investidores.

Técnicos do Tesouro reconhecem que o aumento na inflação embutida nos preços dos títulos tem como pano de fundo uma maior expectativa de inflação por parte do mercado. Ponderam, no entanto, que a conta não pode ser levada estritamente como uma projeção de inflação. Isso porque outros fatores interferem na formação da diferença entre prefixados e títulos atrelados ao IPCA.

Um deles é o fato de que, pela natureza de maior risco dos prefixados, é natural que haja um "prêmio" maior embutido no custo de emissão desses títulos. Por isso, naturalmente, a inflação implícita desses papéis fica acima de 4,5%, por uma posição de defesa dos investidores contra eventuais imprevistos em termos de taxa de juros e de inflação. De qualquer forma, os técnicos admitem que, "quanto menor esse prêmio, maior a confiança no cumprimento da meta".

Mercado. As fontes destacam ainda que o custo dos títulos públicos está sujeito também a fatores de mercado, basicamente a lei da oferta e da procura por títulos, que muitas vezes variam por questões alheias à projeção de inflação estritamente. Assim, em momentos de maior demanda de estrangeiros, por exemplo, a inflação prevista nos prefixados pode cair. De fato foi o que ocorreu nos últimos dias. Mesmo com essa queda, a inflação implícita ainda ficou na casa de 5,1%, bem acima do que ocorria antes da ata do Copom.

PARA ENTENDER

Para se financiar no mercado interno, o governo emite diversos tipos de títulos: prefixados, indexados à inflação e atrelados à Selic. Para comprar esses títulos, os investidores tentam antecipar tendências tanto para os índices de preços quanto para a taxa básica de juros.

Essas projeções se refletem no custo dos papéis prefixados e vinculados aos índices de preços e é possível, por meio de cálculos, chegar a valores aproximados das apostas dos investidores. É assim que surge o conceito de "inflação implícita", que é uma maneira de se descobrir mais ou menos quanto o mercado espera para a inflação futura. Esse cálculo tem uma vantagem sobre as projeções de analistas porque de fato mostra que os investidores estão colocando dinheiro naquela aposta para o futuro. Os dados mostrando uma alta nesse indicador revela um mercado bastante desconfiado sobre se o BC vai ser capaz de cumprir a meta de inflação.

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