Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

Recorde da Bolsa é puxado por investidores brasileiros

Investidor estrangeiro retirou R$ 6,2 bi da B3 em outubro, maior perda desde maio deste ano

Douglas Gavras e Fabiana Holtz , O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2018 | 05h00

A Bolsa brasileira bateu, ontem, mais um recorde, com o Ibovespa superando os 89,5 mil pontos. Esse movimento reflete basicamente um otimismo dos investidores brasileiros, porque o estrangeiro continua com o pé atrás. Só no mês de outubro, os investidores de outros países retiraram R$ 6,2 bilhões da Bolsa. 

Dois fatores explicam essa fuga: as incertezas quanto aos novos rumos da economia do País a partir do ano que vem e o cenário externo, mais avesso à tomada de riscos, que levou o investidor estrangeiro a buscar refúgio em outros mercados no mês passado.

O movimento indica uma reversão de tendência, que reflete em parte a definição das eleições no Brasil. Entre julho e setembro, a Bolsa registrou a entrada de R$ 10,2 bilhões em recursos de origem estrangeira.

Outubro, porém, foi o segundo mês em que a Bolsa mais perdeu recursos estrangeiros este ano – atrás apenas de maio, quando o saldo foi negativo em R$ 8,4 bilhões. Naquele mês, os investimentos foram afetados pela greve dos caminhoneiros.

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Apesar da postura mais desconfiada do investidor estrangeiro, a Bolsa tem tido desempenhos positivos, segurados pelo investidor local. No mesmo mês em que os estrangeiros retiraram mais de R$ 6 bilhões do mercado brasileiro, os aportes dos chamados investidores institucionais (seguradoras, fundos de pensão e de investimento, entre outros), tiveram saldo positivo de R$ 7 bilhões.

O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, bateu recorde nominal ontem e fechou o dia aos 89.598 pontos – alta de 1,33% ante o pregão anterior. O recorde anterior havia sido registrado em 1.º de novembro. Em um mês, a alta registrada do Ibovespa é de 8,84%.

“O investidor local acha que tem uma visão melhor do mercado brasileiro do que quem olha de fora, mas muitas vezes é o contrário”, diz o sócio-diretor da MacroSector, Fabio Silveira. “O País está muito estressado politicamente e quem está de fora consegue perceber com mais clareza que a nova equipe de governo tem um problema em sua origem: o futuro presidente tem um histórico intervencionista e o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, é um liberal de carteirinha.”

Silveira avalia que, enquanto não ficar claro para o mercado qual será a dinâmica da economia brasileira a partir do ano que vem, o investidor estrangeiro vai permanecer desconfiado. “O cenário externo é complicado e todo mundo está tentando proteger seus investimentos.”

Já a perspectiva de Bolsonaro fazer um governo disposto a colocar reformas, como a da Previdência e tributária, em andamento, seria um fator de atração de capital estrangeiro, diz. 

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Para o economista-chefe da Spinelli, André Perfeito, o investidor local está mais confiante que o estrangeiro, por uma questão “passional”. “É bom lembrar que o mercado era muito favorável à candidatura de Bolsonaro, pelas perspectivas de reformas e de uma política econômica mais liberal.”

Ele acredita que o período até a posse pode ser marcado por mais declarações desencontradas, o que já serve para alimentar a desconfiança do investidor, mas o mercado deve mesmo se preocupar com o início do mandato. “Antes da posse, é normal haver ruídos.” 

Exterior. Nos últimos meses, o cenário externo também mudou drasticamente para o investidor, com aumento da aversão ao risco, avalia Luís Afonso Fernandes Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização (Sobeet). 

“Há uma junção de fatores relevantes para o investidor, como os desdobramentos do Brexit e as eleições que irão renovar o Congresso dos EUA. Esses fatores reforçam a tendência de concentração de investimentos nas economias centrais.”

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