Investidores holandeses céticos em palestra de Fraga

A reunião realizada nesta quarta-feira entre o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e aproximadamente cinquenta investidores e analistas na sede do banco holandês ABN Amro, mostrou claramente o elevado grau de incerteza e a boa dose de pessimismo sobre as perspectivas da economia brasileira, que ainda dominam vários setores dos mercados internacionais. O encontro serviu também para confirmar que o impacto da desaceleração global sobre o Brasil é um tema que está cada vez mais preocupando os investidores e também a equipe econômica. Durante cerca de quarenta minutos, Fraga fez uma detalhada avaliação da situação brasileira. Ele ressaltou o compromisso assumido pelos candidatos à Presidência por meio do acordo com o FMI, exibiu projeções que indicam a sustentabilidade do balanço do pagamentos do País nos próximos anos e assegurou que o Brasil tem condições de resistir mesmo diante de um prolongado cenário de aversão ao risco nos mercados globais."O Brasil está enfrentando um situação difícil, provocada pela combinação de nervosimo político e conjuntura internacional adversa", disse Fraga. "Mas vamos superar essa fase, tenho absoluta confiança nisso.? PerguntasApós a palestra, os analistas fazerem as suas perguntas. Um deles afirmou que a taxa de risco do Brasil "permanece na casa dos 2.000 pontos-base" nos últimos três meses. "Isso, na minha experiência, é o padrão de um país que vai ao default da dívida", disse o analista.Fraga afirmou que a taxa de risco do Brasil recuou para cerca de 1.700 pontos-base, mas que houve, nos últimos meses, "momentos de dúvida" sobre o País.Entretanto, segundo ele, após o anúncio do acordo com o FMI e o compromisso de responsabilidade fiscal e política monetária assumido pelos candidatos, houve uma melhora substancial no sentimento do mercado. Em relação às perspectivas da economia global, Fraga disse não estar muito otimista. ?Mas haverá uma recuperação em algum momento. Eu nunca vi um país com políticas fiscal e monetária responsáveis e que possui a nossa estrutura institucional não conseguir superar suas dificuldades", disse o presidente do BC. "A atual conjuntura internacional é um teste difícil, mas nós temos todas as condições e instrumentos e estamos preparados para superá-lo."Em seguida, Fraga teve de responder a uma sucessão de perguntas que indicaram o perfil dos temores dos investidores estrangeiros. Um deles perguntou como um eventual governo Lula conciliaria maiores gastos na área social com a austeridade fiscal. Outro questionou as projeções de crescimento do PIB nos próximos anos diante da eventualidade da manutenção das taxas de juros num patamar elevado. Um investidor holandês perguntou se a estimativa de que o fluxo de investimentos diretos estrangeiros no próximo ano será suficiente para financiar o déficit em conta corrente seria concretizada caso Lula fosse o vencedor das eleições. Demonstrando muita calma, Fraga também foi questionado sobre a possibilidade de uma "crise política no Brasil" e rebateu uma crítica ao fato de o País ter recorrido ao FMI.Um analista holandês perguntou a Fraga se ogoverno "nao havia cometido um erro ao atrelar a dívida ao dólar". Fraga respondeu: "Talvez, até certo ponto, mas trata-se de um temamuito complexo, e não me faça julgar pessoas que trabalham comigo."Segundo ele, "isso permitiu aumentar os prazos dos vencimentos": "Olhando para trás, é muito difícil saber qual era estratégia correta",completou. Economia dos EUAFraga afirmou que o Brasil tem condições de superar as dificuldades mesmo que a deseceleração da economia norte-americana seja prolongada.O presidente do BC afirmou que, em sua visão, um ano de cenário negativo na economia dos EUA poderia ter um impacto negativo de 2 pontos porcentuais no crescimento do PIBbrasileiro. Além disso, segundo ele, o impacto na relação dívida/PIB seria de0,5 ponto, um efeito "muito pequeno".O presidente do BC observou, porém, que, se o desaquecimento norte-americano se prolongasse por dois ou três anos, o Brasil poderia ter que promover um novo ajuste fiscal, com elevação dameta de superávit primário.Ele ponderou, contudo, que não seria a primeira vez que o Brasil teria de aumentar estas metas diante de uma situação adversa.Após a palestra, questionado por jornalistas sobre estes números, Fraga disse que fez apenas um exercício para mostrar que o Brasil tem condições de superar condições de dificuldadeno plano externo. Fraga reuniu-se comautoridades monetárias holandesas na sede do BC da Holanda. E, em seguida, embarcaria de volta para o Brasil.Como no pôquer, "linguagem de corpo"Ao avaliar para os jornalistas a série de contatos que fez desde segunda-feira com autoridades, empresários e analistas na Suíça, Alemanha e Holanda, Fraga disse que ficou com aimpressão "de que as pessoas reagiram de uma maneira muito favorável".Ele admitiu, no entanto, que "é preciso dar um desconto nisso": "Mas a linguagem de corpo que eu obtive foi positiva", disse. Ele observou que particularmente entre o setor empresarial "está claro que há uma visão mais de longo prazo" em relação ao País. "Em geral, as empresas estão presentes no Brasil há muitos anos e conhecem melhor a situação".Ao ser questionado sobre como o Brasil poderá superar esse momento adverso, Fraga respondeu: "A questão-chave é perseverança. Não háuma resposta fácil, o negócio é ser perseverante sempre, sempre."

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