Gabriela Biló/Estadão
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Investidores já estão preocupados com o que vai acontecer no Brasil em 2022

Será muito difícil manter a confiança na trajetória das contas públicas e nas perspectivas de crescimento da economia brasileira

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2021 | 04h00

Com a forte recuperação cíclica esperada para a economia brasileira este ano, passado o pior momento da pandemia de covid, os investidores já estão bastante preocupados com o que vai acontecer em 2022. E não necessariamente por causa do barulho político habitual de ano de eleições presidenciais.

O ambiente macroeconômico do Brasil promete ser terrivelmente desafiador não apenas por fatores domésticos, mas também por um cenário internacional menos favorável aos países emergentes, como o que se observou em 2020 e 2021.

Esse temor de investidores e analistas com a economia brasileira em 2022 surpreende porque mal viramos a metade do ano. Um dos primeiros a verbalizar grande preocupação com o que acontecerá no ano que vem foi o ex-presidente do Banco Central e atual presidente do conselho do banco Credit Suisse no Brasil, Ilan Goldfajn, durante cerimônia online do Prêmio Broadcast Empresas, em meados de julho. “Estamos em recuperação neste ano, mas me preocupa o que vai acontecer em 2022, um ano em que você tem de derrubar a inflação, em que os juros vão estar mais altos e em que haverá mais volatilidade tanto doméstica quanto internacional”, disse Ilan, na ocasião.

Os economistas do Credit Suisse preveem que a inflação ficará em 7,2% neste ano – muito acima do teto da meta, de 5,25% – e fechará 2022 em 4,7%. Eles projetam que a taxa Selic encerrará o ano a 7,25% e estimam que o PIB brasileiro crescerá 5,5% neste ano e 2,5% em 2022. “Não acho fácil derrubar a inflação no Brasil, uma vez que chega a esse nível”, ressaltou Ilan. Ele lembrou que a estimativa de crescimento do PIB de 2,5% em 2022 já embute um carrego ou herança estatística de quase 1%.

Se for levado em conta que, num ano de eleições presidenciais, os empresários não costumam tocar adiante projetos de investimentos, diante das incertezas sobre qual o conjunto de políticas que será adotado pelo vencedor do pleito nos quatro anos seguintes, o ambiente para a atividade econômica torna-se mais difícil.

“A gente ainda está vivendo no Brasil e nos mercados emergentes a euforia da retomada após o pior da pandemia de covid e o fato de que, neste ano, o Brasil vai ter um crescimento robusto do PIB”, afirma Roberto Reis, sócio-fundador e CIO da Meraki Capital, que tem sob gestão cerca de R$ 2 bilhões. “Mas, para 2022, há muitas dúvidas e a principal delas é: qual será o crescimento sustentável da economia brasileira?”.

Do ponto de vista dos investidores em Bolsa, por exemplo, Reis explica que um crescimento de PIB de 1,5% ou 2,0% quando a inflação está baixa não chega a ser desfavorável. “Mas, com juros acima de 6,0%, esse ritmo de crescimento não dá motivo para o investidor de ações ficar eufórico”, diz.

Dois outros elementos complicam mais a perspectiva para 2022. A primeira ameaça vem do Federal Reserve (Fed). Diante das crescentes pressões inflacionárias nos Estados Unidos, sobre as quais ainda pairam dúvidas se são transitórias ou permanentes, muitos analistas apostam que o Fed vai antecipar a retirada dos estímulos monetários adotados na pandemia, com a redução nas compras de ativos, incluindo títulos do Tesouro americano.

Se isso acontecer, o próximo passo será a expectativa para a primeira alta de juros nos EUA, por enquanto esperada para 2023. Se esse calendário for antecipado, haverá certamente uma redução na liquidez para países emergentes.

A segunda ameaça é doméstica e vem gerando mais barulho nos últimos dias: as contas fiscais do governo brasileiro em 2022. Até há pouco tempo, com o aumento na arrecadação federal, a preocupação com o risco fiscal ficou em segundo plano.

Mas o noticiário dando conta dos planos do governo para turbinar o orçamento do programa Bolsa Família, entre outras demandas para aumentar as despesas públicas, através de manobras para contornar de forma espúria as regras do teto de gastos, aumenta consideravelmente o risco fiscal no ano que vem.

Ou seja, 2022 promete ser um ano muito difícil para trazer a inflação de volta à meta (que será de 3,5%) e para manter a confiança dos investidores não somente sobre a trajetória das contas públicas, mas principalmente sobre as perspectivas de crescimento da economia brasileira nos próximos anos.

*É JORNALISTA DO BROADCAST

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