Investidores preveem guerra de preço na Opep

HOUSTON - Operadores de commodities parecem convencidos de que a decisão da Arábia Saudita de cortar a cotação do produto para os Estados Unidos poderá prenunciar uma guerra de preços da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

CLIFFORD KRAUSS, THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2014 | 02h03

O preço de referência do petróleo americano caiu abaixo dos US$ 76 o barril ontem durante o dia, o nível mais baixo desde outubro de 2010, para se recuperar no fim do pregão. Os declínios de preços de 2% a 3% durante o dia para a maioria dos petróleos de referência foram uma reação à medida tomada pela Arábia Saudita na segunda-feira, quando cortou o preço de venda para o mercado americano em US$ 0,45 o barril.

A iniciativa foi interpretada por muitos operadores como um sinal de que a Arábia Saudita tentará competir com o petróleo americano para proteger sua parcela de mercado que está encolhendo, embora continue considerável, nos EUA.

O Serviço de Informação dos Preços do Petróleo, organismo independente que compila os dados sobre petróleo, caracterizou num relatório, as iniciativas do mercado como de "pânico". "Os operadores globais estão votando num referendo para dizer se eles acreditam que uma guerra de preços entre os produtores da Opep e os que estão fora da Opep será iniciada", disse o serviço, "e, por enquanto, estão dizendo que, sim, o conflito existe".

Os consumidores já estão se beneficiando. O clube do automóvel AAA noticiou que o preço médio nacional do galão (3,8 litros) de gasolina comum caiu para US$ 2,97, ou recuo de US$ 0,006 em relação há uma semana. A família média americana consome 1.200 galões de gasolina ao ano, o que se traduz numa economia anual de US$ 120 toda vez que o galão cai 10 cents. Muitos setores deverão ganhar com a queda do custo dos combustíveis, particularmente companhias aéreas, ferrovias, hotéis e restaurantes.

Mercado. O setor de petróleo e gás, que teve uma explosão nos últimos anos com a expansão da exploração e da produção dos campos de óleo de xisto, deverá perder dinheiro. Aliás, os preços das ações das companhias andaram baixando. A Hercules Offshore, operadora de plataformas de águas rasas no Golfo do México, informou às autoridades reguladoras do Texas, na semana passada, que demitirá 324 trabalhadores, e deixará de operar 4 plataformas. Mas essa reação foi uma exceção num setor que continua manifestando confiança na expansão da produção em mais um milhão de barris diários no próximo ano.

Nos EUA, a produção cresceu 70% nos últimos seis anos, reduzindo as importações da Opep em cerca de 50%.

Nos últimos dias, um dos mais otimistas era David J. Lear, diretor executivo da Halliburton, para quem a recente queda dos preços reflete uma produção excedente temporária. "Na nossa opinião, os fundamentos do setor sugerem que essas quedas não se sustentam", disse Lear numa conference call no terceiro trimestre.

O West Texas Intermediate, a referência americana em petróleo, estabilizou-se ontem em US$ 78,68 o barril, com alta de 1,93%. O tipo Brent, referência mundial, fechou em US$ 82,95 o barril, com alta de 0,2%.

Parâmetro. A maioria dos analistas do setor de energia afirma que o aumento da produção de petróleo nos EUA só será afetada se a referência americana cair para US$ 70 o barril e permanecer durante meses nesse patamar. Isso forçaria muitas pequenas operadoras a se endividarem consideravelmente para economizar, principalmente em campos menos produtivos.

Em que patamar os preços acabarão se estabilizando dependerá das decisões que forem tomadas na reunião da Opep no dia 27. A Venezuela pediu um corte da produção para sustentar os preços, mas a Arábia Saudita e outros membros influentes sugerem que isso não será necessário.

O poderoso ministro do petróleo saudita, Ali al-Naimi, não tem se manifestado na maior parte do tempo, e no mês passado estava de férias. Ele deverá se reunir com o ministro do Exterior da Venezuela, Rafael Ramírez, esta semana, e os operadores ficarão atentos a qualquer indicação de um acordo sobre um corte da produção. "Todos gostariam de poder penetrar na mente da família real saudita", disse Tom Kloza, diretor global de análise do setor de energia do Serviço de Informação sobre os Preços do Petróleo. "Eles têm o poder de estabilizar os mercados, pelo menos temporariamente. O silêncio está sendo interpretado como sua intenção de travar uma guerra em torno da produção."/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
petróleoOPEP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.