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Investidores querem saber mais

Agora, na volta ao Brasil, é correr para buscar esse tal de consenso na Previdência

Adriana Fernandes *, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2019 | 05h00

O ministro da Economia, Paulo Guedes, deixou o Fórum Econômico Mundial, na cidade de Davos, bastante aplaudido pela comunidade financeira. Com fala muito bem articulada, entusiasmada e estilo quase professoral, Guedes é considerado um craque na capacidade de empolgar a plateia.

Pelo menos para ele, foi altamente positivo o resultado de dezenas de reuniões que teve ao longo dos três dias em que ficou nos alpes suíços com a missão de desfazer a péssima imagem que foi transmitida durante a campanha sobre o governo Jair Bolsonaro para os investidores estrangeiros. Animada com o discurso do ministro, a Bolsa brasileira bateu recordes seguidos e o dólar caiu. Ponto para a comitiva.

A empolgação dos investidores estrangeiros e brasileiros em Davos esbarrou, porém, na falta de informações detalhadas não só da proposta de reforma da Previdência que o presidente vai receber da área técnica, como também das privatizações que o governo pretende fazer.

Nos bastidores, na verdade, o que se viu foi mesmo certa frustração. Guedes só reforçou os pontos que já eram mais do que conhecidos no Brasil.

Havia, sim, a expectativa de que, depois do período de transição e quase um mês de governo, fossem divulgados os nomes das primeiras empresas que serão privatizadas e, é claro, algum cronograma, mesmo que prévio, de venda. Os investidores estavam especialmente interessados nas privatizações da Caixa e de ativos da Petrobrás.

Guedes chegou a dizer em entrevista que conseguirá US$ 20 bilhões de privatizações e cortar R$ 10 bilhões com subsídios até o final do ano. Falou sem especificar nada. É uma meta muito difícil de ser cumprida devido ao processo sempre longo no Brasil de venda dos ativos, tradicionalmente recheado de impasses técnicos e jurídicos.

Desde maio de 2016, a União arrecadou R$ 46,4 bilhões em bônus de outorga (pagamento pelo direito de explorar um bem público) de concessões e privatizações, segundo dados do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Em 30 meses, o governo do ex-presidente Michel Temer concluiu 124 projetos nas áreas de energia, rodovias, aeroportos, portos, óleo e gás. A área de petróleo foi a que mais trouxe recursos para o governo.

O mais provável é que tenha incluído na lista o leilão dos barris excedentes da cessão onerosa do pré-sal e a privatização da Eletrobrás. Sem a venda desses ativos, a conta não fecha.

Com a reforma da Previdência, as dúvidas dos investidores são ainda maiores. E a resposta do governo em Davos não passou de frases de efeito, mas que já começam a gerar impaciência, como a dita por Bolsonaro de que a reforma é imprescindível.

O ponto de maior incerteza, como mostrou reportagem do Estadão/Broadcast é com a capacidade de o Congresso aprovar uma proposta mais dura com grande impacto na redução das despesas do governo federal e dos Estados nos próximos 10 anos.

As sinalizações dadas por Guedes de que a economia obtida com a reforma pode chegar de “R$ 700 bilhões a R$ 1,3 trilhão com um poderoso efeito fiscal” são uma prova de como o ministro preferiu não se comprometer com muita coisa em relação à proposta que está sendo finalizada pela área técnica. Um esboço foi entregue a Bolsonaro antes da viagem.

Por trás das previsões do ministro, cabe uma variação gigantesca de itens que podem ser incluídos ou não no texto final que será apresentado em plenário em fevereiro, de acordo com a previsão do secretário de Previdência, Rogério Marinho.

Foi um erro do governo não ter avançado com um discurso mais forte em torno da reforma em Davos. Apesar da justificativa dos assessores de Bolsonaro de que o Fórum não era o local apropriado, o governo poderia traçar as linhas gerais da proposta no evento. Era necessário. A impressão que ficou foi a de que o governo está longe de chegar a um acordo em relação ao texto a ser entregue ao Congresso, principalmente em relação à inclusão dos militares na proposta. Agora, na volta ao Brasil, é correr para buscar esse tal de consenso.

* JORNALISTA DO BROADCAST

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