Investidores temem inflação e câmbio

Apesar da preocupação internacional, Brasil segue atraente por causa do preço menor das ações; no ano, Bovespa já acumula queda de 13,05%

Fabio Alves, da Agência Estado,

24 de julho de 2011 | 20h03

O Brasil não perdeu o seu posto de "queridinho" dos investidores internacionais, mas a inflação alta e as medidas de controle cambial preocupam. É o que dizem gestores de fundos de investimentos dedicados a mercados emergentes em Nova York, Londres e Los Angeles, muitos dos quais aproveitaram a queda na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) nos últimos meses para comprar mais ações brasileiras.

O fôlego da economia brasileira, movida pelo crescimento do crédito, tem sido posto em questão pela imprensa internacional, o que levou alguns analistas a atribuírem a recente anemia do mercado acionário brasileiro a uma fadiga dos investidores. A Bovespa acumula queda no ano até quinta-feira, 21 de julho, de 13,05%, afetada pela perda de ações como a preferencial da OGX Petróleo, do bilionário Eike Batista, que caiu 28,38%; da ação preferencial do Itaú Unibanco, que perdeu 16,23%; e da preferencial da Petrobrás, cuja perda foi de 14,1%, no mesmo período.

"O Brasil é ainda muito atraente, especialmente depois que a queda da Bolsa deixou as ações brasileiras entre as mais baratas comparadas com outros mercados emergentes", afirmou à Agência Estado Urban Larson, diretor para mercados emergentes do fundo F&C Management em Londres, com ativos de US$ 3 bilhões em mercados emergentes, dos quais cerca de US$ 500 milhões apenas no Brasil. Larson informou que, ao longo dos últimos 30 dias, comprou mais ações brasileiras, elevando a participação da Bovespa na sua carteira de mercados emergentes de neutro para "overweight", ou peso acima da média dos investimentos na carteira.

Fluxo

O fluxo de capital estrangeiro divulgado pela Bovespa em julho mostrou que o mau humor dos investidores em relação ao Brasil foi temporário: até o dia 20, entraram na Bolsa brasileira R$ 939,5 milhões, quase que compensando a saída de capital estrangeiro nos primeiros seis meses do ano. No saldo de 2011 até a última quarta-feira, a saída líquida de dinheiro de estrangeiros é de R$ 171,8 milhões.

Para Larson, os investidores tiveram razões bem fundamentadas para preocupação e até um tanto de negatividade com o Brasil, em particular com a política monetária e a inflação. "A capitalização da Petrobrás no ano passado também feriu a credibilidade do mercado brasileiro", acrescentou. Mas o valor das ações brasileiras, depois da baixa recente, tornou-se irresistível, disse. "E o crescimento dos lucros das empresas brasileiras deve ser ainda muito bom neste ano."

Na opinião da chefe de mercados emergentes do fundo DoubleLine Capital LP, Luz Padilla, as agências de rating internacionais deverão continuar melhorando a classificação de risco do Brasil dadas as perspectivas positivas para a maior economia da América do Sul. "Definitivamente o Brasil não perdeu seu brilho em termos de opção de investimentos", explicou Padilla, que administra US$ 500 milhões em fundos de títulos da dívida de países emergentes, boa parte deles emitidos por empresas.

Padilla, que disse ter comprado recentes emissões de dívida de empresas brasileiras, manteve o Brasil com o maior peso na sua carteira de países emergentes, com 14,93% de participação, seguido pelas dívidas da Rússia, do México e do Peru. "As recentes descobertas de petróleo e o crescimento da classe média brasileira vão impulsionar a economia brasileira e melhorar os fundamentos de crédito das empresas do País", disse Padilla do seu escritório em Los Angeles.

Controle. O que mais preocupa a gestora da DoubleLine Capital em relação ao Brasil é a adoção de medidas para controle de capital estrangeiro para tentar limitar a valorização do real. "O fato de vermos medidas adicionais de controle cambial pode desestimular a aplicação de dinheiro no País, pois não sabemos quando as regras vão mudar de novo, além de que essas normas não fazem nada à medida que o problema da taxa de câmbio é algo fora de controle (do governo)."

Para Greg Lesko, diretor-gerente da Deltec Asset Management em Nova York, que tem US$ 850 milhões em ativos, dos quais quase US$ 200 milhões investidos no Brasil, o País ainda é uma "grande história" de médio e longo prazos e a queda nos preços das ações brasileiras neste ano deve ser vista como uma oportunidade de compra para os investidores estrangeiros.

"O preço das ações de bancos brasileiros está bastante atraente e os papéis das empresas produtoras de commodities, como a Vale, não estão caros", afirmou Lesko, que aproveitou a baixa para comprar papéis brasileiros em Bolsa nas últimas semanas.

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