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Investigações e eleições

Trump aprova qualquer legislação desde que contrarie as realizações de Obama

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2018 | 05h00

O procurador especial Robert Mueller, que investiga a interferência russa na eleição presidencial americana de 2016, completou um ano na função. Lentamente, mas com firmeza, sua investigação está avançando. Mas, ao contrário da Operação Lava Jato no Brasil, com a qual a população continua comprometida desde que ela teve início, em 2014, nos Estados Unidos aumenta a pressão para o processo ser encerrado.

Embora haja semelhanças entre os dois casos – conferências são realizadas nos Estados Unidos fazendo comparações entre as duas investigações –, existem diferenças importantes. No Brasil a corrupção se generalizou por todo o governo e também pelo setor privado. Enormes somas de dinheiro estão envolvidas.

Somente porque o Judiciário, especialmente o juiz Sergio Moro, tem persistido, houve um grande número de condenações e muitas outras estão pendentes. Admissões de culpabilidade foram aceitas. A sociedade tem manifestado seu apoio. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa recebeu forte adesão quando seu nome foi cogitado para concorrer à presidência. Mas agora essa esperança esvaneceu.

Candidatos de esquerda, como Ciro Gomes e Marina Silva, concorrem com Jair Bolsonaro, de extrema-direita. O centro e em especial Geraldo Alckmin ficaram para trás. O que é extraordinário. O Brasil vai enfrentar graves problemas de natureza fiscal e política. O momento não permite líderes sem apoio no Congresso, que não consigam lidar com um público dividido e gerar entusiasmo. Os próximos quatro anos são cruciais.

Nos Estados Unidos, a situação é diferente. A corrupção tem suas raízes na lucratividade presidencial. O que importa são os ganhos pessoais. Ganhos imobiliários, acima de tudo. Qualquer problema pode ser solucionado com negociação. Foi como presidente americano, Donald Trump, negociou com o presidente russo, Vladimir Putin, e é surpreendente a que ponto ele ignorou o envolvimento russo na eleição de 2016.

Para Trump, tudo, exceto o que vem da rede de TV Fox News e do site de notícias Breibart, são fake news. Trump diz o que quiser, mentindo o tempo todo. Aprova qualquer legislação desde que contrarie as realizações do ex-presidente Barack Obama. O novo código tributário propicia fortes ganhos para os ricos e ignora o problema da desigualdade de renda. Ele acredita totalmente na sua capacidade de restabelecer as minas de carvão e as manufaturas. Quer se retirar do mundo. A China é a fonte de todo conflito internacional.

Trump também enfrentará uma eleição decisiva em novembro. Seus eleitores – ainda uma minoria – frustrarão o avanço de um grupo ativo de imigrantes, negros, mulheres e membros da comunidade LGBT, congregando aqueles cujos empregos diminuíram, exigindo nova capacitação? 

Aqui há uma clara, mas inversa, relação com o Brasil. No Brasil, há 36 partidos políticos, os Estados Unidos têm dois. Nenhum deles vem atacando os problemas domésticos ou internacionais. Os políticos antes assumiam um compromisso consciente. Talvez uma menor divisão de partidos no Brasil e uma ampliação nos Estados Unidos ajudassem. É necessário construir um centro firme e comprometido. Então, pelo menos, poderemos esperar um crescimento da renda doméstica e uma séria cooperação internacional.

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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