Investimento, a saída para a crise

Recuperar os investimentos é algo imprescindível para a saída da crise. Se a economia brasileira recuou 3,8% no ano que passou, os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo, caíram 14,1%. Foram vários os fatores que fizeram com que houvesse essa retração.

Antonio Correa de Lacerda*, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2016 | 08h21

O almejado ajuste fiscal implicou cortes de gastos, incluindo os investimentos, não só da União, mas também dos Estados e municípios. Além disso, o aumento da taxa básica de juros (Selic) e a sua manutenção em nível elevado, além de estimularem as aplicações financeiras em detrimento dos investimentos na produção e infraestrutura, também encareceram o custo do crédito e financiamento, outro fator desestimulador das novas inversões.

Um terceiro fator foram o impacto da retração chinesa e a queda do preço das commodities. Ao contrário do que se poderia pensar, a diminuição dos preços do petróleo bruto, dos minérios e da soja, para citar os principais, não afetou só o resultado das exportações, mas também inibiu novos projetos de grandes empresas, em razão da queda da sua receita e rentabilidade.

O quarto fator, a Operação Lava Jato - sem entrar no mérito da sua utilidade para coibir a corrupção -, tem significado na prática a paralisia de setores-chave para o País, como os complexos de petróleo e gás e de construção pesada e toda a sua cadeia de fornecedores e prestadores de serviços.

Por último, mas não menos importante, a crise política gera incerteza quanto ao futuro, também impactando negativamente as decisões, levando ao adiamento, ou mesmo ao cancelamento, de investimentos.

Como todos esses fatores continuam presentes no cenário político-econômico, nada nos faz crer que o quadro possa se alterar, e teremos uma nova retração expressiva nos investimentos este ano.

Mas, por outro lado, nada indica que estejamos fadados a uma crise interminável. Há aspectos relevantes a serem considerados. O Brasil é o único país do G-20 que tem uma expressiva demanda ainda reprimida na infraestrutura, por exemplo. Há muitas outras oportunidades no agronegócio, na indústria e nos serviços. Isso talvez explique a atratividade da economia brasileira para investimentos do exterior. Só de investimentos diretos estrangeiros houve ingressos de US$ 75 bilhões no acumulado de 2015, colocando-nos entre os sete países que mais receberam essa modalidade de capitais, que incluem as fusões e aquisições e ainda os empréstimos intercompanhia.

Segundo recente estudo divulgado pela fDi Intelligence, divisão de dados do Financial Times, o Brasil recebeu US$ 17,3 bilhões, com 268 novos projetos, e somente foi superado por Índia, China, Indonésia e México no ano que passou (Valor Econômico, 22/4/2016, página A7). Ao contrário do dado anterior, que inclui as transferências patrimoniais e os empréstimos, este dado só considera os investimentos novos. Ou seja, apesar da crise, muitas empresas estrangeiras se interessaram em investir no Brasil, certamente considerando o potencial de mercado e de crescimento futuro.

Internamente, as elevadas taxas de juros oferecidas aos credores da dívida pública continuam sendo um fator de desestímulo aos investimentos em novos projetos de infraestrutura.

No âmbito federal há um montante mapeado de projetos da ordem de R$ 200 bilhões em infraestrutura, envolvendo estradas, ferrovias, portos e aeroportos. São oportunidades, que, no entanto, não devem se desenvolver no curto prazo. Além do aspecto já apontado da elevada taxa de juros, prevalecem outros de incerteza como a questão do licenciamento ambiental, que é bastante demorado, além de entraves burocráticos e administrativos.

Portanto, a criação de um ambiente favorável aos investimentos passa pela resolução, ou minimização, de todos os aspectos político-econômicos apontados, cuja superação poderá transformar em oportunidade o que muitas vezes é visto apenas como problema, especialmente no que se refere aos gargalos de infraestrutura e logística.

*PROFESSOR-DOUTOR DA PUC-SP E SÓCIO-DIRETOR DA MACROSECTOR CONSULTORIA. 

SITE WWW.MACROSECTOR.COM.BR

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