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Investimento de US$ 7,5 mil criou empresa bilionária

Maior fabricante de eletrônicos do mundo começou produzindo botões plásticos para televisores em Taipei

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

PEQUIM

Maior fabricante de equipamentos eletrônicos do mundo, a Foxconn surgiu há 37 anos em um subúrbio empoeirado de Taipei com investimento de US$ 7,5 mil e um produto desprovido de qualquer conteúdo tecnológico: botões de plástico para mudar canais em TVs branco e preto.

Hoje, a companhia é a maior fornecedora da Apple e tem em seu portfólio de clientes quase todas as grandes marcas de computação, eletrônicos e telefonia do mundo, como Intel, Microsoft, Sony, Dell, Hewllet-Packard, Intel, Nokia e Samsung.

A transformação da pequena fábrica de Taiwan em uma das maiores empresas do mundo foi comandada por Terry Gou, pioneiro na criação do modelo de terceirização da produção que permitiu às empresas de tecnologia globais oferecerem a seus consumidores novidades eletrônicas a preços acessíveis.

Quando os custos de produção começaram a subir em Taiwan no fim dos anos 80, Gou tomou uma decisão ousada e transferiu sua fábrica para Shenzhen, a Zona Econômica Especial que marcou a abertura da China ao capital externo. O dono da Foxconn foi o primeiro empresário da ilha que Pequim considera um território rebelde a aproveitar as oportunidades abertas pelas reformas de Deng Xiaoping.

A aposta logo rendeu frutos. Gou lançou ações na Bolsa de Taiwan em 1991 e em poucos anos se tornou um dos homens mais ricos do mundo. No ranking das maiores empresas globais da Fortune relativo ao ano de 2009, a Foxconn apareceu em 112.º lugar, com faturamento de US$ 59,3 bilhões e lucro de US$ 2,29 bilhões.

Verticalização. Com a oferta de mão de obra abundante e barata, Gou construiu linhas de produção gigantescas, que permitiram a verticalização do processo de fabricação de computadores, celulares e uma infinidade de outras inovações tecnológicas consumidas em todo o mundo.

Analistas estimam que a empresa, que tem 1 milhão de empregados, responde por 40% dos produtos eletrônicos vendidos no mundo. Só a megafábrica de Shenzhen despacha por dia 137 mil iPhones, o que dá 50 milhões de unidades por ano. Cinco dias de produção seriam suficientes para atender as vendas do produto no mercado brasileiro em 2008, 2009 e 2010, que ficaram em 711 mil aparelhos.

Entre os segredos do sucesso de Terry Gou estão a escala, a flexibilidade e a capacidade para adequar suas linhas de montagem às exigências e especificações de cada cliente. O outro é o fato de que não há uma marca de eletrônicos Foxconn - a empresa se limita a fabricar para seus clientes, que colocam suas próprias marcas no produto final.

"O papel de Gou na revolução da manufatura na virada do século tem um precedente óbvio. Henry Ford também entendeu a importância da integração vertical, de produzir seus próprios materiais e de adaptar suas linhas de montagem para máxima eficiência", escreveu a revista Bloomberg Businessweek em perfil sobre o empresário taiwanês publicado em setembro do ano passado.

Isso não seria suficiente sem um elemento essencial para a Apple: o segredo. As duas empresas têm estritos acordos de confidencialidade e Gou impõe controle militar sobre seu exército de trabalhadores para evitar vazamentos de informações relativas aos produtos sob sua responsabilidade.

Suicídios. Em junho de 2009, Sun Danyong, um engenheiro de 25 anos que trabalhava no departamento de logística, cometeu suicídio depois de ter sido apontado como suspeito pelo desaparecimento de um protótipo do iPhone. Antes de se atirar do 12.º andar de um dos dormitórios da empresa, ele disse a amigos que havia sido espancado e humilhado por seguranças da Foxconn.

As duas empresas divulgaram notas lamentando o episódio e abriram investigação, que levou à suspensão de um dos responsáveis pela segurança e abertura de inquérito policial.

Mas o verdadeiro pesadelo de relações públicas veio no ano seguinte, com uma série de 11 suicídios entre operários da empresa, que a forçaram a aumentar salários, criar serviços de aconselhamento e estender quilômetros de redes ao redor dos edifícios para amortizar eventuais quedas - todos os suicidas se atiraram de seus dormitórios.

Dona de uma política que impõe padrões trabalhistas e ambientais a seus fornecedores, a Apple também abriu uma investigação, enviou auditores à China e apresentou sugestões à Foxconn, entre as quais estavam as redes de segurança.

Além do aumento de salários, as mortes forçaram Gou a abandonar - ao menos temporariamente - a aversão a contatos com a imprensa. Na ofensiva de relações públicas após os suicídios, o empresário concedeu raras entrevistas e abriu as portas da fortaleza de Shenzhen para alguns dos maiores veículos de comunicação do mundo.

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