Investimento decepciona e recua 1,8%

Queda interrompe sequência de quatro altas seguidas no indicador; taxa de 16% é a segunda menor para o segundo trimestre desde 1996

Vinicius Neder e Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 22h41

A queda de 1,8% nos investimentos no Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, em relação aos três primeiros meses do ano, chamou a atenção em meio à estagnação da economia. O recuo interrompeu uma sequência de quatro altas e levou a taxa de investimentos para 16% do PIB, a segunda menor taxa para segundos trimestres desde 1996, quando começa a série estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Segundo economistas, a queda nos investimentos sinaliza para uma recuperação lenta da economia nos próximos trimestres e está relacionada com a incerteza política. O efeito da greve dos caminhoneiros aí é indireto, ao sinalizar para as dificuldades de articulação do governo.

“A formação bruta de capital fixo (FBCF, conta dos investimentos no PIB) está nesse processo de ‘stand by’ por conta do problema político, que foi de certa forma antecipado pela greve de caminhoneiros”, disse Fabio Bentes, chefe da Divisão Econômica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Cenário externo e incerteza eleitoral frearam investimentos

Além da greve dos caminhoneiros, o aumento da turbulência no cenário internacional e da incerteza no quadro eleitoral freiam os investimentos, segundo José Ronaldo de Castro Souza Júnior, diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Para o investimento deslanchar, precisa de uma melhora nas expectativas”, afirmou Souza Júnior.

A turbulência nos mercados internacionais, com alta dos juros nos EUA e crises cambiais na Turquia e na Argentina, contribui para a alta do dólar no País, o que também atrapalha os investimentos.

“A depreciação, que no começo de abril estava mais associada ao dólar forte no mundo, hoje está associada também a um pouco mais risco de doméstico. O que importa é que no fundo essa depreciação cambial já está impactando os investimentos, principalmente nesta metade de ano, e vai continuar impactando até o último trimestre do ano”, disse Igor Velecico, economista do Bradesco.

Para o economista-chefe da Mapfre Investimentos, Luis Afonso Lima, a fraca demanda das empresas por máquinas e equipamentos é um dos aspectos observados por Lima para afirmar que o PIB foi ruim “qualitativamente”. “A taxa de investimento não chega a 20% (do PIB) e não é tão relevante para o crescimento do próprio ano, mas dá pista do que acontecerá no longo prazo”, disse Lima. 

A fraca demanda por bens de capital nacionais contribuiu para a queda de 0,8% na indústria de transformação, na comparação com o primeiro trimestre. O resultado levou o PIB da indústria a recuar 0,6%.

Souza Júnior, do Ipea, lembrou ainda que os investimentos ainda estão sob influência da crise na construção civil. O PIB da indústria da construção encolheu 0,8% / COLABORARAM MARIA REGINA SILVA E CAIO RINALDI

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