Chico Ferreira/Futura Press
Chico Ferreira/Futura Press

Investimento e logística são principais desafios do agronegócio no País

Representantes do setor debateram as principais barreiras para o desenvolvimento dos negócios em evento promovido pelo 'Estado'

O Estado de S. Paulo

01 de dezembro de 2015 | 14h30

O principal desafio do agronegócio no Brasil é conseguir mais investimento, tanto do setor público quanto da iniciativa privada. E, apesar de o clima e a extensão territorial do País oferecerem boas condições para o desenvolvimento do setor agrícola, os gargalos logísticos e o conhecimento tecnológico são barreiras para essa evolução. Tudo isso se soma a um cenário econômico adverso, com a alta do dólar e dos custos de produção, crédito escasso, juros mais altos e queda do preço das commodities no mercado internacional.

Esses foram os principais pontos debatidos no dia 26 de novembro, no Summit Agronegócio Brasil 2015, evento promovido pelo Estado com patrocínio da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), em São Paulo. 

Para o representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Alan Bojanic, "é preciso muito mais investimentos do que estamos fazendo hoje. E as condições do País podem atrair muitos interessados de fora". O presidente da Faesp, Fábio Meirelles, defendeu aportes em infraestrutura de transportes, além de recursos para a defesa agropecuária, pesquisa e difusão de tecnologias. "O agronegócio é o verdadeiro trunfo do desenvolvimento do País e não podemos desperdiçar seu potencial", afirmou. 

Além da forte dependência do transporte rodoviário, a estrutura de armazenagem é limitada, conforme apontou o professor José Vicente Caixeta Filho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP). "Produtor não tem onde armazenar e usa o caminhão como estoque; isso se reflete no valor do frete", disse.

O presidente da Cosan, Marcos Lutz, reforçou a necessidade de diversificar as formas de transporte no País e defendeu o aumento da participação das ferrovias. Lutz estimou que o desperdício pelos gargalos logísticos no Brasil equivale a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O diretor-presidente da JSL Logística, Fernando Antônio Simões, defendeu que a iniciativa privada e o governo atuem em conjunto para explorar soluções que melhorem o escoamento da produção do agronegócio. O executivo afirmou que 60% do transporte de carga no País acontecem por meio das rodovias, mas que a idade média da frota de caminhões é de 19 anos. A dos norte-americanos é de sete anos, segundo ele. Simões citou empresas que agiram para resolver gargalos de logística, como a Fibria e a Veracel, e ponderou: "Não há gargalo logístico que segure o desenvolvimento do Brasil e a inovação da iniciativa privada." 

Produtor rural na região de Ourinhos (SP), Eduardo Luiz Bicudo Ferraro destacou a vontade política como fator de peso para vencer esses desafios: "No dia em que tivermos um presidente da República que acorde e pense por pelo menos 5 minutos por dia na agricultura seremos o maior País do mundo". Luiz Baggio, diretor da Zortéa, empresa de silos e armazéns, complementou: "Se a iniciativa privada ampliasse a atuação nos espaços de decisões do governo, os atuais entraves seriam resolvidos com mais rapidez e eficiência."

Políticos como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o vice-governador de Mato Grosso, Carlos Fávaro (PSD), participaram do Summit e destacaram o potencial brasileiro na produção agrícola. "O setor sucroalcooleiro está se recuperando agora depois de ter passado por grandes dificuldades nos últimos anos", afirmou Alckmin. Para Fávaro, a maior atenção em Mato Grosso, neste momento, é a infraestrutura, principalmente as rodovias que cortam o Estado.

Tecnologia. Disseminar novas técnicas no campo é um processo que deverá ser facilitado por uma geração de produtores com maior interesse em aplicá-las e pela disposição da indústria em facilitar o seu uso. 

O professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Decio Zylbersztajn, defendeu  maior integração entre produtores e indústrias. Segundo ele, é preciso administrar o fluxo de informações da era digital para produzir e repassar conhecimentos pela cadeia produtiva. Zylbersztajn citou que há um conjunto de universidades que fazem pesquisa no setor, mas que trabalham "totalmente dissociadas, salvo exceções muitas vezes orquestradas pela Embrapa". Trabalhar em sintonia, diz ele, é essencial para integrar também a cadeia produtiva. 

O pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Silvio Crestana afirma que o País tem oportunidade de alavancar a produção, mas para isso os centros de pesquisa nacionais precisam trabalhar juntos com as grandes empresas globais presentes no Brasil. Para ele, o agronegócio precisa estar atento aos limites do planeta nos próximos anos: "Precisamos pensar no segundo ciclo da revolução agrícola tropical", afirmou. Produtor de cana no Vale do Paranapanema (SP) e Caarapó (MS), Roberto Rezende Barbosa complementou: "Temos de basear o desenvolvimento da agricultura, na próxima década, na recuperação de áreas degradadas."

O presidente da John Deere Brasil, Paulo Herrmann, disse que produtores têm mais facilidade em operar máquinas agrícolas. "Hoje trabalhamos com tecnologia intuitiva, que os leva a fazer o certo automaticamente", afirmou, citando que também há uma geração jovem na agropecuária que tem interesse em adotar novos equipamentos. "Eles querem tecnologia, pois ela reduz custos, aumenta a rentabilidade e mitiga riscos. Não aceitam mais o rústico". Segundo Herrmann, a John Deere Brasil investiu US$ 2 bilhões nos últimos anos para adequar sua tecnologia aos trópicos.

Rafael Vaillarroel, diretor de operações de negócios Brasil da Bayer Cropscience, destacou que os meios digitais oferecem plataformas que facilitam o aprendizado no campo. "Não dependemos mais do expert que vem e dá palestra para 30 técnicos que terão de repassar o conhecimento", disse. O executivo citou que a Bayer CropScience reserva 10% de suas receitas para a área de pesquisa e desenvolvimento, que emprega um em cada dez funcionários do grupo no Brasil.  

Cenário desafiador. A alta do dólar aumentou os custos de produção e a queda do preço das commodities no mercado internacional apertou as margens dos produtores. Além disso, o crédito escasso e os juros mais altos tornaram os negócios no País ainda mais desafiadores. "Não há dúvida de que passamos um dos momentos mais delicados da história do País. No agronegócio, o cenário é preocupante", disse Vladimir Dônega, diretor da Luft Logística. Mauro Miranda, vice-presidente da CFA Society Brasil, ponderou que "esse momento de incerteza em relação à oferta de crédito do setor público pode ser uma boa hora para o agronegócio diversificar suas fontes de captação de recursos".

O presidente do Banco do Brasil, Alexandre Corrêa Abreu, disse que a instituição financeira está atenta à menor demanda por crédito para investimento no Plano Safra 2015/2016. "Nós achamos que o aumento da produtividade está ligado ao aumento do (crédito para) investimento". Segundo Abreu, os desembolsos do crédito rural entre julho e setembro somam R$ 21,7 bilhões, com média de R$ 334 milhões por dia útil, um avanço de cerca de 30% ante o mesmo período de 2014, mas não informou qual o montante destinado ao investimento e qual se refere à linha para custeio, cuja demanda aumentou este ano. O executivo defendeu a manutenção dos recursos para o crédito rural mesmo em um ano "difícil", com contingenciamento do orçamento público. 

Além das questões econômicas, o clima também trouxe desafios: "Após um forte El Niño, com frequência, o mundo passa por uma La Niña muito forte, com o efeito oposto", destacou o economista-chefe da Bolsa de Chicago (CME Group), Blu Putnam. Em sua fala, o especialista alertou o setor produtivo a se preparar para maiores oscilações nos preços das commodities em virtude dos eventos climáticos. "Se hoje chove (por causa do El Niño, depois teremos seca (La Niña). Se hoje está quente, amanhã haverá frio. Estamos prevendo muita volatilidade nos preços da agricultura", ressaltou. Nessa linha de raciocínio, Putnam prevê que os preços de commodities agrícolas, que hoje estão em patamares considerados baixos pelo mercado, podem não permanecer neste nível daqui a dois anos. 

Mercosul. Os países que integram o Mercosul têm o desafio de rever o propósito do bloco e promover a abertura no sentido de exportar mais e atender à demanda global de alimentos. A avaliação é do presidente do grupo argentino Los Grobo, Gustavo Grobocopatel: "Precisamos de um Mercosul mais aberto para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas", declarou.

O executivo defendeu maior integração entre os países, tanto do ponto de vista cultural como político, para alcançar o objetivo de abastecer a população com alimentos. O empresário disse, ainda, que Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai têm grande potencial para garantir a oferta de alimentos, mas que uma atuação individual de cada país levaria a uma perda de "tempo e dinheiro". 

A esperada volta da Argentina com força ao mercado de exportação de commodities também acirrará a concorrência entre os dois países, ambos grandes produtores agrícolas. "Teremos a Argentina de volta ao jogo", afirmou o presidente da Bunge Brasil, Raul Padilla, em referência à eleição de Mauricio Macri e à promessa de estimular as vendas externas com suspensão de tributos. Para ele, a exportação de soja e milho do país deve crescer.

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