Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Investimento em ações com FGTS nos anos 2000 mostra que longo prazo é o segredo da Bolsa

Quem investiu parte do Fundo de Garantia em papéis da Vale e da Petrobrás acumula ganhos pelo longo período sem mexer no dinheiro

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2019 | 06h00

Com a possibilidade anunciada pelo governo de distribuição de 100% dos lucros do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), já se sabe que sacar o dinheiro depositado no fundo e investir em renda fixa pode ser menos vantajoso do que manter o dinheiro nas contas.

Para conseguir rendimentos maiores, os especialistas indicam que o investidor procure melhorar sua educação financeira e partir para opções de mais risco. Para isso, porém, é fundamental ter horizontes de longo prazo. A experiência de quem, em 2000 e 2002, aproveitou a oportunidade de investir parte do dinheiro do FGTS em ações da Vale e da Petrobrás é um exemplo de como resistir a períodos de quedas é importante para obter ganhos na renda variável

No ano 2000, o governo abriu a possibilidade de que os trabalhadores investissem parte do dinheiro que tinham no Fundo de Garantia em ações da Petrobrás. Mesmo com o incentivo de 20% de desconto sobre o preço das ações da estatal na ocasião, o governo reservou R$ 3,4 bilhões em papéis para essa ação e só conseguiu vender R$ 1,6 bilhão.

Em 2002, foi a vez de os brasileiros terem a opção de comprar ações da Vale (à época, Vale do Rio Doce) com dinheiro do fundo. O governo ofereceu R$ 1,05 bilhão em ações, mas o mercado agora queria R$ 3,4 bilhões, o que forçou a realização de um rateio. O desconto foi de apenas 5%.

De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), quem manteve os montantes investidos nessas ações desde 2002 conta hoje com rendimento acumulado de cerca de 441% nas ações da Petrobrás, e 740% nas ações da Vale.

“O rendimento acumulado desse investimento mostra que o longo prazo vale a pena. Para colocar um dinheiro na Bolsa, na realidade, você não pode ter prazo para retirar, é necessário suportar os momentos de perda e retirar apenas em cenários muito positivos”, diz Myrian Lund, planejadora financeira e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Nesse exemplo, o fato de os trabalhadores não poderem mexer no dinheiro quando quisessem, mas apenas em casos em que é possível sacar o FGTS, contribuiu para que eles suportassem momentos de crise como em 2008, quando as perdas somaram no fim do ano 45% nos rendimentos das ações da Petrobrás e 52% na Vale;  e na sequência de 2013 a 2015, quando nenhuma delas apresentou rendimentos positivos, com ambas batendo na máxima negativa acumulada em um ano de 38%, a Petrobrás em 2014 e a Vale em 2015 . Quem passou por isso observa agora novamente um saldo positivo no investimento. 

O aposentado Elder de Sousa, de 56 anos, foi um dos que aproveitaram a oportunidade de investir na Vale em 2002. Depois de ouvir sobre essa possibilidade no rádio, passou na Caixa Econômica Federal e fez o investimento. Na ocasião, ele trabalhava como operador petroquímico. “Eu queria colocar mais dinheiro, mas não podia. Sabia que o Fundo de Garantia não rendia quase nada”, conta. Seu dinheiro não permanece investido até hoje: três anos depois, ele se surpreendeu com o valor que já havia acumulado e usou o dinheiro para quitar a hipoteca da casa própria. “Sempre fui mais conservador, não entrei em outras oportunidades que tive de comprar ações, mas por essa me interessei, era promissora. Valeu a pena”, diz.

O prazo que Elder deu ao seu investimento é o que alguns especialistas indicam para quem começa a se aventurar na renda variável. “Tem que pensar com horizonte de pelo menos dois a três anos”, aconselha Michel Viriato, professor do Insper.

Ele lembra que o custo de oportunidade para quem investiu o dinheiro naquela época era apenas o rendimento do próprio fundo, que ficou na maioria dos anos abaixo da inflação e não contava com a distribuição de lucros até 2017. De 2002 até hoje, o rendimento acumulado do FGTS ficou em 113,8%. As condições do fundo mudaram, mas o conceito de colocar em ações apenas a parte do seu dinheiro com a qual o investidor não conta para emergências se mantém. “Com juros mais baixos, as pessoas querem aplicar todo o capital em Bolsa, achando que a Bolsa só sobe. O problema é que ela vai cair em algum momento e elas não têm sangue frio para suportar as quedas”, explica.

Compensa fazer os saques?

Para quem ficou na dúvida em aproveitar os saques propostos pelo governo, ou mesmo resgatar os investimentos das ações dos anos 2000, ficam algumas dicas. “Se o dinheiro seguir investido nas ações da Vale e da Petrobrás, e não se pretender comprar um imóvel agora, vale a pena deixá-lo por lá”, diz Viriato. Para ele, a perspectiva desse tipo de investimento ainda é positiva e, além disso, o dinheiro tem as mesmas regras para saque do fundo. 

Para quem tem de decidir entre os saques que serão disponibilizados pelo governo, Myrian indica que “caso não tenha muito conhecimento de mercado financeiro, é melhor que o investidor deixe o dinheiro no FGTS, já que, com a distribuição de lucros, ele é mais rentável que opções do CDI”.

Ela aconselha que em um segundo momento, depois de obter mais educação financeira, o trabalhador aproveite possibilidades em fintechs - startups do setor financeiro - que são mais interessantes e não precisam de aportes tão altos. Para quem tem dívidas, porém, a especialista pontua que o saque é positivo.

Veja abaixo a comparação de como renderam diferentes investimentos no mesmo período.

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