Investimento estrangeiro acelera e cobre déficit das contas externas

País recebeu US$ 5,39 bi em investimentos na produção em setembro; déficit de comércio exterior, serviços e rendas foi de US$ 3,85 bi

Fabio Graner, Fernando Nakagawa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

O Brasil recebeu um forte volume de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) em setembro e pela primeira vez desde agosto do ano passado esses recursos conseguiram cobrir a saída de dólares gerada pelo déficit em conta corrente.

Entraram no País em investimentos para o setor produtivo em setembro um total de US$ 5,39 bilhões, melhor resultado para o mês desde 2008, enquanto o déficit de comércio exterior, serviços e rendas foi de US$ 3,85 bilhões, o pior setembro desde 1998.

Em outubro, os dados parciais divulgados pelo Banco Central mostram que o investimento produtivo deverá novamente ser mais que suficiente para cobrir o saldo negativo na conta corrente. Até ontem, os investimentos direcionados para a produção estavam em US$ 4,5 bilhões e o BC estima que devem fechar o mês em US$ 5 bilhões, volume 31,5% superior à previsão de déficit externo para este mês, que é de US$ 3,8 bilhões.

Apesar da melhora das contas externas em setembro (e que, pelos dados preliminares, continua em outubro), um olhar mais amplo ainda observa o quadro deteriorado. No acumulado em 12 meses encerrados em setembro, o déficit em conta corrente soma US$ 47,30 bilhões, o correspondente a 2,40% do PIB, enquanto o saldo de IED no período foi de US$ 30,91 bilhões, ou 1,57% do PIB. Assim, para cobrir esse buraco de US$ 16,4 bilhões, o País precisou contar com recursos como investimentos externos em renda fixa, ações, além de empréstimos tomados pelas empresas no exterior.

Combinação. Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, o quadro desfavorável das contas externas reflete a combinação do crescimento mais acelerado do País em comparação com o resto do mundo, além do real valorizado. "Enquanto o Brasil crescer mais que o mundo, não tem jeito, ainda mais com essa taxa de câmbio", afirmou. Mas ele acredita que este problema não deve trazer maiores transtornos para a economia brasileira nos próximos 18 a 24 meses. "Até onde dá para enxergar, não tem risco de crise, embora não se possa dizer que o quadro seja de sopa no mel."

Em relação ao crescimento do IED em setembro e em outubro, Gonçalves acha difícil que esse movimento se repita ao longo dos próximos meses.

Mas ele avalia que os investimentos devem ser melhores do que ocorreram no primeiro semestre. "Se mantiver o quadro internacional que está aí, o IED deve ficar próximo das projeções do Banco Central", afirmou o economista. O BC prevê entradas de US$ 30 bilhões em IED para 2010 e de US$ 45 bilhões para 2011.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, também diz que é cedo para dizer que o ritmo dos investimentos estrangeiros na produção de setembro e outubro veio para ficar. De qualquer forma, ele já identifica que projetos que haviam sido adiados por causa da crise no primeiro semestre começaram a ser desengavetados. Com o desempenho do mês passado e a parcial deste mês, a projeção de US$ 30 bilhões de IED neste ano está bem factível.

Metais e químicos. O forte IED em setembro, segundo o BC, foi liderado por grandes volumes vindos da Áustria e da Suíça que, juntos, responderam por 69% dos dólares que ingressaram como capital produtivo, o equivalente a US$ 3,7 bilhões. Os dados mostram ainda que os setores de extração de minerais metálicos e produtos químicos concentraram cerca de 73% dos ingressos em setembro, o correspondente a US$ 3,8 bilhões.

Além do fluxo de IED, o Brasil tem recebido cada vez mais dólares decorrentes de empréstimos tomados por empresas e bancos brasileiros no exterior. Isso tem provocado uma elevação no estoque da dívida externa do País neste ano.

De junho, último dado fechado pelo BC, até setembro, estimativa mais recente feita pela instituição, a dívida externa subiu US$ 15,2 bilhões, atingindo US$ 243,79 bilhões. No ano, a alta já é de US$ 45,6 bilhões.

O movimento de alta no endividamento ocorre tanto nos créditos de curto prazo - que se aproveitam mais dos juros mais altos do Brasil em relação ao exterior - como nos de médio e longo prazo (com prazo superior a um ano).

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