Investimento estrangeiro resiste

Cifra pode chegar a US$ 71,3 bilhões este ano, apesar da recessão e de o País ter perdido o selo de bom pagador

Márcia De Chiara e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2016 | 18h28

O fluxo de Investimento Direto no País (IDP), antigo Investimento Estrangeiro Direto (IED) deve continuar forte este ano, apesar da recessão que o País enfrenta e da perda do selo de bom pagador por várias agências de classificação de risco. A mediana das expectativas dos analistas do mercado financeiro para este indicador aponta para o ingresso de US$ 60 bilhões. Mas a estatística mostra consultorias como a Macrosector Consultores, por exemplo, que projeta entrada de US$ 71,3 bilhões. A cifra é ligeiramente menor do que a registrada no ano passado, quando US$ 75 bilhões ingressaram no País.

O investimento direto estrangeiro responde por cerca de 15% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que é o dinheiro novo usado para ampliar a capacidade de produção do País, seja na indústria, na agricultura ou no setor de serviços. Neste ponto é que reside uma divergência entre os especialistas. No ano passado o governo promoveu mudanças na metodologia de cálculo do IDP e passou a considerar dinheiro doméstico como investimento estrangeiro.

O presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima, vê com cautela a questão do investimento estrangeiro. Segundo ele, o Brasil está surfando na onda de um fluxo que está crescendo no mundo inteiro e mesmo assim perde volume.

Em segundo lugar, a metodologia no cálculo do investimento direto foi alterada de forma a dar ganho para o ingresso de recursos estrangeiros no País. "Desde o ano passado que dinheiro enviado pela subsidiária de uma empresa brasileira no exterior passou a ser considerado IDP na modalidade empréstimos intercompanhias", explicou o presidente da Sobeet. Também os reinvestimentos dos lucros de empresas estrangeiras no País passaram a ser considerados como IDP.

"A gente só está tendo resultado positivo por causa das mudanças. O Brasil está perdendo atratividade. E é por isso que mantenho o meu otimismo cauteloso", disse Lima.

Barato. Já na opinião do sócio da consultoria e responsável pelas projeções da Macrosector, Antonio Corrêa de Lacerda o Brasil ficou barato e atrativo. Ele observa que além dos preços dos ativos no Brasil estarem em baixa, os investidores estão olhando para o potencial do grande mercado consumidor de 200 milhões de habitantes que deve voltar a crescer quando o País sair da recessão. O economista argumenta que poucos mercados têm esse potencial de consumo.

Outro fator de atração do investimento direto estrangeiro é o juro elevado. "As empresas antecipam os recursos que serão investidos em empréstimos intercompanhias para aproveitar a taxa de juros", diz Lacerda. Essa prática é permitida pela legislação. Entre janeiro e abril, por exemplo, as operações entre uma mesma companhia responderam por 38% do investimento direto estrangeiro no País. No ano inteiro de 2015 essa fatia foi de 25%.

Lacerda explica que queda no grau de investimento afeta principalmente os recursos estrangeiros aplicados pelos fundos de investimentos no País. É que, pelas regras dos fundos estrangeiros, os recursos só podem ser aplicados em países que têm o selo de bom pagador.

O economista da Brasil Investimentos & Negócios (Brain) André Sacconato não avalia positivamente o desempenho do IDP que deve recuar US$ 4 bilhões em apenas um ano, considerando a previsão da Macrosector. "Investimentos estrangeiros caem lentamente porque a construção de uma fábrica, por exemplo, não ocorre de um ano para outro e porque o investidor não deixa a obra pela metade", disse Sacconato. Para ele, é condizente com o atual cenário econômico uma queda de US$ 4 bilhões no IDP. Mas isso não é bom.

"E não é razoável tentar achar uma explicação positiva para isso. Tanto que para IDP se usa modelos estruturais de longo prazo e não de modelos de volatilidade", disse Sacconato.

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