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Investimento na vacina

Há forte correlação entre a vacinação contra a covid-19 e a recuperação da economia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 19h06

Bem que o ministro da Economia, Paulo Guedes, havia alertado o País e o próprio governo Bolsonaro de que há uma forte correlação entre a vacinação contra a covid-19 e a recuperação da economia.

“Queremos vacinação em massa e retorno seguro ao trabalho”, disse o ministro em dezembro. Ele chegou até mesmo a afirmar que a vacinação deveria ser encarada como um investimento pelo governo: “O auxílio emergencial custa R$ 55 bilhões por mês, a vacinação de toda a população (despesa feita apenas uma vez) não passa de R$ 20 bilhões”. O ministro não mencionou outras importantes economias propiciadas pela vacinação. 

A partir do momento em que a maioria da população estiver protegida contra o novo coronavírus, cessa a pressão sobre os hospitais e sobre as UTIs. Milhares de atendimentos para outras doenças, suspensos desde março, poderão finalmente ser realizados. E, livres do novo coronavírus, as pessoas podem voltar a ter uma vida normal e voltar ao trabalho. Quanto não vale tudo isso?

E, no entanto, essas razões não foram nem um pouco compartilhadas pelo presidente Bolsonaro. Ele fez de tudo para levar o País a desdenhar da vacinação. Advertiu para supostos graves riscos que seriam produzidos pelos efeitos colaterais. Sugeriu que aquele que tomasse a vacina contra a covid-19 poderia “virar jacaré” ou que poderia passar a “falar fino”. 

Em outubro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi obrigado a suspender encomendas de 46 milhões de doses da vacina Coronavac, apenas porque seu princípio ativo é produzido na China, país que, segundo Trump e Bolsonaro, não é parceiro confiável do ponto de vista da segurança nacional.

Essa postura de pouco-caso para com a vacina foi um duplo erro grave de Bolsonaro. Primeiro erro: não entendeu o que o ministro Paulo Guedes vinha dizendo. Se queria bom desempenho da economia, tinha de investir na vacina, como têm feito governos responsáveis, e não o contrário.

Segundo erro: não avaliou que a oferta de vacina no País garantiria para o governo que nela se empenhasse grande aprovação política. Agora, teve de engolir os avanços em popularidade do seu maior adversário, o governador de São Paulo, João Doria, que recolhe agora os galardões da opinião pública por ter investido em parceria com o Instituto Butantan na vacina Coronavac, uma das duas únicas disponíveis no momento. Tardiamente e sobre o leite derramado, Bolsonaro passou a cornetear que a Coronavac é “a vacina do Brasil”.

Agora se vê que, por insuficiência de oferta, até mesmo na imunização da população mais exposta à contaminação, como a do pessoal empenhado nos serviços de saúde, idosos e indígenas, a vacinação avança à velocidade da lesma, enquanto o novo coronavírus se propaga como os ratos.

Reconheça-se, a falta de vacinas não é problema sanitário apenas do Brasil. Por toda parte, as denúncias são de que a população continua desprotegida em meio à nova onda da pandemia. Mas, no Brasil, esse problema foi seriamente agravado pela abordagem negacionista empregada, pelo presidente Bolsonaro; e, depois, pela falta de visão, de planejamento e pela incapacidade de negociação com os fornecedores por parte do general intendente e ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Agora, o governo despacha uma equipe de emissários paralelos para negociar oficialmente o suprimento de mais milhões de doses com o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Entre eles, figura o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Por que o ministro das Comunicações ficou importante nessa negociação, que teria mais a ver com política sanitária? Provavelmente para colocar no bojo dos arranjos o compromisso do governo de aprovar a tecnologia de conexão 5G de origem chinesa, até agora enjeitada por Bolsonaro por pressões do presidente Trump. Ou seja, para agora obter a vacina, o governo Bolsonaro ficou na mão daqueles que considerava indesejáveis ou que elegeu como seus inimigos políticos.

Como ficou anotado aqui na coluna de ontem, a Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que há em desenvolvimento, no mundo, 237 vacinas contra a covid-19, das quais 15 estão já no seu terceiro estágio de testes. É de prever, portanto, que, dentro de mais alguns meses, estarão disponíveis novas vacinas. O governo poderá tirar proveito delas para garantir a imunização, desde que se disponha a negociar seu suprimento com a necessária competência e não de maneira tão amadorística e tão confusa como a tratou até aqui.

*COMENTARISTA DE ECONOMIA

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