Investimento recua no governo Dilma

Apesar do objetivo da presidente de levar taxa de investimento para 22% do PIB até o fim do mandato, índice caiu de 19,4% para 18,8%

Fernando Dantas,

08 de setembro de 2012 | 23h34

RIO - A taxa de investimento da economia brasileira caiu quase o tempo todo durante o governo de Dilma Rousseff, indo na direção contrária ao objetivo da presidente de levá-la ao nível de 22% a 23% do Produto Interno Bruto (PIB). Dilma iniciou seu mandato com uma taxa de investimento acumulada em quatro trimestres de 19,46% do PIB, que caiu para 18,83% em junho de 2012, tornando cada vez mais difícil alcançar o objetivo.

Para a maioria dos economistas, é preciso chegar a pelo menos 22% de taxa de investimento para sustentar um ritmo de crescimento aceitável para a economia brasileira. Diversos países emergentes têm taxas superiores a 20%, e mesmo a 30% ou 40% do PIB (caso da China).

Muitos analistas consideram que uma taxa de investimento de 22% ou 23% do PIB no Brasil tornaria viável um crescimento equilibrado e sustentável em torno de 4% ou até 4,5% ao ano.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu governo com taxa de investimento de 16,4% do PIB, e a levou até 19,5% em 2010, pelos dados das contas nacionais anuais.

Nas contas nacionais trimestrais, a taxa de investimento em quatro trimestres saiu de 19,46% do PIB em dezembro de 2010, ao fim do governo Lula, para 19,52% em março de 2011, início do governo Dilma. A partir daí, ela caiu em todos os trimestres da administração da presidente.

Nenhum analista responsabiliza a gestão de Dilma pela queda da taxa de investimentos, que é um indicador que depende de fatores estruturais de longo prazo ou de oscilações conjunturais da demanda - em nenhum caso, algo que possa ser atribuído diretamente ao governo de plantão.

Mas problemas como câmbio valorizado, carências de infraestrutura, carga sufocante de impostos e entraves burocráticos e jurídicos (ver página B3) são vistos por alguns como obstáculos que vêm travando uma alta mais substancial do investimento há décadas. Na realidade, a taxa de investimentos anual não supera 20% do PIB há 21 anos.

"O custo Brasil está matando o investimento no País", disse Luiz Aubert, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamento (Abimaq).

Uma outra corrente, mais otimista, considera que a alta da taxa de investimentos, especialmente a partir de 2006, foi interrompida por fatores conjunturais. Primeiro, a grande crise global de 2009, e, agora, a forte desaceleração da economia brasileira a partir do segundo semestre do ano passado, também associada à piora internacional.

"Tem um componente conjuntural na freada no investimento que a gente não pode ignorar", disse o economista Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, "uma das razões principais para a recente contração dos investimentos é a incerteza sobre a economia global". Ele crê em retomada, com ritmo dependente do cenário externo.

Com a perspectiva de retomada da economia brasileira neste segundo semestre, e se houver crescimento em torno de 4% nos dois últimos anos do governo de Dilma, a taxa de investimentos poderia reiniciar a alta rumo aos 22% do PIB (mas chegaria lá após o fim do atual mandato).

Para Armando Castelar, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), a alta da taxa de investimento durante o governo Lula está ligada ao boom de commodities (favorável a diversos países da América Latina), que criou oportunidades em setores como agricultura, mineração e petróleo.

Agora, a interrupção da alta dos preços das matérias-primas pode ter contribuído para conter a expansão do investimento.

Já Octavio de Barros, diretor de pesquisa econômica do Bradesco, nota que a indústria e o investimento foram afetados mundialmente desde a grande crise global.

O economista Fernando Rocha, sócio da gestora de recursos JGP, lembra ainda que a expansão dos investimentos depende do aumento da poupança interna, para evitar uma dependência excessiva da poupança de estrangeiros, que vem na forma de déficits externos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.