Marcelo Min/Estadão
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Investimentos chineses no Brasil caem 74% em 2020, mas somam US$ 66,1 bi em 14 anos

Entrada de capital chinês no País somou US$ 1,9 bilhão em 2020, num período em que a economia foi prejudicada pela pandemia; valor é o menor desde 2014, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 07h00
Atualizado 05 de agosto de 2021 | 12h52

RIO - Os investimentos diretos da China no Brasil caíram 74% em 2020, para US$ 1,9 bilhão, por causa da crise em razão dos desdobramentos da covid-19. Foi o menor valor anual desde 2014, conforme estudo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), que será divulgado nesta quinta-feira, 5. O levantamento vai de 2007 a 2020, período em que os aportes chineses no País acumularam US$ 66,1 bilhões, ou R$ 343,2 bilhões pelo câmbio atual, em 176 projetos. Nesse período, o Brasil ficou com 47% dos investimentos totais da China na América do Sul.

“Em 2020, a queda (nos investimentos estrangeiros) foi sentida de forma geral no mundo”, afirmou o diretor de Conteúdo e Pesquisa do CEBC, Tulio Cariello, que apresentará o estudo em seminário online marcado para as 10 horas desta quinta.

No ano passado, os investimentos diretos no País (IDP), de todas as origens, tombaram à metade, para US$ 34,167 bilhões, conforme dados já divulgados pelo Banco Central (BC). Ao mesmo tempo, o fluxo global de investimentos caiu 35% ante 2019, para US$ 1 trilhão, segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). 

Além disso, a queda nos investimentos chineses no Brasil em 2020 se deu após uma alta de 117% em 2019 ante 2018. No ano anterior à pandemia, os aportes somaram US$ 7,3 bilhões, num avanço descolado da tendência de moderação nos aportes da China no exterior de 2017 em diante.

Conforme o estudo do CEBC, em valores, os investimentos chineses são concentrados nos setores elétrico (com 48% do total de 2007 a 2020) e petrolífero (com 28% do total). Também são feitos majoritariamente por 16 empresas estatais centrais – diretamente subordinadas ao Conselho de Estado da China – que atuam no Brasil e responderam por 82% dos investimentos acumulados de 2007 a 2020.

No setor elétrico, os destaques são a State Grid – que levou, em leilões de concessão, a operação de grandes linhas de transmissão, como as que conectam a hidrelétrica de Belo Monte, e adquiriu o controle da CPFL – e a China Three Gorges (CTG) – dona da hidrelétrica chinesa de mesmo nome e maior geradora privada de energia no Brasil. Segundo o CEBC, a maioria dos ativos dessas duas estatais fora da China está no Brasil.

No setor de petróleo, estão no País a China Petrochemical Corporation (Sinopec), a China National Petroleum Corporation (CNPC), a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) e a Sinochem. Elas têm investido, principalmente, em consórcios com a Petrobras para explorar campos de petróleo e gás na camada pré-sal.

Segundo Cariello, a concentração dos valores investidos nos setores elétrico e petrolífero está relacionada ao fato de que eles são intensivos em capital. Além disso, comparados a outros setores igualmente intensivos em capital, como transportes e logística, estão mais abertos a investimentos estrangeiros, em termos regulatórios e de oportunidades.

Por outro lado, a análise por número de projetos sugere que a concentração é menor, ponderou o diretor do CEBC. Dos 176 projetos com investimento chinês de 2007 a 2020, 31% são do setor elétrico, enquanto 28% são da indústria manufatureira. São empreendimentos nos setores automotivo, eletroeletrônico, químico e de máquinas e equipamentos, de empresas como BYD, TCL, Gree, Midea, Sanxing Electric, Chery, Sany, XCMG e Liugong. Em valores, respondem por apenas 6% dos investimentos de 2007 a 2020 – comprar ou construir uma fábrica é mais barato do que tirar do papel grandes obras de infraestrutura, como as linhas de transmissão.

Também com valores relativamente menores, o setor de tecnologia da informação (TI) respondeu por 7% dos projetos registrados pelo CEBC em 14 anos. Entre os negócios mais conhecidos nessa área estão a compra do controle do aplicativo de táxis brasileiro 99 pela Didi Chuxing e o investimento da chinesa Tencent, dona do aplicativo de mensagens WeChat, no Nubank, fintech avaliada em US$ 30 bilhões após recentes rodadas de investimento.

Em relação à forma de ingresso dos investimentos, 70% dos aportes de 2007 a 2020 se deram por meio de fusões e aquisições. Para Cariello, isso reflete o aprendizado dos investidores chineses, que passaram a preferir a compra de empresas ou ativos existentes, como forma de se adaptar ao ambiente de negócios e à burocracia do Brasil.

Embora, tradicionalmente, os investimentos em fusões e aquisições movimentem menos a economia, já que não constroem ativos do zero, Cariello lembrou que muitas das empresas compradas pelos chineses estavam em dificuldades. Segundo dados da Rede Acadêmica da América Latina e do Caribe sobre China (Rede ALC-China), citados pelo estudo, investimentos chineses em novos projetos no Brasil geraram 34,5 mil empregos de 2003 a 2020. Enquanto isso, as aquisições de investidores chineses teriam mantido um total de 140,4 mil postos de trabalho no País.

De acordo com o diretor do CEBC, para 2021, alguns movimentos em setores como o automotivo, o elétrico e o de TI poderão puxar uma recuperação, ainda que sobre uma “base de comparação baixa” em 2020. Isso porque, se a queda dos investimentos diretos chineses no Brasil em 2020 seguiu a tendência global, no longo prazo, a perspectiva é de crescimento. Cariello lembrou que o avanço nos investimentos externos chineses nas duas últimas décadas acompanha o aumento do peso geopolítico do gigante asiático, processo que ainda não terminou.

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