Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Investimentos crescem, mas perspectivas são ruins

O já elevado grau de incertezas, que inibe a decisão de investir, tende a se exacerbar no ano eleitoral

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 05h00

Matéria publicada no jornal Valor Econômico, de segunda-feira passada, informa que, conforme dados apurados pelo Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec), as empresas industriais de capital aberto elevaram significativamente seus investimentos em capital fixo durante a pandemia, que alcançaram o patamar de 5,4% do PIB, no primeiro trimestre de 2021, superando o recorde de 4,6% do PIB registrado em 2010.

Antes que o ministro Paulo Guedes saia comemorando, é preciso analisar com cuidado o que esses dados nos contam, bem como se esse desempenho pode ser mantido.

Na verdade, como destacou o professor Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec, apesar da pandemia, esse período foi caracterizado por condições excepcionalmente favoráveis para alguns setores industriais, com destaque para aqueles ligados ao segmento de commodities, como mineração e petróleo, por exemplo, beneficiados não só pelo aumento das cotações internacionais, como também pela desvalorização do real. Além disso, a taxa básica de juros (Selic) atingiu patamar historicamente baixo, o que reduziu de forma significativa o custo de capital para as empresas.

Essa elevação dos investimentos das companhias de capital aberto, apurado mediante compilação em seus balanços, pode ser observada, em menor intensidade, também em dados mais agregados, como os divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

No entanto, ela não foi suficiente para recuperar, de forma significativa, o investimento líquido em capital fixo da economia, ou seja, o que sobra depois de computada a depreciação de máquinas, equipamentos e construções. Segundo o Ipea, o investimento líquido agregado a preços constantes, que é a variável que impacta a taxa de crescimento potencial do PIB, está aproximadamente no mesmo nível de 2015. Não se trata de contradição entre as estatísticas do Ipea e do Cemec, dado que elas não medem exatamente a mesma coisa.

Outro dado preocupante é a forte queda no investimento realizado pelo governo geral, ou seja, União, Estados e municípios, sem estatais, em virtude do engessamento e da deterioração das contas públicas. Esses investimentos chegaram a alcançar 4% do PIB nos anos 70, tendo caído para 1,2% do PIB em 2019.

Mesmo para as indústrias de capital aberto, as variáveis que estimularam os investimentos nos últimos trimestres começam a trocar de sinal. As cotações internacionais das commodities, com poucas exceções, mostram que o ciclo de alta está se revertendo. A Selic já subiu significativamente e vai continuar a subir, dada a necessidade de controlar a inflação, o que aumenta o custo de capital para as empresas e afeta negativamente o crescimento da economia.

E o já elevado grau de incertezas, que inibe a decisão de investir, tende a se exacerbar no ano eleitoral de 2022, que promete ser conturbado.

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