Investimentos da China no Brasil são questionados

Embaixador brasileiro em Pequim diz que não 'vê muito sentido' nos negócios de terra e de mineração dos chineses no Brasil

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

A China terá papel "importante" na exploração das reservas de petróleo do pré-sal, mas os investimentos do país asiático na compra de terra e no setor de mineração no Brasil "não fazem muito sentido", afirmou ontem o embaixador do Brasil em Pequim, Clodoaldo Hugueney.

"A China é um grande comprador de minério e isso é algo que deve ser considerado", declarou o diplomata durante encontro com correspondentes estrangeiros na capital chinesa. O embaixador ressaltou que esse segmento envolve questões relacionadas à soberania nacional e observou que o Brasil já possui uma grande mineradora, a Vale, cujo principal cliente é a China.

No caso da compra de terras, Hugueney observou que o Brasil tem um dos setores agrícolas mais modernos do mundo, que não necessita de recursos estrangeiros para se expandir. Grupos chineses manifestaram interesse na aquisição de grandes extensões de terra no Brasil para produção de soja, em uma tentativa de garantir o fornecimento do produto ao país asiático.

O aumento da presença de investidores externos no setor agrícola levou o governo brasileiro a anunciar em agosto a limitação da propriedade de terras por estrangeiros.

No caso da mineração, a China desembolsou no começo do ano US$ 1,2 bilhão pela Itaminas. Os chineses também investiram US$ 390 milhões na compra da Sul America Metais, do grupo Votorantim, e US$ 400 milhões na aquisição de participação minoritária na MMX, mineradora do grupo de Eike Batista.

A China é o maior comprador de minério de ferro do mundo e a ampliação de sua presença no Brasil tem por objetivo criar fontes seguras do produto e reduzir o poder das grandes mineradoras na definição do preço internacional da commodity, o que inclui a Vale.

"O investimento estrangeiro deve ir para áreas onde há carência de tecnologia ou de capital", afirmou Hugueney. Para ele, esse cenário não está presente nem no caso de terras nem do de minério.

Setores promissores. O embaixador acredita que os setores de petróleo e de infraestrutura estão entre os mais promissores na captação de investimentos chineses no Brasil, que explodiram desde o início do ano.

Em maio, a estatal Sinochem comprou 40% do campo de petróleo Peregrino, controlado pela norueguesa Statoil, por US$ 3,07 bilhões. No dia 1.º de outubro, a espanhola Repsol anunciou aporte de US$ 7,1 bilhões da Sinopec em suas operações no Brasil, no que é até agora o maior investimento chinês no país.

A China é o segundo maior consumidor e importador de petróleo do mundo e é desde o ano passado o maior destino das exportações da Petrobrás depois dos Estados Unidos. Nos primeiros nove meses deste ano, a estatal brasileira vendeu US$ 3,18 bilhões de petróleo para a China, com alta de 294% em relação a igual período do ano passado.

O aumento dos embarques se deve ao financiamento de US$ 10 bilhões concedidos pelo Banco de Desenvolvimento da China à Petrobrás no ano passado, que tem como garantia a venda de petróleo da empresa à estatal Sinopec.

O acordo só entrou em vigor no fim de 2009, quando a companhia brasileira começou a utilizar recursos do empréstimo. Nos primeiros 12 meses, a Petrobrás tem que entregar 150 mil barris de petróleo/dia para a China, cifra que subirá para 200 mil barris/dia nos nove anos restantes do contrato.

A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 serão dois eventos que deverão atrair companhias chinesas para as áreas de infraestrutura e construção, afirmou Hugueney.

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