Cargill/Divulgação
Vista aérea do canteiro de obras da fábrica de pectina da Cargill em Bebedouro (SP) Cargill/Divulgação

Investimentos de cooperativas e empresas dão novo fôlego a pequenas cidades

No interior de São Paulo, fabricante de implementos agrícolas faz primeira expansão produtiva em 15 anos em Pompeia (SP), município de 20 mil habitantes

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 14h00

No município de Bebedouro, no interior do Estado de São Paulo, com quase 80 mil habitantes, há hoje cerca de mil pessoas trabalhando na construção na fábrica de insumos da Cargill. A obra começou no ano passado e a unidade, inicialmente orçada em R$ 550 milhões, entra em operação em meados deste ano. Cerca de metade dessa cifra faz parte do pacote de quase R$ 1 bilhão que a companhia investiu no País em 2020.

Com mais da metade da produção voltada para exportação, a nova fábrica de pectina poderia ser instalada na Flórida (EUA) ou no México. Mas a multinacional americana escolheu o Brasil por causa da disponibilidade de matéria-prima, além de oferta de mão de obra e condições de infraestrutura, conta Laerte Moraes, diretor de negócios da empresa. 

A pectina, espessante usado pela indústria de alimentos, é extraída da casca da laranja e a cidade de Bebedouro é um polo de citricultura. “Não tenho dúvida de que a cidade toda se reconfigura quando ocorre um investimento desse porte, com novos moradores trazendo novas demandas para o comércio e os serviços locais”, diz o executivo.

A Coamo Agroindustrial, de Campo Mourão (PR), maior cooperativa singular da América Latina com um faturamento de R$ 20 bilhões, por exemplo, distribuiu no ano passado R$ 504 milhões em resultados a 30 mil cooperados. Esse dinheiro irrigou as economias das 71 cidades do interior espalhadas entre Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, onde a cooperativa atua.

Mas o grosso da injeção de recursos da cooperativa nas cidades do interior ocorre por meio de investimentos. Neste ano, a Coamo começa a construção de uma fábrica de ração para bovinos, suínos, frangos e pets em Campo Mourão, onde serão investidos R$ 81 milhões. Essa cifra faz parte de um pacote de R$ 425 milhões previstos para 2021, que serão aplicados também na modernização de duas indústrias de óleo no Paraná e duas novas unidades da cooperativa no Mato Grosso do Sul. 

“Há mais de dez anos estamos investindo cerca de R$ 400 milhões por ano”, conta Airton Galinari, presidente da Coamo, que atribui esse ritmo de investimentos à expansão do agronegócio e à sua rentabilidade. O que se vê nos municípios onde a cooperativa está é que áreas de pastagens degradadas estão virando lavouras. “Isso expandiu demais a produção de grãos e a indústria de processamento tem que acompanhar.”

No ano passado foram aplicados R$ 414 milhões. Metade do dinheiro foi para a construção de um novo terminal no Porto de Paranaguá (PR), em fase de conclusão, para exportação de farelo e grãos. Para os dois próximos anos, estão previstos investimentos na indústria de etanol de milho e na duplicação da capacidade do moinho. Juntos, os projetos devem somar R$ 750 milhões.  

Longo prazo

Apesar do bom momento do agronegócio, empresas do setor argumentam que esse movimento é cíclico. Isto é, marcado por períodos de bonança e de restrições, intercalados. “Não temos visão oportunista do mercado por conta do boom de commodities e investimos olhando para o longo prazo”, diz Morais, da Cargill. Aliás, o setor tem perspectiva favorável para os próximos anos, diante da demanda mundial crescente por alimentos.

Também com essa visão, a Jacto, fabricante de implementos agrícolas e o maior empregador de Pompeia, município paulista com cerca de 20 mil habitantes, iniciou neste ano a construção de uma nova fábrica. Hoje são 50 pessoas trabalhando no canteiro da obra, mas no pico da construção, deve reunir cerca de 700 trabalhadores.

A nova fábrica terá o dobro de tamanho da atual. Serão 96 mil metros quadrados de área construída e a unidade vai seguir os conceitos da indústria 4.0, como sistema automatizado de pintura, movimentação de materiais por veículos autônomos, por exemplo.

Sem revelar a cifra investida, Fernando Gonçalves Neto, diretor presidente da Jacto, que faturou o ano passado R$ 1,3 bilhão, afirma que esse é o maior investimento da história da companhia, que completou 73 anos neste ano. A última expansão foi há 15 anos. 

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Alavanca do PIB, agronegócio vive ‘boom’ de investimentos e espalha riqueza pelo interior do País

Setor cresceu 5,7% no primeiro trimestre, contra um avanço geral de 1,2% do PIB; cálculos de banco internacional apontam avanço de 20% nos investimentos do setor

Márcia De Chiara , O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 14h00

Os polos do agronegócio do País vivem hoje uma forte aceleração de investimentos privados. Os recursos estão sendo aplicados em toda a cadeia de produção: da expansão da área plantada no campo, melhorias na tecnologia de cultivo, à construção de novas fábricas de processamento de matérias-primas, de equipamentos agrícolas e em avanços na logística e na infraestrutura para escoar os produtos.

O dinheiro novo que chega a pequenos municípios do interior do País espalha a riqueza gerada pela alta de cerca de 60% dos preços em dólar das commodities agropecuárias no mercado internacional durante o último ano. E essa receita foi turbinada pela safra recorde de grãos. 

O bom momento do agronegócio já apareceu no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano, que avançou 1,2% ante o último trimestre de 2020. O desempenho surpreendeu e boa parte dele foi sustentado pelo crescimento de 5,7% do PIB da agropecuária. Mesmo com a pandemia, o setor continuou a todo vapor nas exportações de grãos e carnes e também nos investimentos.

Não existem dados consolidados sobre os investimentos totais privados na cadeia do agronegócio, mas há indicações de que um forte movimento de expansão está em curso. Levantamento da assessoria econômica do Bradesco, por exemplo, com base em informações públicas de grandes empresas do setor, revela que, em 12 meses até abril, 27 novos empreendimentos foram anunciados. Eles estão voltados basicamente para a cadeia de processamento de carnes e grãos e somam mais de R$ 7 bilhões. Por dois meses seguidos, o total de aportes anunciados em 12 meses cresceu a uma taxa superior a 20%. Priscila Trigo, economista responsável pelo estudo, pondera que os dados retratam apenas uma parte do movimento porque o produtor rural normalmente não divulga investimentos.

Mas o Rabobank, banco holandês que no Brasil atua só no agronegócio, capta a parte oculta desse movimento. Neste ano, o banco já registra crescimento de 20% em relação a 2020 no número de propostas dos clientes em busca de recursos para investimentos. “Percebemos um apetite maior para investimento por parte de cooperativas, grandes produtores rurais e cadeias de processamento”, conta a diretora executiva, Fabiana Alves. Foi o maior avanço dos últimos três anos na demanda por recursos para investimento registrado pelo banco, especialmente os destinados a produção de grãos e de proteína animal.

Enquanto em 2015 houve uma tempestade perfeita, com seca, câmbio e preços das commodities desfavoráveis e redução do crédito, hoje o momento é exatamente o oposto, diz Fabiana. O setor vem de duas safras com clima favorável, preços das commodities em alta, câmbio desvalorizado – que impulsiona as exportações – e há oferta de crédito com juros baixos. Em alguns momentos, o crédito privado está até mais barato do que o crédito oficial, observa o economista André Pessoa, presidente da consultoria Agroconsult. Ele ressalta que esse é um fator importante que, somado a outros, turbina o investimento neste momento.

O pano de fundo desse cenário, no entanto, é a grande competitividade do agronegócio acumulada ao longo dos últimos anos. O setor ganha impulso adicional no momento por causa dos baixos estoques mundiais frente à demanda crescente por alimentos, especialmente grãos, explica Pessoa. Além disso, a necessidade de reaquecer as economias em razão da pandemia fez os bancos centrais injetarem um grande volume de dinheiro. Essa enorme liquidez global provocou o enfraquecimento do dólar. E a avalanche de recursos extras foi direcionada para a compra de ativos reais, entre os quais estão as commodities agropecuárias.

Boom

A consequência é uma pressão ainda maior sobre os preços em dólar das matérias primas agropecuárias e uma rentabilidade extraordinária em reais para o setor. Como o agronegócio brasileiro está bem posicionado em termos de rentabilidade, competitividade, eficiência comercial e logística, argumenta o economista, os empresários querem aproveitar o bom momento para crescer. E o investimento em aumento da capacidade de produção, tanto da terra como em fábricas de processamento, é caminho obrigatório. “Os produtores estão com o pé embaixo no investimento. É um boom”, afirma Pessoa.

Só no campo, a estimativa do consultor é que a área plantada com grãos na safra 2021/2022 seja ampliada em 3 milhões de hectares. Serão 1,6 milhão de hectares a mais de soja, 1 milhão de hectares de milho safrinha e 300 mil hectares adicionais plantados com algodão.

Isso sinaliza que a indústria terá que atender uma demanda maior por máquinas, fertilizantes, silos, defensivos, implementos, caminhões, fábricas para processamento a fim de suportar esse crescimento, exemplifica o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados e ex-secretário de Política Econômica. “Esse crescimento exige também mais materiais de construção, porque uma parte disso vira obra civil”, observa.

Segundo Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, há um espalhamento da renda em dólares proporcionada pelo ciclo global das commodities para várias cidades do Brasil. “O investimento no setor acaba multiplicando esses recursos e gerando mais renda e emprego no interior”, afirma. 

Estudo recente feito pela economista Priscila Trigo, do Bradesco, mostra que os municípios nos quais a agricultura e a pecuária pesam na economia local o dobro da média nacional acabaram gerando em abril deste ano um volume de emprego formal duas vezes maior do que as demais cidades na comparação com o mesmo mês de 2020. “E as vagas formais abertas não foram necessariamente no setor agrícola, mas no comércio e na construção civil, principalmente”, frisa a economista. 

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Confiante no crescimento, setor de carnes tira projetos bilionários do papel

BRF tem plano de investimento de R$ 55 bilhões em dez anos, enquanto a JBS amplia investimentos para cerca de R$ 8 bi em 2021

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 14h00

O setor de carnes tem investimentos bilionários previstos para os próximos anos. A BRF, por exemplo, tem um plano de aplicar R$ 55 bilhões em dez anos, dos quais R$ 5,2 bilhões serão investidos neste ano. “Não há aceleração de investimentos por conta do boom de preços das commodities”, afirma Lorival Luz, CEO da BRF. Mas ele ressalta que está confiante nas expectativas. “A commodity subiu, mas o crescimento da população e a demanda por alimentos continuará.” 

O maior projeto da companhia neste momento é a fábrica de salsicha em Seropédica (RJ). Com aporte de R$ 300 milhões, a unidade começa a funcionar em julho e vai atender o mercado doméstico. Também foram aprovados investimentos para aumento da capacidade de produção no País nas fábricas de pratos prontos, produtos processados, fatiados, além de um grande aporte na cadeia de suínos. 

Outra gigante na produção de proteína animal, a JBS, investiu globalmente US$ 1,1 bilhão (R$ 5,7 bilhões) em 2020 na expansão dos seus negócios. Desta cifra, US$ 600 milhões foram aplicados em crescimento orgânico, tais como modernização, expansão e construção de novas unidades produtivas, além de recuperação da depreciação de ativos. O pacote anual inclui R$ 280 milhões investidos na construção de uma unidade de biodiesel, em Mafra (SC), e R$ 91 milhões em uma fábrica de fertilizantes em Guaiçara (SP).

Para 2021, a empresa informa que prevê acelerar seus planos de expansão e deve fechar o ano com investimentos consolidados entre US$ 1,5 bilhão (R$ 7,8 bilhões) e US$ 1,7 bilhão (R$ 8,8 bilhões). No Brasil, as obras para expansão das unidades da Seara seguem aceleradas e a empresa acaba de anunciar a construção de uma nova unidade de alimentos preparados em Rolândia (PR), que receberá neste ano investimento de R$ 800 milhões, a primeira etapa da obra. 

Também neste ano serão aplicados R$ 1,7 bilhão para expansão de sete unidades da marca Seara no Rio Grande do Sul, com conclusão prevista para 2023. 

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‘Ao contrário do setor urbano, agronegócio nunca parou de crescer’, diz economista

José Roberto Mendonça de Barros afirma que agro tem ‘efeito multiplicador’, mas não pode segurar sozinho a recuperação do PIB

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 14h00

Uma das razões pelas quais as projeções de crescimento da economia para este ano estão sendo ampliadas é o bom desempenho do agronegócio, que tem atraído grande volume de investimentos, segundo avaliação do economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB Associados. “O agronegócio tem efeito multiplicador, mas sozinho não destrava a economia”, alerta o economista, lembrando que a geração de emprego no próprio setor é pequena. 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

O que explica o grande investimento na cadeia do agronegócio?

Ao contrário do setor urbano, o agronegócio nunca parou de crescer. O simples fato de crescer já exige mais instalações, equipamentos etc. Na safra 2015/2016, foram plantados 58 milhões de hectares e colhidos 186 milhões de toneladas de grãos. Na safra 2020/21, a estimativa é de uma produção de 271 milhões de toneladas de grãos. São 85 milhões de toneladas a mais em 10 milhões de hectares adicionais. Plantar 10 milhões de hectares a mais requer mais tratores, equipamentos, fertilizantes, defensivos, por exemplo. Por outro lado, há necessidade de mais silos, armazéns, transporte, fábricas para processar os grãos.

O senhor acha que o boom de preços das commodities está acelerando os investimentos no agronegócio?

Em princípio, parece que sim. O Brasil não para de crescer nisso. Há a ameaça da questão ambiental, uma ameaça seriíssima, que o governo não leva a sério como deveria. Mas, em tese, a demanda por produtos brasileiros continua crescendo, porque a procura internacional está muito forte nesse pós-pandemia. Papel e celulose são exemplos. Esses, basicamente destinados à exportação.

Esses investimentos no agronegócio têm efeito multiplicador na economia ou a pandemia pode abafar esse movimento?

Tem efeito multiplicador. Grosseiramente, admite-se que o agronegócio direta e indiretamente represente entre 25% e 30% do PIB (Produto Interno Bruto). O agronegócio não carrega o PIB todo. Mas o desempenho do agronegócio é uma das razões pelas quais as projeções de PIB para este ano estão melhorando. Disso eu não tenho dúvida. A indústria está mais forte e isso tem a ver com a demanda ligada ao agronegócio.

Mas o desemprego continua elevado...

Sozinho o agronegócio não destrava a economia. A questão é que o agro não é grande gerador de emprego, muito pouco. Até porque a produtividade e a digitalização estão muito aceleradas no setor. Isso faz com que o emprego cresça relativamente de forma mais modesta. A situação do emprego não avança sem a ajuda da construção civil.

O senhor acredita que esse boom de preços de commodities se sustente ou será passageiro?

Difícil falar de futuro e hoje, mais ainda. O que nós da MB achamos é que, ao menos por mais dois anos, será sustentável. Isso porque tem muito dinheiro rodando pelo mundo e a demanda por alimentos, metais, materiais de construção, é crescente. Os estoques de alimentos estão muito baixos. 

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