Investimentos diretos caem 51% no mundo

Nunca, pelo menos nos últimos 30 anos, os investimentos estrangeiros diretos (IED, sigla em inglês) caíram tão significativamente como em 2001, o que mostra claros sinais de que a economia mundial está mesmo em crise e que a recuperação pode estar ainda muito longe. Segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), que divulgou segunda-feira em mais de 60 países o "Informe sobre os investimentos no mundo", o IED despencou 51% no ano passado, para uma cifra de US$ 750 bilhões. "Trata-se da maior queda em 30 anos e o primeiro tão significativo no último decênio", disse o embaixador Rubens Ricupero, secretário geral da Unctad, em entrevista exclusiva à Agência Estado.Coincidência ou não, nos mais de 60 países onde foi divulgado o relatório da Unctad, os investimentos diretos caíram significativamente em 2001. Pior, de acordo com as estimativas desse braço para o comércio e o desenvolvimento das Nações Unidas, o fluxo de capital direto no mundo deverá cair ainda mais este ano e em 2003. Ricupero acredita que em 2002 a retração do fluxo de capitais no mundo poderá ser de 20%. "É mais uma razão para o Brasil ter atitudes de extrema cautela com esses compromissos de superávit primário com o Fundo Monetário Internacional", alertou Ricupero, que retorna esta semana para Genebra, depois de passar por Boston e Nova York, onde terá compromissos como secretário da Unctad.CautelaDe acordo com o embaixador, essas metas amarram e condicionam os investimentos públicos, no momento em que os investimentos estrangeiros estão se retraindo de forma preocupante. "Se o Brasil continuar a reduzir as importações, como vem ocorrendo, a produção será diretamente afetada a médio prazo. Pergunto, como será possível produzir então o superávit acertado nesses patamares?", questionou o embaixador. Para ele, o mundo nunca foi tão perigoso e imprevisível como agora, o que afeta consideravelmente a oferta de investimentos nos países emergentes. "Os investidores passaram a ter um comportamento muito mais cauteloso."Pelo segundo ano consecutivo, por exemplo, os investimentos estrangeiros diretos na América Latina voltaram a cair. No ano passado, os países da região receberam US$ 85 bilhões, ou 11% a menos do que em 2000, quando esse fluxo de capitais já havia se retraído outros 13%, em comparação a 1999. Só os espanhóis, que estão entre os que mais investiram na América Latina na última década, enviaram 49% a menos de recursos para o exterior em 2001, em relação ao ano anterior, passando de US$ 54,675 bilhões para US$ 27,8 bilhões. Os investimentos dos EUA em outros países também caíram 30% nesse mesmo intervalo, ficando em US$ 114 bilhões.FusõesRicupero cita entre os fatores que afetaram os investimentos diretos, principalmente nos países industrializados, a queda de fusões e aquisições entre empresas e a desaceleração econômica mundial. Entre janeiro e julho deste ano apenas, essas operações somaram US$ 222 bilhões, cerca de 44% menos do que no mesmo período do ano passado. "Essa retração está ligada ao estouro da bolha na área de telecomunicações, embora não se limite apenas a esse setor", disse.O embaixador comentou que esse estouro contribuiu também para a desaceleração econômica norte-americana. "Há indícios preocupantes, como indica o recente relatório do FMI, sobre o risco que existe no sistema bancário dos EUA por causa dos investimentos excessivos nessa área", acrescentou. O embaixador contou, por exemplo, que 80% dos cabos de fibra ótica estendidos em todo o território norte-americanos nos últimos anos nunca receberam ou transmitiram sequer um sinal de dados, voz, imagem ou som e, por já estarem obsoletos, poderão nunca mais ser utilizados."Houve investimentos excessivos nessa área, semelhantes aos verificados em outros setores nos anos prévios a 1914, quando estourou uma crise econômica. Vale lembrar que crises geradas por fatos como esses são preocupantes, já que, para sair delas, é mais penoso do que sair de uma recessão provocada pela inflação", afirmou. O embaixador disse que, daqui para frente, tudo dependerá do comportamento da economia norte-americana, que, por sua vez, dependerá do conflito dos EUA com o Iraque. "Se a guerra for declarada, certamente o preço do petróleo irá a disparar, talvez para um patamar de US$ 40 por barril ou mais."

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