Herton Escobar/Estadão - 07/10/2017
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Fábio Gallo
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Investimentos ESG não necessariamente são éticos ou causam um grande impacto

A pergunta ‘Quantas focas você quer matar para salvar uma ovelha?’ ilustra o dilema de como é difícil tomar decisões éticas

Fabio Gallo*, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2021 | 04h00

As empresas que conduzem os seus negócios com preocupação ambiental, de responsabilidade social e de governança, as práticas conhecidas pela sigla ESG, estão em alta. São tidas como bons investimentos porque têm a perspectiva de trazer retorno ao investidor, com grau de risco compatível. 

O argumento favorável à adoção de práticas ESG é que as empresas que consideram essas métricas não financeiras tendem a mitigar riscos e gerar valor para o negócio, afinal levamos isso em consideração na hora de investir. Mas esse tipo de investimento não é necessariamente ético ou, mesmo, um investimento de impacto. 

Uma primeira crítica é à prática de “greenwashing”, que em tradução literal seria “lavagem verde”, trata-se de propaganda enganosa de organizações que divulgam preocupações ambientais e sociais, mas na realidade não mantêm essa prática. De forma geral adotamos a premissa de que as empresas atendendo à preocupação ambiental e social atingiriam resultados eticamente mais consistentes e atenderiam a condições de investimentos de impacto. Esse caminho não é tão linear. 

O investimento com características ESG, além de retorno financeiro, foca em mitigar riscos ambientais, sociais e de governança. A visão do ESG é de que a gestão inadequada desses riscos afeta os negócios no longo prazo e reduz o retorno. O investimento de impacto tem seu foco em organizações dedicadas à busca de soluções a problemas sociais e ambientais, e que, também, dão retorno financeiro. 

No outro espectro da análise, pode ser vista a diferença entre investimentos ESG e ético. Aqui, entra a perspectiva do indivíduo. Os investidores éticos buscam investir em negócios alinhados com seus princípios. No geral, colocam recursos naquelas atividades que trarão um futuro melhor para todos, como energia renovável, e se negam a colocar dinheiro em empresas que queimam florestas, e de armas, de tabaco, por exemplo. 

O professor Roberto Rigobon, do MIT, usa um exemplo para mostrar como é difícil tomar decisões éticas: caso você queira apoiar os direitos dos animais, você deveria comprar roupas veganas? Elas geralmente são feitas de plástico, que podem acabar em um aterro sanitário ou no oceano. Então, ele pergunta: “Quantas focas você quer matar para salvar uma ovelha?”. O fato é que, mesmo que estabeleçamos diferenças entre esses tipos de investimento, todas essas estratégias são necessárias. É importante reconhecer que o investidor está mais maduro e levando as instituições a caminhos melhores para todos.

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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