Investimentos na agenda regional do Brasil

Divulgados os resultados do balanço de pagamentos em 2010, chama a atenção o forte crescimento dos investimentos brasileiros no exterior, retomando tendência interrompida em 2009. No ano passado, o valor líquido dos investimentos brasileiros no exterior atingiu US$ 11,5 bilhões - resultado inferior aos registrados em 2006 e 2008. Apesar disso, a saída de capitais a título de participação de capital foi recorde - US$ 30,2 bilhões -, confirmando a consistência do processo de internacionalização de empresas brasileiras, que ganhou fôlego, principalmente, a partir de 2004 e superou o baque da crise recente.

SANDRA POLÓNIA RIOS E PEDRO MOTTA VEIGA, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

A América do Sul, desde o início da década, é um dos destinos prioritários dos investimentos externos brasileiros. Nos últimos anos, houve grandes operações de aquisição realizadas por empresas brasileiras em outras regiões - notadamente na América do Norte e, em menor escala, na África e Ásia -, mas o continente manteve-se um importante destino dos investimentos externos do Brasil. Segundo dados da Sobeet, das dez maiores transnacionais brasileiras, apenas uma não tem investimentos diretos na América do Sul, e das dez maiores operações de investimento greenfield realizadas por empresas brasileiras no exterior, no período 2007-2009, quatro foram na América do Sul (e uma no México).

A partir das informações reunidas pelo IndexInvest do Cindes, é possível apresentar alguns fatos estilizados acerca das tendências observadas nos investimentos diretos brasileiros na América do Sul nos últimos anos:

As empresas investidoras são, em sua maioria, produtoras de insumos industriais (minerais) e de bens intermediários (cimento, metalurgia e siderurgia, petroquímicos), embora em alguns países, principalmente na Argentina, haja maior diversificação setorial (alimentos e bebidas, calçados, têxteis e confecções);

estas empresas perseguem estratégias de acesso a recursos naturais (de origem mineral, principalmente) e de ocupação e expansão de market-share doméstico nos países de destino dos investimentos (caso dos bens intermediários e de bebidas);

investimentos em serviços vêm ganhando importância: serviços financeiros, hotelaria e tecnologia da informação estão entre os setores em que o Brasil investe em outros países da região;

apesar da presença de algumas grandes operações de investimento greenfield, a entrada de empresas brasileiras nos mercados de outros países sul-americanos dá-se, sobretudo, por meio da aquisição de empresas locais, de suas marcas, unidades de produção e canais de comercialização;

o Peru destaca-se como um importante destino dos investimentos brasileiros nos setores de energia, mineração e metalurgia básica e cimento, tendo recebido, em 2010, dois dos três maiores investimentos realizados na região, mais o México. A Colômbia ocupa uma posição secundária, mas não irrelevante no ranking de destinos dos investimentos brasileiros na América do Sul.

A expansão de empresas brasileiras na América do Sul não é, no entanto, isenta de riscos, como atesta a experiência boliviana na Petrobrás, a expropriação de empresas argentinas na Venezuela e a incerteza regulatória que afeta investidores brasileiros na Argentina. A relevância de Peru e Colômbia como destino dos investimentos recentes brasileiros, em contraste com a pequena relevância de Venezuela e Bolívia, pode ser interpretada como um sinal de que o risco político passa a condicionar as decisões de investimentos das empresas brasileiras na região. Além disso, a crescente importância de investimentos em setores sensíveis, em termos ambientais (mineração, por exemplo), sugere que novos fatores de risco político deverão ser internalizados nas estratégias das empresas brasileiras.

A consolidação da tendência de internacionalização das empresas brasileiras em um contexto de maior incerteza regulatória, particularmente nos setores intensivos em recursos naturais, sugere que é hora de incorporar os temas de proteção dos investimentos na agenda brasileira para a América do Sul.

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