Investimentos, pode ser só o começo

Após tantos anos de hesitação e cautela, os investidores externos, que estão nadando em dinheiro e não sabem o que fazer com ele, redescobriram o Brasil. Antes eram dezenas de bilhões de dólares em aplicações financeiras de liquidez imediata.Agora são mais de três dezenas em investimentos diretos que geram produção e emprego.Parece que eles, afinal, aprenderam a diferenciar as desadmistrações oficiais dos fundamentos econômicos. Os surpreendentes resultados do primeiro semestre já totalizam US$ 20,6 bilhões. Só em julho foram US$ 10,3 bilhões de junho.Mas é um resultado que merece algumas considerações para uma visão mais realista.UM MÊS EXCEPCIONALDe fato, dos US$ 10,3 bilhões ingressados em junho, dois referem-se a grandes operações de compra e fusão, que não devem se repetir todos os meses: a oferta pública de US$ 5,4 bilhões feita pela ArcelorMittal para comprar ações da Arcelor Brasil, e a compra da Serasa por US$ 2 bilhões, pelo Experian, da Grã-Bretanha. São US$ 7,4 bilhões, mais da metade do total entrado em junho. Certo, são operações esporádicas, mas, mesmo assim, estamos diante de um resultado positivo para o Brasil. Afinal, mesmo descontando esse valor, restam US$ 3,1 bilhões investidos em apenas um mês. Um ótimo resultado.TENDÊNCIA CONTINUAMais importante é que essa tendência vem se mantendo. Nos 23 primeiros dias de julho, foram US$ 3 bilhões e em 12 meses, a significativa soma de US$ 32,7 bilhões. Isso indica que estamos saindo do isolamento externo.Mas exige também muito realismo interno. As causas são bem conhecidas: crescimento interno equilibrado com grandes reservas que nos colocam à beira do primeiro grau de classificação de risco; redução da dívida externa; e, acima de tudo, uma enorme disponibilidade de recursos internacionais. Esses fatores não se anulam, ao contrário, somam-se. Temos um quadro externo altamente positivo e um quadro interno sem surpresas, com o prosseguimento da política do governo Fernando Henrique. O mérito do atual governo, se podemos considerar assim, foi simplesmente não ter mudado nada nem inventado nada.VAI CONTINUAR?Mas teríamos nós condições de absorver, por exemplo, digamos, US$ 50 bilhões? Não, não temos. Nossa infra-estrutura, já desbaratada, iria explodir. É o grande e decisivo obstáculo para o crescimento. E nunca foi tão estudado. Mas até agora, nada. Só papel e reuniões em gabinetes ociosos como se não houvesse nenhuma pressa.É isso, sim. Só planos e palavras. Aí estão a questão das indispensáveis usinas hidrelétricas ainda nas mãos do Ibama, as rodoviárias, no seu calvário entre os poderes constituídos, as agências reguladoras paralisadas por decretos inspirados em ideologias centralizantes. Aí está tudo a impedir que, realmente, o capital estrangeiro venha maciçamente para o Brasil como está indo paraa China, Índia e Rússia. Os países emergentes, dos quais fazemos parte, receberam no ano passado US$ 256 bilhões! E, de acordo com a Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), os investimentos internacionais no ano passado passaram de US$ 1 trillhão. Nós não podemos nos contentar com US$ 30 bilhões. Precisa ser mais. Temos uma população de baixa renda a atender e isso só se conseguirá com recursos privados já que o governo pouco investe. Figurativamente, cada dólar que é investido pode ser um emprego.PRIVATIZAÇÃO, POR QUE NÃO?Como todos querem agora investir no Brasil, a única coisa que o governo precisa fazer é reativar as privatizações para poder recebê-los. Só isso e nada mais. Ou criamos de vez uma infra-estrutura capaz de atender a novos projetos, ou os investimentos externos ficarão aí, crescentes, sim, mas muito abaixo do que poderíamos e precisamos receber.PRIVATIZAR ATÉ CADEIAS!Por que não privatizar os aeroportos, as rodovias, o setor de energia elétrica e até as cadeias públicas superlotadas? E deixar apenas empresas de ponta, como a Petrobrás, que se internacionalizou e atrai seus próprios investidores?ERRAMOS? ÓTIMO!Mas houve tantos erros nas privatizações passadas, pode argumentar o leitor. Houve? Ótimo! Assim sabemos o que corrigir. . Mesmo com os erros, as privatizações foram um estrondoso sucesso, pois desoneraram. Senhores de Brasília, com a entrada de US$ 32 bilhões, o Brasil está vivendo o início de uma oportunidade inigualável para crescer e tornar-se não um país de pobres, mas desenvolvido. Por favor, senhores de Brasília, não atrapalhem mais. Chega, não chega?

Alberto Tamer, E-mail: at@attglobal.net, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

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