Investimentos portugueses podem trocar Brasil pela Europa Oriental

Se o novo presidente brasileiro não mantiver a abertura aos investimentos estrangeiros, os capitais portugueses vão migrar para os países da Europa Oriental que deverão aderir à União Européia. O alerta foi feito pelo professor Joaquim Ramos Silva, do Instituto Superior de Economia e Gestão, de Portugal, que dirige o único grupo de pesquisa existente no país sobre os investimentos portugueses no Brasil."As empresas vão reagir em função dos indicadores macroeconômicos. Caso a situação se agravar, as empresas vão para a Europa Oriental, que é a região onde há oportunidades de investimento. A preocupação principal é que o Brasil se feche", afirma Ramos Silva, que em suas pesquisas já entrevistou mais de 25% das 370 empresas portuguesas com investimentos no Brasil.Ele considera que o medo dos empresários está ligado aos fundamentos da economia. "O que receiam os empresários e a degradação da situação macroeconômica, o que vai levar a prejuízos a médio prazo. Mas existem expectativas positivas na medida em que foram tomadas posições mais moderadas pelo candidato do PT".O fundamental é que o novo presidente não altere a política em relação aos fundamentos macroeconômicos. "O País tem que ter uma base macroeconômica sã. Caso contrário, a recuperação da confiança dos investidores torna-se muito lenta e o Brasil vai pagar muito em juros mais elevados e terá menos capacidade de captar investimentos".O Brasil precisa de alternância políticaPara Ramos, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva não será motivo suficiente para afastar os investidores. "Por um lado, há um fato positivo. O Brasil precisa de alternância política, a democracia significa alternância do poder, e não há alternativa a curto prazo a não ser o PT". Mesmo que as empresas não saiam do País, podem diminuir o ritmo de investimento: "Se não desinvestirem, podem se adaptar pelo padrão mais baixo."Ramos conta que a situação brasileira, com a queda do real, fez com que o País deixasse de ser o primeiro destino para os investimentos portugueses. Em 2001, o principal destino foi a Holanda o que se deve à mudança de sede de várias empresas para usufruírem de regimes fiscais mais favoráveis.Sobre as críticas à concentração dos investimentos portugueses no Brasil atualmente mais de 50% do investimento fora do país está localizado no Brasil Ramos considera que isso é resultado do próprio processo de internacionalização das empresas. "As empresas precisam de um certo equilíbrio, mas o processo de investimento no exterior não funciona com linearidade. Inicialmente, o investimento foi para a Espanha e no final dos anos 90 favoreceu o Brasil". Na semana passada a ministra das Finanças portuguesa, Manuela Ferreira Leite, considerou a excesso de investimentos no Brasil como um erro estratégico, afirmando que os empresários "colocaram todos os ovos num mesmo cesto".MedidasRamos Silva conta que neste momento, os empresários portugueses estão esperando para ver o que vai fazer o novo governo. "O cenário de eleição de um candidato do Partido dos Trabalhadores não seria o mais previsível quando tomaram a decisão de investir no Brasil". "Na Europa, a experiência que temos é que medidas radicais e extremistas são negativas e produzem efeitos contrários aos que anunciam", disse.Na avaliação de Ramos Silva, se houver uma degradação da situação macroeconômica, os primeiros afetados seriam os empresários que investiram nos setores de serviços e supermercados. Isso por causa da quebra dos níveis de consumo. Ele diz que não há medo de uma alteração do quadro legal para essas empresas, no que diz respeito à remessa de lucros e garantias de investimento.LiberalizarRamos Silva criticou a visão de alguns analistas políticos que afirmam que o Brasil fez uma experiência negativa com o liberalismo e que agora o País vai se fechar mais. "Isso não passa de um discurso ideológico, que não se sustenta nos dados. De todos os grandes países em desenvolvimento, o que inclui o México, a China e a Índia, o Brasil é o país com menor estoque de investimento estrangeiro direto."O caminho que aponta para o desenvolvimento é abrir o País aos investimentos estrangeiros. A comparação dos casos do Brasil e de Portugal, país da Europa Ocidental com menor estoque de investimento externo, indica que o estoque total no Brasil atinge 219 bilhões de dólares, enquanto em Portugal chega a 32 bilhões. Isso apesar de o Brasil ter 17 vezes a população portuguesa.

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