Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO
Tiago Queiroz | ESTADÃO CONTEÚDO

‘Investimentos só devem voltar no novo governo’

Segundo Samuel Pessôa, pesquisador do Ibre/FGV, retorno do investimento depende de ambiente de maior estabilidade, o que só deve ocorrer em 2019

Entrevista com

Samuel Pessôa

Douglas Gavras, Impresso

02 Setembro 2017 | 22h00

O governo Temer não deve ver uma volta robusta dos investimentos, na visão do pesquisador do Ibre/FGV e sócio da consultoria Reliance, Samuel Pessôa. Ele diz, no entanto, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, de 0,2% em relação ao trimestre anterior, já demonstra que a recuperação da economia é consolidada. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

O PIB do segundo trimestre aponta para uma recuperação consolidada ou ainda é cedo para chegarmos a essa conclusão?

Acredito que a recuperação é consolidada. Principalmente pelo setor de serviços ter vindo mais forte e a agropecuária não ter caído tanto quanto o esperado. Parece pouco, mas é um resultado importante.

A condução da política econômica adiou a recuperação?

Não. Essa é a maior crise dos últimos 120 anos, não se constrói em dois ou três errinhos de condução de política monetária. Há uma coleção de erros dos últimos anos, de má alocação de capital a sobreinvestimento. Basta pensar no que foi feito no setor de carnes, nas campeãs nacionais.

Isso também aconteceu na construção civil, que agora ainda puxa os números da indústria para baixo?

Sim, a construção civil, principalmente por meio do Minha Casa Minha Vida, se preparou para eliminar o déficit habitacional do País em uma década. Evidentemente que o programa só sobrevive se o Tesouro tiver uma capacidade para subsidiar a baixa renda para adquirir imóveis a preços muito inferiores aos de mercado. Quando o governo deixou de ter recursos para o programa, ele caiu drasticamente. Na indústria automobilística e na de eletrodomésticos, teve uma política de redução de impostos. Esses são bens que duram anos e essa política antecipou o consumo. Como a indústria ia bem e tinha empréstimo barato do BNDES, aumentou a capacidade produtiva.

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Mas os juros poderiam ter começado a cair mais cedo?

Sim, o movimento de corte dos juros básicos poderia ter começado antes, mas a questão é que deixar os juros em um patamar mais alto do que deveria por um ano e meio é só a sintonia fina da política monetária, não tem impacto tão duro. É muito fácil também criticar agora, com inflação controlada e perspectiva de terminarmos o ano com os juros básicos na casa dos 7%. A crise que estamos vivendo não está associada à política monetária. A gente pode ter atrasado a recuperação em um ou dois trimestres, mas isso nada tem a ver com o desemprego estar onde está, com o déficit público estar nesse nível.

O crescimento baseado no consumo não foi uma das fontes dos nossos problemas atuais?

Sem dúvida, crescer baseado apenas no consumo é perigoso. A diferença é que o resultado positivo do consumo das famílias no segundo trimestre foi um reflexo da própria natureza do ciclo econômico, não é pelo modelo adotado pelo governo, como era anteriormente. Antes, havia claros sinais de que a capacidade produtiva havia aumentado em excesso e a política econômica agravava isso. Agora, a dinâmica do ajuste está produzindo condições favoráveis para o consumo. O desequilíbrio atual é na área fiscal, que esse governo não conseguiu resolver.

O baixo investimento ainda preocupa também...

É difícil que os investimentos voltem tão cedo. Uma parte do problema é que criou-se nos últimos anos uma capacidade produtiva artificial em diferentes setores. Há uma enorme incerteza política em relação ao ano que vem. Não se sabe se o próximo governo será reformista ou populista, e isso muda o ânimo de investir de qualquer um. Os investimentos mais robustos devem ficar para o próximo governo.

Pela incerteza política?

Também por isso. Mas o investimento com mais força requer um equacionamento do problema fiscal. A gente não saberá a real situação do País enquanto isso não for resolvido, a bagunça fiscal produz um tamanho de incerteza que impede o cálculo. O Estado fica sem capacidade de planejar. Nossa previsão é um investimento real positivo no ano que vem, mas de menos de 2%.

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O governo Temer enfrentou recentemente dificuldades de aprovar a meta de déficit. A reforma da Previdência parece ainda mais distante agora. Como cumprir o teto de gastos assim?

As pessoas costumam pensar dessa forma, que o teto de gastos deveria ter sido votado depois da reforma da Previdência e que é inútil agora. Sempre achei que era o contrário. Com a reforma da Previdência, o teto de gastos seria desnecessário, ele foi feito justamente porque havia uma grande chance de as reformas não passarem. A nossa política econômica vem numa trajetória disfuncional, nos mandando para um abismo inflacionário. Se a gente não fizer nenhuma reforma, que seja no próximo governo, a dívida pública vai explodir. Ao atingir o teto, uma série de barreiras é acionada, o governo não pode mais contratar servidores, dar aumento real de salário mínimo. A aposta é que esses problemas virtuais gerem pressão para arrumar a política fiscal. A PEC do Teto é uma muleta, produzindo problemas antes que a inflação suba, funciona como uma espécie de alarme.

Se nada for feito, quando esse alarme deve soar?

Isso deve acontecer já em 2019 ou 2020. O próximo presidente vai ter de entregar muitas coisas, e a sociedade terá de fazer um novo esforço – mais um nesses anos de crise – de impor um discurso racional. E quem se sentar naquela cadeira terá muitos desafios práticos, para que o Brasil não caia em um novo abismo.

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