Clayton de Souza/Estadão
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Investimentos vão ser realocados com divulgação de risco ambiental, diz Kerry no FMI

Com os sinais de recuperação econômica global, o FMI retomou nos encontros de primavera deste ano o foco em um tema que vinha sendo colocado nos holofotes antes da pandemia: o financiamento de projetos verdes

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2021 | 21h07

WASHINGTON - O governo americano deve passar a exigir que instituições financeiras e empresas divulguem riscos de seus negócios relacionados à questão climática, disse o enviado especial para o clima, John Kerry. Em debate no Fundo Monetário Internacional (FMI), Kerry afirmou que o presidente Joe Biden "está prestes a emitir uma ordem executiva" que exigirá essa divulgação, a exemplo do que europeus já fazem. "Irá mudar a alocação de capital", disse Kerry. "De repente, as pessoas vão fazer avaliações considerando o risco de longo prazo para o investimento com base na crise climática", afirmou.

Ele não deu detalhes sobre a ordem que deve ser emitida pela Casa Branca. Ainda na campanha eleitoral, o então candidato democrata prometeu fazer as empresas divulgarem seus riscos climáticos e níveis de emissões de carbono. Algo que, segundo Kerry, deve acontecer em breve.

Com os sinais de recuperação econômica global, o FMI retomou nos encontros de primavera deste ano o foco em um tema que vinha sendo colocado nos holofotes antes da pandemia: o financiamento de projetos verdes. Em painel sobre o assunto nesta quarta-feira, a diretora-gerente do fundo, Kristalina Georgieva, disse que o investimento de 5% do PIB em infraestrutura verde pode gerar um crescimento econômico de 0,7% por ano. "Em outras palavras, mais do que se pagaria", disse. "Precisamos fornecer financiamento para investimento público em infraestrutura verde nesta transição", disse.

O tema das mudanças climáticas entrou no palco principal do FMI em outubro de 2019, o primeiro com Kristalina à frente da instituição. No encontro de primavera de 2020, o assunto foi encoberto pelo cenário sombrio de recessão econômica que se avizinhava como consequência da pandemia de coronavírus. Agora, o tema ambiental voltou aos debates principais, com o impulso dado pelo novo governo americano, que fez do combate às mudanças climáticas um eixo de política doméstica e internacional.

Kristalina defendeu a aceleração na transição para uma economia de baixo carbono. "Hoje, apenas 23% das emissões de carbono estão sendo precificadas. Bem, a boa notícia é que no ano passado eram 17%. Portanto, estamos progredindo, mas estamos longe de onde deveríamos estar em 2030. Hoje, o preço médio do carbono é de US$ 2 a tonelada. Em 2030, temos que estar em US$ 75 a tonelada", disse.

No mesmo painel, Kerry disse que a Casa Branca está comprometida em investimentos sustentáveis que possam gerar empregos. "O fato é que há oportunidades incríveis de geração de novos empregos nos investimentos que precisam ser feitos para fazer frente à crise climática", disse. Biden propôs um plano de infraestrutura de US$ 2 trilhões para atacar a mudança climática e criar empregos. Kerry também falou que o encontro de líderes coordenado pela Casa Branca, nos dias 22 e 23, servirá para "aumentar as ambições" ambientais de maneira global. "Acreditamos muito profundamente que essa será a maior transformação econômica desde a revolução industrial", disse.

Kerry afirmou que os EUA estão recuperando a credibilidade na questão ambiental, após o governo Donald Trump ter abandonado o Acordo de Paris. Segundo ele, com a saída dos EUA do palco mundial, países relutantes também saíram da mesa de debate ambiental. "Portanto, perdemos tempo. Agora temos que ganhar de volta a credibilidade", afirmou Kerry.

A chefe do FMI cobrou dos países ricos a promessa de ajudar a financiar a transição para a economia de baixo carbono. "É extremamente importante que reconheçamos que lidar com a crise climática significa diminuir as emissões, mas também nos adaptar", disse Kristalina. 

"Muitos países que fizeram muito pouco ou nada para criar este problema estão sofrendo as consequências. (...) Estamos saindo dessa situação com recuperações em várias velocidades, os países mais ricos têm melhor acesso às vacinas, mais capacidade financeira para ajudar seu povo e seus negócios, estão saindo da crise mais rápido. Portanto, é muito importante não permitirmos outra divergência no futuro em que o mundo rico acelere a transição para a nova economia e o mundo pobre seja deixado para trás", disse ela. Nos relatórios econômicos divulgados nesta semana, o FMI alertou para a desigualdade na recuperação econômica entre nações ricas e pobres, com indicativo de que o acesso à vacina em nações em desenvolvimento deve ser garantido para que todo o mundo consiga sair da crise.

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