Andy Rain/EFE
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Investimentos verdes começam a ganhar peso para famílias bilionárias

Pesquisa do banco suíço UBS aponta que movimento ainda é embrionário, mas que necessidade de avaliar apenas o lucro dos ativos já chega a um ponto de inflexão

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 10h00

LONDRES - Mais avessos a grandes viradas em estratégias de investimentos, escritórios de família do UBS em todo o mundo podem ter chegado a um ponto de inflexão em relação aos investimentos verdes, ainda que o movimento esteja muito embrionário. Foi isso o que revelou uma pesquisa divulgada pelo banco suíço com 121 diretores de unidades desse tipo em 35 mercados, com exclusividade para o Estadão/Broadcast. "Investir de forma sustentável continua sendo uma prioridade a longo prazo, mas a ação é gradual", enfatizou o relatório.

O UBS lembrou que, ao contrário de fundos de pensão da União Europeia (UE), por exemplo, essas unidades que são voltadas para investimentos de fortunas de famílias bilionárias não estão sujeitas a cumprimento de metas de aplicações em ativos como esse pelos reguladores. Com isso, até o momento, os escritórios familiares acompanharam investidores institucionais nesse segmento. "Este é um ponto interessante. É um assunto sobre o qual todos estão pensando agora", observou o diretor do Global Family Office para América Latina, um dos responsáveis pelo relatório e que fica baseado em Londres, Alejandro Velez, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

O relatório do UBS também salientou que pode levar tempo para esses escritórios, ao longo de gerações, concordarem com uma mudança tão fundamental, mas que o ponto de inflexão pode estar bem próximo. "Na América Latina e em todo o mundo, os escritório dão prioridade aos retornos", observou o diretor. Os patriarcas das famílias bilionárias, de acordo com ele, acreditam que investir em ativos verdes é importante em termos de legado, mas, apesar de haver interesse identificado em países como Chile, México ou Brasil, o tema ainda vem sendo objeto de entendimento pelos investidores. "Eles estão gastando tempo em busca de entender como funcionam, mas ainda não estão investindo tanto."

A análise de que há uma mudança em curso é feita com base na afirmação de que mais de um terço (39%) dessas unidades que pretendem alocar a maioria de suas carteiras de forma sustentável nos próximos cinco anos e três quartos (73%) já investem pelo menos alguns ativos de forma sustentável. Pouco se acredita, porém, que haverá uma grande guinada nesse sentido. Até porque, segundo relatou um membro de uma das famílias bilionárias da geração millennial, se há o desejo de ajudar a mudar o mundo, não é preciso que ele seja feito necessariamente pelos investimentos. Para isso, podem ser utilizadas ferramentas puramente filantrópicas, que não visam ao retorno financeiro.

"A segunda geração está interessada nos retornos da carteira em sustentabilidade, filantropia e na história da transformação digital, mas ainda mantém investimentos como os feitos pelos seus pais", pontuou o diretor. Talvez, porque ainda haja dificuldades de obter métricas comparáveis sobre os retornos obtidos com esses investimentos na área social e ambiental, por exemplo. Esse é visto como um desafio para a próxima geração.

Justamente sobre a quem cabe a administração dos recursos, a pesquisa identificou que a geração atual tem majoritariamente entre 60 e 70 anos, com um terço dos escritórios familiares sem planos de mudança de controle. A linha sucessória, porém, está longe dos estereótipos. Muitos, de acordo com o UBS, estão tão envolvidos no gerenciamento da riqueza familiar quanto seus pais, embora tendam a se interessar mais por filantropia e investimentos sustentáveis. O levantamento revelou por fim que, em relação à preparação das próximas gerações para assumirem o controle, as famílias asiáticas e americanas têm trabalhado mais do que os europeus.

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