Fabio Motta/Estadão
Há hoje 53 projetos de usinas em andamento em todo o mundo. Fabio Motta/Estadão

Investir em energia nuclear é tendência seguida por 19 países

Há hoje no mundo 53 projetos em andamento de usinas nucleares, a maior parte deles está no continente asiático

André Borges, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - Ao investir em uma nova planta de energia alimentada por urânio enriquecido, material radioativo que requer um protocolo extremamente rígido de segurança, o Brasil segue o caminho de 19 países que, neste momento, têm projetos de reatores nucleares em construção.

Há hoje 53 projetos de usinas em andamento em todo o mundo, sendo que 33 delas são erguidas no continente asiático. A China, com dez plantas em construção, e a Índia, com outras sete usinas, lideram o ranking, motivadas pela redução da dependência da energia gerada a carvão mineral, uma fonte mais poluente e cara.

Informações coletadas pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) dão conta de que, atualmente, a geração de energia baseada em reatores nucleares representa 10% da capacidade global de eletricidade, só atrás da energia hidrelétrica, com participação de 16% da matriz. Esse desempenho, porém, pode cair nos próximos anos.

Incerteza

Segundo a IEA, a energia nuclear tem futuro incerto, porque muitas usinas antigas estão começando a fechar em economias mais avançadas, como Alemanha, em razão de políticas de segurança e fatores econômicos. A agência, que fica sediada em Paris e está ligada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), afirma que, sem mudanças de cenário, países com economias mais avançadas podem perder 25% de sua capacidade nuclear até 2025 e até dois terços dela até 2040.

A instituição acrescenta que isso pode resultar em bilhões de toneladas de emissões a mais de carbono. A geração de energia por fonte nuclear utiliza apenas água em seu processo de resfriamento, em várias etapas. É o vapor gerado pelo contato com o urânio enriquecido que faz a turbina girar e produzir energia. Não há, portanto, nenhuma emissão de gás carbônico. A radiação das pastilhas de urânio, porém, após usadas, devem ficar por décadas em áreas reservadas, por causa da radiação que ainda emitem.

Países como Estados Unidos, Canadá, Japão e muitos da União Europeia têm, na fonte nuclear, uma de suas principais seguranças de abastecimento de geração, uma vez que, diferentemente de outras fontes – hidráulica, eólica e solar, por exemplo – que dependem de fatores externos para produzir energia – a fonte nuclear permite a entrega efetiva de energia, conforme a necessidade.

Preconceito

“Se o caminho da matriz elétrica mundial vai no sentido da descarbonização, me parece que existe sim um papel importante da energia elétrica nuclear a desempenhar em todos os países. Essa ideia vai vencendo preconceitos que se tem em relação à energia nuclear”, diz Leonam Guimarães, presidente da Eletronuclear. “Estamos falando de uma fonte que não gera gases de efeito estufa e que garante estabilidade. Não é uma competição entre fonte, é algo complementar e isso tem se disseminado pelo mundo.”

Nos Estados Unidos, de acordo com a IEA, cerca de 90 reatores têm licenças de operação de 60 anos, mas vários já se aposentaram mais cedo e muitos outros estão em risco. 

Na Europa, Japão e outras economias avançadas, extensões da vida útil das plantas também enfrentam perspectivas incertas. Atualmente, existem 440 reatores nucleares em operação em cerca de 30 países ao redor do mundo. 

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Angra 3 ainda é uma incógnita bilionária

Há 30 anos parada, usina depende de um aporte de mais R$ 15 bilhões; auditoria conclui que é preciso a entrada de um sócio privado

André Borges, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - A obra de infraestrutura mais cara do Brasil, atualmente, é um projeto que acumula 30 anos de paralisações em seu currículo, arrasta uma dívida de R$ 9 bilhões em financiamentos com bancos públicos e depende de mais R$ 15 bilhões para que possa, finalmente, ser concluída. A usina nuclear de Angra 3 concentra hoje boa parte das atenções do Ministério de Minas e Energia, que decidiu levar adiante o projeto. A questão é como fazer isso.

No mês passado, uma auditoria da PwC analisou as contas da Eletronuclear, estatal do Grupo Eletrobrás que é dona da usina. A empresa alertou que a situação crítica da obra tem drenado praticamente todos os recursos da Eletronuclear. A situação chegou a tal ponto que, hoje, a estatal está impedida de conseguir novos empréstimos porque não tem mais nada para apresentar como garantia. “Todos os seus ativos já estão comprometidos nos créditos existentes”, afirmam os auditores. Dado o cenário atual, o relatório indica “a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.

A retomada de Angra 3 depende, ainda, da entrada pesada de um sócio privado na operação, além de definições políticas que envolvem o processo de privatização da Eletrobrás. O plano de retomada da usina está em análise pelo Tribunal de Contas da União. Mesmo sem essas respostas, a Eletrobrás já definiu que vai injetar mais R$ 3,5 bilhões na obra, por entender, inclusive, que novo aporte é preciso para atrair parceiros e destravar o empreendimento. 

Ao Estadão, o presidente da Eletronuclear, Leonam Guimarães, disse que uma primeira parcela, de R$ 1,052 bilhão, está prevista para ser liberada pela Eletrobrás ainda neste ano. O dinheiro será usado para aquisição de mais equipamentos da usina. A segunda parcela, de R$ 2,45 bilhões, está programada para 2021, quando seriam retomadas as obras físicas e de montagem de Angra 3.

“Aguardamos que o recurso deste ano saia o mais rápido possível. Isso faz parte do nosso programa de aceleração da linha crítica da obra, que tem compromisso de concluir o projeto em 2026”, diz Guimarães.

Os auditores da PwC chamam a atenção para o fato de que “um dos grandes desafios a serem ainda superados tem sido a estruturação dos recursos financeiros necessários à sua implementação”. A situação atual da obra, descreve a auditoria, “aponta altos valores a serem ainda investidos que não têm origem ou financiamento definido ou assegurado”.

Frustrações

A promessa de concluir o projeto em seis anos tenta dar fim a uma lista de cronogramas frustrados. Há dez anos, as obras da usina foram retomadas na praia de Itaorna, em Angra dos Reis (RJ). Era o marco zero na retomada das obras da usina iniciada no governo militar, em 1984, mas paralisada dois anos depois. 

O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, insuflado pelo “renascimento nuclear”, prometia inaugurar a usina em 2014. Depois, essa data passou para 2016. Logo em seguida, foi postergada para 2018. O fato é que, cinco anos após a retomada, Angra 3 já estava paralisada novamente, com os 58% de execução de suas obras físicas contaminados por esquemas de corrupção que levaram o então presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro, a ser condenado a 43 anos de prisão por lavagem de dinheiro, embaraço a investigações, evasão de divisas e organização criminosa. 

A decisão de prosseguir com a obra justifica-se, em boa medida, pelo alto custo que teria a decisão de desistir de Angra 3. Guimarães confirma que para abandonar o projeto a Eletronuclear teria de arcar com uma fatura da ordem de R$ 12 bilhões, somando financiamentos já sacados e contratos firmados com dezenas de fornecedores. 

Para Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, o que está em jogo não é só uma operação bilionária. “Concluir Angra 3 é uma decisão do governo, mas que passa por uma política de Estado.”

Sem operar, usina consome US$ 10 milhões

Todo ano, a Eletronuclear gasta pelo menos US$ 10 milhões para manter, em plenas condições de uso, os equipamentos que já adquiriu para Angra 3, além das estruturas da planta já executadas. Isso significa US$ 360 milhões despejados no projeto durante seus 36 anos de paralisação. Em valores de hoje, portanto, é mais de R$ 1,9 bilhão usado para manter uma estrutura paralisada.

De 2015 para cá, os gastos com esses serviços aumentaram ainda mais e já chegam a R$ 130 milhões por ano, envolvendo manutenção de toda infraestrutura e contratos de serviços relacionados que estão em andamento, segundo informações da Eletronuclear.

Leonam Guimarães explica que, apesar de a usina ter comprado equipamentos ainda na década de 1980, não ocorreram grandes mudanças em relação ao maquinário adquirido. “Não houve significativa evolução tecnológica nesse tipo de equipamento eletromecânico. Eles estão em perfeito estado e vão operar perfeitamente.”

A pressão financeira imposta pela manutenção da estrutura é turbinada pelos financiamentos que a Eletronuclear tomou com BNDES e Caixa Econômica Federal. Todo mês, a estatal recebe um boleto de R$ 25 milhões da CEF e outro de R$ 30 milhões do BNDES. 

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