Spihine Sibeko/Reuters - 29/6/2020
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Fábio Gallo
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Invista quase nada e ganhe muito. Milagre!

Você quer investir ou apostar? Apostar é loteria e investir requer análise, conhecimento e planejamento para equilibrar risco e retorno

Fábio Gallo, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

Todos nós já vimos algum tipo de chamada, vídeo ou podcast anunciando que, com muito pouco, poderia ganhar muito dinheiro. Uma promessa de ganho milagroso. São desde ofertas de bilhetes premiados, golpe antigo que voltou à praça recentemente, até ofertas de carros zero pela metade do preço e outras promessas de ganhar dinheiro facilmente. O mercado de capitais é um campo fértil de ofertas de ganhos excepcionais.

O fato é que há muitos exemplos de pessoas inteligentes e preparadas, algumas com pouco e outras com muito conhecimento em finanças, que tiveram suas economias dizimadas por esquemas duvidosos ou, mesmo, fraudulentos. Um dos exemplos mais marcantes foi o golpe de Bernard Madoff, revelado em 2009, que por anos a fio conduziu de maneira sofisticada uma pirâmide de Ponzi. Interessante a revelação do autor de uma obra sobre a ingenuidade humana em cair nesses golpes, Stephen Greenspan, PhD em psicologia, que escreveu o livro “Annals of Gullibility: Why We Get Duped and How to Avoid It”, traduzido literalmente por “Anais de credulidade: Porque somos enganados e como evitá-lo”: num artigo para o The Wall Street Journal, ele confessou que após a publicação de seu livro perdeu uma boa parte das suas economias de aposentadoria para Madoff.

Por que tantas pessoas se comportam de uma maneira que as expõe a riscos graves e previsíveis? Isso ocorre muito constantemente no mundo dos investimentos, ambiente em que o ceticismo deveria ser um dos aspectos mais importantes, afinal buscamos manter nossa riqueza, na maioria das vezes, conquistada às custas de muito trabalho. Em muitos casos, as economias da vida. Mas, mesmo assim, as pessoas continuam a cair em golpes. Mais recentemente têm surgido muitas chamadas de como ganhar muito dinheiro comprando “penny stocks”, como são conhecidas as ações negociadas por centavos.

Cada mercado adota uma regra para essa classificação. Na Inglaterra, são os títulos abaixo de uma libra esterlina – penny é o centavo dessa moeda. Nos Estados Unidos, são ações abaixo de US$ 5 e, no Brasil, aquelas abaixo de R$1,00. Pelas regras da B3, ações que sejam negociadas ao longo de 30 pregões abaixo desse valor devem ser objeto de agrupamento para que o preço de negociação idealmente suba para entre R$ 20 e R$ 40. Mas muitos não resistem à promessa de riqueza fácil e rápida, quando o “investimento” pode ser feito com pouco dinheiro.

Nesse momento uma pergunta importante deve ser feita: quão arriscado é isso? A resposta é simples: “penny stocks” são de muito risco, porque essas empresas não estão bem e raramente se transformam em bons negócios. Logicamente, há exceções, mas a questão aqui é outra: você quer investir ou apostar? Apostar é loteria. Investir requer análise, conhecimento e planejamento para equilibrar risco e retorno. Na verdade, quem ganha com esse tipo de coisa é quem dá a dica. Gente que faz com que as pessoas fiquem com medo de perder uma oportunidade e/ou criando senso de urgência, fazendo com que as pessoas ajam antes de pensar.

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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