<i>O Estado</i> critica "complacência" do governo com Argentina

Em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo critica a ?complacência do governo brasileiro? diante das ?agressões da Argentina ao livre comércio?. ?Mais que o atrevimento do governo Kirchner, o que afronta o bom senso é a morna reação das autoridades brasileiras?, diz o editorial. ?O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, descreve como normal a atitude argentina.?Eis a íntegra do editorial, que tem o título de ?As ameaças de Kirchner e a timidez de Lula?: Boa vizinhança não se mantém com ameaças, que servem ainda menos para consolidar um projeto de cooperação. Mas tem sido esse o caminho escolhido pelo governo argentino, em suas freqüentes agressões ao livre comércio com o Brasil. A complacência do governo brasileiro, que se encolhe diante das investidas, é um poderoso estímulo a novas imposições. Logo depois de anunciar barreiras à importação de televisores e produtos brasileiros da "linha branca", o presidente Néstor Kirchner apressou-se a informar que outras medidas protecionistas poderão ser tomadas contra setores brasileiros que se atrevem a competir no Mercosul. Mais que o atrevimento do governo Kirchner, o que afronta o bom senso é a morna reação das autoridades brasileiras. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, descreve como normal a atitude argentina. "Como em toda relação de amor", disse, "às vezes acontecem umas coisinhas que são rapidamente superadas." Relações de amor desse tipo só foram descritas como normais por Nelson Rodrigues, quando afirmou que toda mulher gosta de apanhar. Apanhar sem reclamar é o que tem feito o Brasil, há muito tempo, nas relações comerciais com a Argentina. O esforço do governo argentino para proteger setores ineficientes vem de longe. Desde o período de adequação do Mercosul, na segunda metade dos anos 90, ficou claro que alguns segmentos industriais do país vizinho haviam investido muito menos que o necessário. São os mesmos segmentos que exibem, ainda hoje, uma baixa capacidade competitiva, como lembraram há poucos dias, numa nota, economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Essa é a assimetria que de fato perturba o comércio entre os dois países. O presidente Kirchner disse - e seus ministros têm repetido - que não se deixará que assimetrias impeçam o desenvolvimento equilibrado do Mercosul. Numa tentativa de generalizar o problema, o vice-chanceler argentino, Martín Redrado, disse que "a Argentina, o Uruguai e o Paraguai têm direito a ter suas indústrias". Esse direito nunca foi negado pelo Brasil, que só pode ter interesse no fortalecimento econômico de seus parceiros mais próximos. O desequilíbrio relevante é de outra natureza. A economia americana é muito maior que a brasileira. No entanto, a siderurgia do Brasil, que se modernizou desde as privatizações, tem-se mostrado muito mais competitiva que a dos Estados Unidos. Outros segmentos da indústria americana, porém, são mais fortes que seus competidores brasileiros. Esse tipo de assimetria só se resolve com investimentos e com adoção de melhores práticas produtivas e gerenciais. Esse é o ponto que o governo argentino, pressionado por setores que não fizeram a lição de casa, se recusa a reconhecer. Tempo para fazer a lição não faltou. O Mercosul tem mais de dez anos e a fase de adequação, antes de entrar em vigor a união aduaneira, foi longa. "Posso dizer que não estamos, nem estaremos, numa guerra comercial com a Argentina", disse o subsecretário-geral do Itamaraty para assuntos da América do Sul, Luiz Felipe Macedo Soares. "Temos com a Argentina um projeto de integração, não de competição", acrescentou. O diplomata parece não perceber alguns dados óbvios. Em primeiro lugar, só não há guerra porque o governo Lula, até agora, se dispôs a aceitar as imposições, renunciando ao direito de defesa (só houve recurso à Organização Mundial do Comércio no governo anterior). Em segundo, a integração só é realizável quando todos os parceiros se esforçam para desenvolver seu potencial competitivo. Um projeto de complementação, por exemplo, não funcionaria, se um dos participantes se recusasse a elevar seus padrões de produtividade e qualidade. A tese do governo argentino sobre as assimetrias e sua correção é insustentável e inaceitável. Não é punindo as empresas brasileiras por haverem buscado a modernização que se pode criar um bloco mais homogêneo. O presidente Lula, no entanto, tem preferido contemporizar, em nome de uma obscura estratégia terceiro-mundista. Também com isso têm de se preocupar as indústrias brasileiras: além das barreiras e da competição externas, têm de enfrentar a permanente ameaça da diplomacia do fracasso.

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