Dida Sampaio/Estadão - 10/9/2021
Posto de combustível em Brasília:  gasolina subiu 2,85% em setembro e acumula alta de 39,05% em 12 meses no IPCA-15. Dida Sampaio/Estadão - 10/9/2021

Prévia da inflação passa de 10% em 12 meses com alta da gasolina e da energia

IPCA-15 ficou em 1,14% em setembro, o maior resultado para o mês desde o início do Plano Real, em 1994

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 09h15
Atualizado 24 de setembro de 2021 | 15h19

RIO - A escalada de preços dos combustíveis e da conta de luz - que já vêm apertando os orçamentos das famílias brasileiras nos últimos meses - e um encarecimento generalizado de bens e serviços, ainda sob efeito da pandemia, apontam para inflação recorde em setembro. O IPCA-15, prévia do índice oficial, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), saltou 1,14% neste mês, na maior alta para setembro desde 1994, início do Plano Real.

Nos acumulado em 12 meses, o IPCA-15 ficou em 10,05%, maior alta sob essa ótica desde fevereiro de 2016, meses antes de a ex-presidente Dilma Rousseff ser afastada no processo de impeachment, em meio à recessão.

O tamanho da alta surpreendeu. A variação veio acima da aumento de 1,03% apontado pela pesquisa do Projeções Broadcast com as estimativas de analistas de mercado. O número divulgado pelo IBGE ficou no teto das estimativas, que iam de avanço de 0,90% a 1,14%.

 


Para Daniel Lima, economista do banco ABC Brasil, os dados do IPCA-15 vieram ruins em todos os aspectos, seja porque a elevação de preços está difundida pelos diversos produtos e serviços pesquisados, seja porque os núcleos, ou seja, o cálculo da inflação que exclui as maiores e menores variações, também estão acelerando.

“A leitura geral desse IPCA-15 é de um número desfavorável: a média dos núcleos, a difusão, todas as categorias de bens industriais, serviços, preços administrados e alimentação no domicílio mostrando aceleração”, disse Lima.

Os vilões de sempre dos últimos meses seguiram colocando mais lenha na fogueira da carestia. Sozinhos, a gasolina (alta de 2,85%) e a energia elétrica (alta de 3,61%) foram os itens com maior impacto positivo. Cada um deles adicionou 0,17 ponto porcentual na variação agregada do IPCA-15.

Os preços dos combustíveis respondem à política de preços da Petrobras - praticamente a única fornecedora dos postos, que tem repassado para as refinarias a alta das cotações internacionais do petróleo e do dólar no mercado brasileiro - e o emaranhado tributário que recai sobre esses produtos. 

O preço médio da gasolina já acumula um salto de 39,05% nos últimos 12 meses. Apenas em setembro, os combustíveis em geral ficaram 3,0% mais caros. Além da gasolina, subiram etanol (4,55%), gás veicular (2,04%) e óleo diesel (1,63%).

A conta de luz vem encarecendo por causa da crise hídrica. Com as chuvas abaixo das médias históricas, os reservatórios das usinas hidrelétricas, principal fonte de geração no País, chegaram aos níveis mínimos históricos. Consequentemente, para garantir a geração de eletricidade necessária, são acionadas as usinas térmicas, cujo custo de operação é maior. Esse custo maior é repassado para o consumidor final por meio das “bandeiras tarifárias”, taxas adicionais cobradas conforme as regras da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Diante do quadro crítico dos reservatórios, a Aneel já determinou neste ano a elevação dos valores das taxas mais elevadas das bandeiras. Em agosto, o quadro ficou tão ruim que foi determinada uma nova bandeira, extraordinária, com taxa mais elevada que todas - a cobrança começou em 1.º setembro. “No mês passado, vigorou a bandeira vermelha patamar 2, com acréscimo de R$ 9,492 a cada 100 kWh consumidos. A partir de 1.º de setembro, passou a valer a bandeira tarifária de Escassez Hídrica, que acrescenta R$ 14,20 para os mesmos 100 kWh”, informou o IBGE, em nota.

Por isso, a alta de 3,61% na conta de luz registrada no IPCA-15 é só o começo. Metodologicamente, a prévia do IPCA monitora os preços de meados de um mês a meados do mês de referência, ou seja, a conta de luz só ficou mais salgada em metade do período incluído no IPCA-15 de setembro. 

Mauricio Nakahodo, economista-sênior do Banco MUFG Brasil, estima que o IPCA de setembro poderá ficar em 1,30%, quando captar todo o efeito da bandeira de escassez hídrica. “A energia elétrica ainda não teve o impacto cheio do reajuste, mas já pressionou”, disse o economista.

Aos dois vilões se somam problemas associados à pandemia. Desde o segundo semestre do ano passado, gargalos no transporte marítimo e elevação das cotações de matérias-primas vêm provocando escassez e encarecimento de insumos para a indústria, que vem sendo obrigada a repassar reajustes. Mais recentemente, o avanço da vacinação vem permitindo a reabertura de negócios do setor de serviços, como bares e restaurantes, que estão aproveitando para reajustar preços também.

Os problemas das cadeias industriais, mais agudos no setor automotivo, apareceram no IPCA-15 de setembro: somados, os automóveis novos (alta de 1,70%), os automóveis usados (1,34% mais caros) e as motocicletas (avanço de 1,04%) contribuíram com 0,08 ponto porcentual no IPCA-15 de setembro. Produtos e serviços do mundo automotivo também ficaram mais caros. Foi o caso do seguro voluntário de veículo (3,08%), do óleo lubrificante (2,37%), do pneu (1,88%) e do conserto de automóvel (0,81%).

Para o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles, a inflação de bens industriais preocupa mais que a de serviços. “Os industriais tiveram o choque de commodities no início do ano, mas agora é um problema que não estamos acostumados a ver, da queda na cadeia produtiva global, então sobe mais do que as commodities sugerem. É um fator que tem afetado a inflação não só no Brasil, mas no mundo todo”, afirma.

A inflação de serviços segue mais de perto os fundamentos econômicos e deverá arrefecer “quando a inflação geral desacelerar”, disse Salles. Mesmo assim, no curto prazo, a aceleração dos reajustes nos serviços se soma aos demais fenômenos para elevar ainda mais a inflação neste momento. 

O IBGE não calcula um agregado dos preços de serviços no IPCA-15 - apenas nas leituras dos meses fechados no IPCA -, mas, nas contas do economista Raphael Rodrigues, do Banco BV, eles ficaram 0,74% mais caros em setembro, ante 0,29% em agosto.

“É um número muito ruim, com pressão bem difundida, núcleos bem acima do esperado. Os choques, com a sequência e a intensidade, começaram a ser repassados para os preços, o que significa maiores revisões para este ano e maior inércia para o ano que vem. No mínimo, não ajuda expectativas de 2022”, disse o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano.

Pressão sobre o BC

Para o economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, Alberto Ramos, o resultado do IPCA-15 coloca uma pressão ainda maior sobre o Banco Central (BC) para conter a alta de preços no ano que vem.

“Pressões significativas de aumento de custos, uma inflação de serviços em crescimento rápido, o risco político e forças inerciais estão contaminando a perspectiva para a inflação em 2022 e devem fazer o Banco Central levar a taxa de juros para território contracionista”, escreveu Ramos, em relatório. “Entretanto, nesse estágio, a chance de o Banco Central conseguir levar a inflação para a meta de 3,5% em 2022 é baixa.”

Mesmo assim, Nakahodo, do MUFG Brasil, acha que o resultado do IPCA-15 não altera o “plano de voo” do BC para a política monetária, conforme tem declaro o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto. A expectativa do MUFG é de alta de 1 ponto porcentual na Selic (a taxa básica de juros, elevada na quarta-feira para 6,25% ao ano) em outubro, com ajustes adicionais de 0,75 ponto em dezembro e de 0,50 ponto em fevereiro de 2022, que deixariam a taxa de juros em 8,50% no fim do ciclo. / COLABORARAM CÍERO COTRIM, GUILHERME BIANCHINI e THAÍS BARCELLOS

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Com economia andando de lado há bastante tempo, fica mais difícil combater inflação, diz professor

Para o economista Paulo Picchetti, da FGV, atual cenário de preços é o mais complicado desde o Plano Real, em 1994

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 15h17

O economista Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) e professor da Escola de Economia da FGV-SP, considera o atual cenário da inflação brasileira o mais complicado desde a estabilização da economia, em julho de 1994, com a edição do Plano Real.

De lá para cá, ele aponta dois momentos críticos de aceleração da inflação: em 2003, com a crise de expectativas, quando o dólar chegou a R$ 4, e em 2014, com o reajuste de tarifas. Em ambos os momentos, o quadro foi revertido com mais facilidade porque a economia brasileira vinha de um período de expansão. 

Hoje, no entanto, o espaço para o ajuste de política fiscal existe, mas é menor, afirma o economista. “Estamos com a economia andando de lado há bastante tempo. Isso reduz os graus de liberdade, de um lado, para estimular a economia e, de outro, para combater a inflação". A seguir, os principais trechos da entrevista.

O resultado da prévia da IPCA-15 de setembro, que subiu 1,14%, surpreendeu?

Particularmente a mim não surpreendeu. Acompanho o IPC-S (Índice de Preços ao Consumidor Semanal), que é um índice muito parecido com o IPCA. O IPC-S tinha encostado em 1,20% na terceira quadrissemana de setembro e deve acabar o mês mais para perto de 1,40%. Acho que essa dinâmica vale para o IPCA também. Isso porque há aumentos  de energia elétrica, gasolina e de passagens aéreas (caso do IPC-S), que estão para serem incorporados no fechamento do mês. Acredito que o  IPCA de setembro deve terminar acima dessa leitura da metade do mês.

Esse resultado da prévia de setembro muda a projeção da inflação para este ano?

No caso do IPC-S, acho que muda porque não só o número veio  alto, mas os núcleos  estão mostrando uma tendência de aceleração da inflação.

O resultado de setembro, que atingiu dois dígitos no acumulado em 12 meses (10,05%), pode mudar mais ainda a condução da política monetária?

O Banco Central já sinalizou que virá mais aumento de juros pela frente. O que vai acontecer além disso vai ser a  reprodução do que já vem acontecendo nos últimos meses. Ele constantemente está checando a evolução da projeção à frente e se julgar necessário vai dar sinalizações de aumentos ainda adicionais. Não temos como falar sobre isso hoje.

Quando a inflação vai cair?

Todo mundo, eu, inclusive, imaginava que na virada do primeiro para o segundo semestre de 2021 os índices iriam bater o pico de 7% acumulado em 12 meses e iriam começar a cair a partir daí. Só que ocorreram várias surpresas: a crise hídrica, aumento das tarifas de energia, combustíveis e esse reaquecimento da economia com a reabertura das atividades suspensas na pandemia. Então, se chover suficientemente no verão para desligar as térmicas, retirar as bandeiras (cobradas na conta de luz) e essa mesma chuva ajudar na safra agrícola e na pecuária, imagino que em algum momento do primeiro trimestre do ano que vem teremos uma descompressão da inflação. Mas tudo isso está condicionado a esses fatores que são difíceis de prever. Isso sem incluir um outro lado que vem forte: toda a incerteza política ligada às reformas e à situação fiscal, que impedem o recuo do dólar, apesar do ganho das exportações. Vamos lembrar que 2022 será um ano eleitoral. Isso amplia as incertezas. Mas, sendo otimista em relação tanto ao clima meteorológico quanto ao político, acredito numa descompressão na inflação no primeiro trimestre de 2022.

Existem  muitas incertezas, né?

Muitas. Estamos num momento particularmente volátil no Brasil e no mundo. Ainda não acrescentei a incerteza provocada pela pandemia. Estou sendo otimista, achando que todo mundo estará vacinado e a pandemia entrará numa trajetória benéfica na virada do ano.

Se compararmos o quadro da inflação no Brasil após o Plano Real, hoje o cenário é mais complicado?

Sem dúvida. Tivemos um momento de alta da inflação em 2003 com crise de expectativas, com o câmbio chegando a R$ 4, o IGP (Índice Geral de Preços) disparando, mas foi contornado. Assim que o tripé macroeconômico (meta de inflação, meta fiscal e câmbio flutuante) foi reafirmado, o Banco Central reagiu e o ajuste foi feito e o quadro revertido. Mais recentemente, depois da reeleição de Dilma (presidente Dilma Rousseff), houve o reajuste tarifário e um ano de aceleração forte da inflação, mas também foi revertido. Diga-se de passagem, com uma recessão bastante profunda. O cenário de agora é mais complicado em termos de graus de liberdade. O espaço para o ajuste de política fiscal e monetária é menor comparado a esses dois episódios anteriores. Ele existe, mas é menor. Isso porque estamos com a economia andando de lado há bastante tempo. Ao contrário de 2003 e de 2014, quando estávamos no fim de um período de expansão. Isso reduz os graus de liberdade, de um lado, para estimular a economia  e, de outro, para combater a inflação. Isso torna o momento atual  particularmente desafiador.

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