Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

'IPCA de 2020 preocupa, mas não sinaliza descontrole inflacionário', diz economista

Para Heron do Carmo, choque nos preços dos alimentos, que fez a inflação do ano passado chegar a 4,52%, deve perder força

Entrevista com

Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2021 | 15h01

O desempenho da Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), que alcançou em dezembro 1,35% e 4,52% no ano, superando as expectativas do mercado, não altera o cenário para a inflação deste ano traçado pelo economista Heron do Carmo, professor sênior da FEA/USP e um dos maiores especialistas no tema. Ele admite que o resultado preocupa, mas não vê descontrole inflacionário, por enquanto. Heron mantém a expectativa de inflação em torno de 3% para 2021.

O argumento do economista é que o resultado de 2020 foi muito concentrado nos alimentos, especialmente os semielaborados, que incluem carnes e óleo de soja, por exemplo. “Se não tivesse ocorrido esse aumento para esse grupo, a inflação do ano ficaria pouco acima de 2%”, diz. Ele espera que esse choque de preços perca força por conta da subida dos juros que o Banco Central deverá começar a fazer e também porque o preço da comida já subiu demais e não comporta novos aumentos. A seguir, os principais  trechos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado da inflação de 2020?

Dezembro surpreendeu. Eu esperava um resultado inferior para o mês porque os preços dos alimentos já tinham subido muito até então. Também houve o aumento da energia elétrica. No ano, a inflação foi de 4,52% e o Boletim Focus, do Banco Central, apontava para 4,37%.

Esse resultado preocupa?

Preocupa, mas, por enquanto, não sinaliza um descontrole da inflação para este ano. Isso porque o aumento da inflação acima do centro da meta em 2020, de 4%, tem uma causa definida. Está concentrado no comportamento dos preços dos alimentos. Só os semielaborados (carnes, cereais, etc) subiram 25% no ano passado e responderam por 2,4 pontos da inflação de 4,5%. Mais da metade da inflação do ano pode ser atribuída a este grupo de alimentos que corresponde a menos de 10% das despesas familiares. Carne, arroz e óleo de soja, por exemplo, responderam por um ponto da inflação de 2020. O que aconteceu em 2020 é muito explicado pelo comportamento do preço dos alimentos e das commodities alimentares. Não foi um movimento geral de alta de preços. Se não tivesse ocorrido esse aumento para esse grupo, a inflação do ano ficaria pouco acima de 2%. É claro que quando se tem um resultado ruim, assusta e isso vai aparecer nas próximas previsões.

Quais são as perspectivas? Esse resultado altera as projeções para 2021?

Apesar de os alimentos semielaborados terem subido muito em dezembro, o ritmo de alta foi menor do que o registrado em novembro. Isso  indica que o choque tende a se esvair. O mais provável é que haja uma estabilização dos alimentos este ano. Isso retira algo como mais de 2 pontos da inflação. A minha previsão de inflação é em torno de 3% para 2021, a menos que ocorra uma variação no câmbio. No ano passado tivemos uma maxidesvalorização de 30%.

O que poderia levar a inflação ao descontrole neste ano?

Se houvesse um descontrole da política econômica, algo que comprometesse os fundamentos. Por exemplo, uma alteração radical no teto de gastos, alguma questão de ordem política interna que gere pressão sobre o câmbio.

Diante desse resultado da inflação de 2020, o Banco Central deve subir os juros?

A taxa de juros está muito abaixo da inflação e isso tem uma série de implicações. Todos os títulos são atrelados à Selic (taxa básica de juros) e isso pode implicar uma perda de rentabilidade muito grande. Muito provavelmente o Banco Central deve começar a aumentar os juros. A alta dos juros vai contribuir marginalmente para reduzir a propagação do choque de preços e  para fazer com que a taxa de juros real não fique tão negativa. Estamos com taxa de juros negativa de 2,5 pontos porcentuais, a grosso modo. É uma Selic de 2% ao ano para uma  inflação de 4,5%. E tudo indica que a inflação deve continuar subindo em 12 meses ainda nos próximos meses. Vamos chegar a um ponto em que a taxa de inflação em 12 meses poderá estar acima da meta, que é 5,25%. E o BC tem que dar uma resposta a isso. E a resposta é aumento de juros. Subir juros para que choque de preços não se propague e para que o BC mantenha a credibilidade, porque existe um regime de metas e o BC tem que manter a inflação dentro da meta.

Quais são as implicações de o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) ter ficado em 5,45%, acima do IPCA de 4,52%?

Quando o INPC fica acima do IPCA são geradas pressões no mercado de trabalho, pois esse índice reajusta salário. Mas como estamos numa situação de economia fragilizada pela pandemia de covid-19, isso compensa um pouco esse efeito. Outro impacto do INPC é o aumento das despesas da Previdência, o que eleva a pressão sobre os gastos públicos. 

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