IPCA de abril serve mais de alerta do que como decepção

Demorou um pouco para que se formasse algum consenso em torno do fato, incontestável, de que a inflação entrara num ciclo descendente, a partir de março. Muito mais rápido, no entanto, se alastrou a percepção, equivocada, de que a alta de preços iniciara uma desabalada descida da ladeira. São robustas as indicações de que a inflação iniciou trajetória rumo ao centro da meta, mas também existem boas razões para acreditar que esse caminho será percorrido lenta e gradualmente.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2016 | 15h43

É nesse sentido que o resultado da variação mensal do IPCA em abril deve servir mais como alerta do que como decepção. Em relação a março, a inflação subiu, embora tenha registrado uma segunda queda sucessiva, no acumulado em 12 meses. É até bem possível que a situação se repita em maio e, depois de quedas sazonais mais fortes em junho e julho, a partir de agosto, com novas elevações da inflação mensal e quedas em 12 meses. 

Mesmo com a demanda enfraquecida pelo desemprego em alta, renda em retração e inadimplência elevada, pressões sazonais – como, por exemplo, o aumento nos preços dos medicamentos, em abril, responsável por 0,20 ponto porcentual da alta de 6,1% do IPCA do mês – tendem a manter a inflação em níveis altos até pelo menos 2017.

De acordo com projeções atualizadas depois do IPCA de abril, a trajetória da inflação, no acumulado em 12 meses, cálculo que captura a tendência inflacionária numa visão menos volátil da dança dos preços, empreenderia uma longa marcha de cerca de 20 meses até chegar, em fins de 2017 ou início de 2018, ao entorno dos 4,5% que definem o centro da meta. 

A confirmação da trajetória projetada, que indica inflação entre 6,5% e 7,5% em fins de 2016, depois de ingressar na faixa dos 8% em meados do ano e de 7%, no último trimestre, dependerá sobretudo dos movimentos da taxa de câmbio.

A cotação do dólar tende a ser afetada pelos sinais de correção dos desequilíbrios fiscais que forem emitidos pelas decisões de juros nos Estados Unidos e também pela política monetária. Vale lembrar que eventuais cortes na taxa básica de juros, como previstos agora por analistas de mercado, operam para desvalorizar o real ante o dólar e dificultar a descompressão das altas de preços.


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