IPCA de agosto é o menor em três anos

Índice fechou mês em 0,15% e em 12 meses ficou abaixo da meta pela 1ª vez

Jacqueline Farid, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

A inflação oficial registrou em agosto o menor resultado em três anos. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,15% no mês, a menor taxa apurada pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde agosto de 2006. Em julho, havia sido de 0,24%. E, pela primeira vez, desde dezembro de 2007, a taxa acumulada em 12 meses ficou abaixo do centro da meta de inflação: está em 4,36%, para uma meta de 4,5%.

A inflação bem comportada abre, segundo economistas, perspectivas para que o Banco Central (BC) faça novos cortes na taxa básica de juros. E o mercado futuro já índica essa tendência. Os contratos para janeiro de 2011 negociados na BM&F, que apontavam juros de 9,72% ao ano na quarta-feira, caíram ontem para 9,67%.

O ex-presidente do BC Arminio Fraga acredita que a taxa básica de juro (Selic), hoje em 8,75% ao ano, tende a ficar menor mesmo em um cenário de expansão econômica. Contudo, ele alerta para o fato de o aumento dos gastos públicos comprometer essa tendência. "Se não fizermos nenhuma bobagem na Previdência, ou criando gastos públicos incomprimíveis no futuro, a tendência é de o juro cair."

Para o sócio da RC Consultores, Fabio Silveira, nas condições atuais, seria possível reduzir os juros para algo entre 7,5% e 7,0%. "Não há pressão altista nos preços e existe uma ociosidade importante hoje em diversos setores. A recuperação é muito desigual."

Ontem, o Conselho de Política Monetária divulgou ata (ler abaixo) na qual ressaltou que o nível atual dos juros é "consistente com um cenário inflacionário benigno". No documento, os diretores do BC afirmam que a taxa contribui "para assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas ao longo do horizonte relevante e para a recuperação não inflacionária da atividade econômica".

A ata foi divulgada antes do anúncio do IPCA, que acumula no ano alta de 2,97%.

Apesar do resultado favorável da inflação, há economistas que acreditam que ainda não dá para fazer novas reduções na Selic. "É cedo para falar em corte nos juros", afirma o economista-chefe da Concórdia Corretora de Valores, Elson Teles. Entre os fatores que poderiam jogar a inflação para cima nos próximos meses, ele aponta o fim do corte do IPI sobre veículos e eletrodomésticos no mês que vem, o aumento do preço do aço e a provável alta dos alimentos in natura.

Zeina Latif, economista-chefe do banco ING, concorda com Teles. "Não há espaço hoje para baixar os juros." Segundo ela, os efeitos do afrouxamento recente da política monetária na demanda devem aparecer nos próximos meses. Além disso, ela ressalta a recuperação do mercado de trabalho.

A coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos, explicou que a tendência do acumulado em 12 meses tem sido decrescente porque "foram sendo deixadas para trás taxas mais altas do ano passado". Ela destacou que, daqui para frente, não é possível afirmar que a desaceleração no indicador anualizado prosseguirá no mesmo ritmo.

Já o economista da Tendências Consultoria, Gian Barbosa, disse que o IPCA de agosto reforça o cenário "de um desempenho tranquilo da inflação neste ano". A estimativa da consultoria é de inflação oficial de 4,2% em 2009 e de 3,9% no ano que vem. Para a economista-chefe da Icap Brasil, Inês Filipa, o IPCA surpreendeu para baixo em agosto, mas não deve continuar no mesmo nível tão suave em setembro. Segundo a AE Projeções, os analistas econômicos esperavam, em média, uma alta de 0,17% no índice.

Em agosto, a desaceleração nos reajustes foi generalizada entre os itens pesquisados para o IPCA, segundo destacou Eulina. A desaceleração no ritmo de reajustes de preços de julho para agosto reflete sobretudo o fim de pressões da alta do leite pasteurizado e da energia.

O leite, vilão da inflação desde abril, passou de um aumento de 4,02% em julho para uma queda de 6,61% em agosto.

A taxa dos alimentos ficou estável (-0,01% em agosto ante -0,06% em julho), mas houve redução no reajuste dos não alimentícios (0,20% em agosto ante 0,33% em julho), puxada pelo menor impacto da energia elétrica (3,35% para 0,39%).

Em setembro, de acordo com Eulina, há poucas pressões já conhecidas sobre o IPCA, com destaque para os reajustes em jogos de loteria, passagem de trem no Rio, água e esgoto em São Paulo e energia elétrica em Goiânia e Belém.

COLABORARAM MICHELLY CHAVES TEIXEIRA, MÁRCIA DE CHIARA, FLÁVIO LEONEL, DENISE ABARCA

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