Tiago Queiroz/ Estadão
Projeção de economista é de que o IPCA deve ter uma deflação de até 1%, influenciada pelas medidas do governo Tiago Queiroz/ Estadão

IPCA deve ter deflação em julho por causa do corte do ICMS, preveem economistas

Estimativa do mercado é de que a inflação oficial do País pode ficar negativa neste mês, com a redução dos preços

Daniela Amorim, Cícero Cotrim, Guilherme Bianchini e Marianna Gualter, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 15h00

RIO E SÃO PAULO - Depois de acelerar em junho e registrar uma alta de 0,67% a inflação oficial do Brasil deve dar uma trégua neste mês de julho. A projeção de economistas do mercado financeiro é de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ter uma deflação de até 1%, influenciada pelas medidas do governo, com respaldo do Congresso, para reduzir a alíquota de ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações.

A medida já começou a se refletir nos preços dos combustíveis e da energia elétrica, embora o IPCA de junho tenha captado somente alguns dias de redução do imposto, e apenas em São Paulo e Goiás. 

Como o corte tributário influenciará de forma mais significativa a leitura de julho, o Itaú Unibanco prevê uma deflação próxima de 1%, enquanto a empresa de pesquisas LCA Consultores projeta redução de 0,51%. A gestora de recursos Garde Asset espera uma queda de preços na economia de 0,82%.

“O resultado depende da velocidade do repasse (da redução do ICMS) sobre combustíveis. Não se sabe o quão rápido o corte de impostos vai chegar na bomba, mas, a princípio, parece que vai ser rápido. Energia é um pouco mais claro que vai aparecer em julho”, afirmou o economista Luís Menon, da Garde Asset.

Apesar da perspectiva de uma deflação em julho, o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, alerta que existe uma dúvida à frente sobre como a alta do dólar pode pressionar os preços. Além disso, há a possibilidade de mais reajustes dos combustíveis até o fim do ano.

“É uma ajuda no curto prazo, às custas de uma piora fiscal significativa e de uma piora da inflação no ano que vem”, avaliou Vale. “Estamos caminhando para um IPCA próximo de 8,0% em 2022, mas com 5,4% no ano que vem, acima do teto da meta.”

As projeções preliminares da economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado, indicam uma deflação de 0,75% para o IPCA de julho, mas sob o alerta de que a incerteza em relação à estimativa é grande. 

A ARX prevê um IPCA de 7,30% em 2022 e de 5,24% em 2023, com os impactos das medidas fiscais. Apesar do alívio tributário, há risco para o cenário inflacionário decorrente da PEC Kamikaze, que pode ser votada pela Câmara na semana que vem.

"No início do ano, quando tivemos o aumento do Auxílio Brasil para R$ 400, vimos claramente que isso impulsionou a inflação. Agora, essas medidas também são um risco altista", afirmou Machado, que calcula uma contribuição de 0,5 ponto porcentual da PEC para o IPCA de 2022 e 2023, já incorporada às projeções.

A economista-chefe da ARX considera mais provável que o Banco Central (BC) encerre o ciclo de aperto monetário em agosto, com uma alta de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano, mas há risco de um ciclo mais longo. "Hoje, o grande desafio do BC (Banco Central) é controlar as expectativas", disse.

Em junho, o IPCA já apurou quedas nos preços da gasolina (-0,72%), etanol (-6,41%) e energia elétrica (-1,07%). Juntos os três itens ajudaram a conter a inflação em 0,15 ponto porcentual.

Segundo Pedro Kislanov, gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE, o impacto da redução do ICMS aparecerá mais claramente em julho, uma vez que o período de referência da inflação de junho se encerrou no dia 29 do mês.

"A gente já tem uma série de estados que publicaram decretos reduzindo valor do ICMS. A partir de julho já começa a valer", disse Kislanov.

Kislanov ressalta que ainda não é possível prever a magnitude do impacto da redução do ICMS sobre a inflação, porque os itens pesquisados podem sofrer influência de outros componentes.

“Provavelmente vai afetar a energia elétrica. Deve afetar também a parte de combustíveis. Vamos aguardar para ver como vai ser esse comportamento”, recomendou o pesquisador.

No caso da tarifa de energia elétrica, além do ICMS, ainda há incidência de PIS/Cofins, contribuição para iluminação pública, reajuste de tarifas por concessionárias e incidência de bandeira tarifária. Quanto aos combustíveis, os preços são coletados diretamente nas bombas, com impacto também de eventuais reajustes nas refinarias.

"A gente já tem observado no dia-a-dia a redução no preço da bomba por causa da redução da alíquota", lembrou Kislanov.

A taxa acumulada pelo IPCA em 12 meses subiu a 11,89% em junho, e já roda no patamar de dois dígitos pelo décimo mês consecutivo. A última vez que a inflação persistiu por tanto tempo acima dos 10% foi em 2003.

No mês de junho, os vilões da vez foram o plano de saúde (2,99%), o leite longa vida (10,72%) e as passagens aéreas (11,32%). Comer fora de casa ficou 1,26% mais caro, refletindo o aumento nos custos dos próprios alimentos, mas também o encarecimento da energia e combustíveis, por exemplo, além da retomada de uma demanda que andava reprimida por conta da pandemia de covid-19, enumerou Kislanov.

"Isso (retomada da demanda) está afetando não só a parte de alimentação fora de casa, mas outros serviços da economia, como a parte de manicure, cabeleireiro e barbeiro", frisou o gerente do IBGE.

Os serviços já acumulam uma alta de 8,73% em 12 meses, taxa mais elevada desde janeiro de 2015.

“Alguns componentes da inflação que estavam com uma demanda mais reprimida durante o período da pandemia, toda essa parte de manicure, cabeleireiro e barbeiro, alimentação fora, a parte de turismo (...) a gente tem observado uma alta maior, porque houve uma retomada na demanda por esses serviços. Isso tem pressionado os preços”, disse Kislanov.

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Plano de saúde, leite e passagem aérea puxam IPCA, que volta a acelerar e fica em 0,67% em junho

Com o resultado do mês passado, inflação acumula um aumento de 11,89% em 12 meses

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 09h18
Atualizado 08 de julho de 2022 | 10h09

A inflação voltou a acelerar em junho, e ficou em 0,67%, depois de ter recuado para 0,47% em maio. Com esse resultado, o IPCA acumula alta de 5,49% no ano e 11,89% em 12 meses. Já são 10 meses consecutivos em que a inflação, em 12 meses, está acima dos dois dígitos.  

De acordo com o IBGE, três itens se destacaram no mês passado e puxaram o IPCA para cima. Os planos de saúde deram uma contribuição de 0,1 ponto porcentual no índice, com uma alta de 2,99% no mês. O leite longa vida teve uma contribuição de 0,09 ponto porcentual, após acumular um aumento de 10,72% em junho. Já as passagens aéreas, que subiram 11,32% no mês, deram uma contribuição de 0,06 ponto porcentual para o IPCA. 

Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram variação positiva no mês passado, segundo o Instituto. A maior variação foi do grupo Vestuário, com alta de 1,67%. O grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,8%. O grupo Saúde e Cuidados Pessoais teve alta de 1,24%, e os transportes subiram 0,57%. 

 

O grupo Habitação, que havia registrado queda de 1,7% em maio, passou para alta de 0,41% em junho. Os demais grupos ficaram entre o 0,09% de Educação e o 0,55% de Artigos de residência.

O resultado do grupo Alimentação e Bebidas, ainda de acordo com o IBGE, foi influenciado pela alta dos alimentos para consumo fora do domicílio, que subiram 1,26%. A refeição passou de 0,41% no mês anterior para 0,95% em junho, enquanto o lanche foi de 1,08% para 2,21%. A nota do instituto aponta ainda que houve alta em alguns alimentos para consumo no domicílio (0,63%), como o leite longa vida (10,72%) e o feijão-carioca (9,74%).

"No lado das quedas, houve recuo expressivo nos preços da cenoura (-23,36%), que já haviam caído em maio (-24,07%). Outros alimentos importantes na cesta de consumo dos brasileiros tiveram redução de preços, a exemplo da cebola (-7,06%), da batata-inglesa (-3,47%) e do tomate (-2,70%)", diz o IBGE.

O grupo Transportes desacelerou em relação a maio (1,34%), influenciado pelo resultado dos combustíveis (-1,20%). Enquanto os preços da gasolina caíram 0,72%, o recuo nos preços do etanol foi mais intenso (-6,41%). Por outro lado, segundo o IBGE, houve aumento do óleo diesel (3,82%) e do gás veicular (0,30%). "A maior variação (11,32%) e o maior impacto positivo (0,06 ponto porcentual) dentro do grupo vieram das passagens aéreas, cujos preços já haviam subido em maio (18,33%). Em 12 meses, as passagens aéreas acumulam alta de 122,40%", diz a nota. 

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Morango, leite e passagens aéreas têm maior alta em junho, aponta IBGE

IPCA voltou a acelerar em junho e acumula uma alta de 5,49% no ano, atingindo todos os grupos de produtos pesquisados

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 11h01

O morango foi o item que apresentou maior aumento de preço mensal no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de junho, com alta de 13,30%. O indicador foi divulgado nesta sexta-feira, 8, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Também entre os maiores aumentos estão as passagens aéreas (11,32%) e o leite longa vida (10,72%). 

O morango também foi o item que mais apresentou inflação no acumulado do ano (106,81%), enquanto as passagens aéreas tiveram o maior aumento no acumulado de 12 meses (122,40%). Na outra ponta, está o limão, que caiu 29,65% no ano e 13,08% em 12 meses. 

Pelo segundo mês consecutivo, a cenoura foi o item que apresentou maior redução de preço, com queda de 23,36% em relação ao mês anterior. Em maio, a cenoura também foi o item que mais teve redução, com queda de 24,07% em relação a abril. Outros itens que estão entre as maiores quedas de junho são a laranja-baía (20,87%) e a laranja-lima (11,48%). 

Segundo os dados do IBGE, o IPCA voltou a acelerar em junho, ficando em 0,67%, depois de ter recuado para 0,47% em maio. Com esse resultado, o IPCA acumula alta de 5,49% no ano e de 11,89% em 12 meses. 

Todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram variação positiva no mês passado. A maior variação foi do grupo Vestuário, com alta de 1,67%. Já o maior impacto, de 0,17 ponto porcentual no índice, veio do grupo Alimentação e Bebidas, que subiu 0,8%. O grupo Saúde e Cuidados Pessoais teve alta de 1,24%, e os Transportes subiram 0,57%. O grupo Habitação, que havia registrado queda de 1,7% em maio, passou para alta de 0,41% em junho. Os demais grupos ficaram entre o 0,09% de Educação e o 0,55% de Artigos de residência.

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Inflação e aumento dos preços leva mais 71 milhões de pessoas à pobreza desde março, diz ONU

De acordo com o relatório do Pnud, a alta no custo de alimentos e energia desencadearam uma crise com impacto devastador nas famílias mais pobres

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2022 | 13h02

O aumento global nos preços levou mais 71 milhões de pessoas que vivem em países em desenvolvimento à pobreza desde março, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), publicado na quinta-feira, 7. 

Segundo o Pnud, a alta nos preços, principalmente de alimentos e de energia, que estão ligados, em parte, com a guerra na Ucrânia, desencadearam uma crise de custo de vida sem precedentes e que está tendo um impacto devastador nas famílias mais pobres. 

O relatório traz a análise de 159 países em desenvolvimento e aponta algumas regiões em que a crise tem mais impacto, como a África Subsaariana, os Balcãs e a região do Mar Cáspio. 

"O impacto nas taxas de pobreza é drasticamente mais rápido do que o choque da pandemia de covid-19", disse o administrador do Pnud, Achim Steiner, durante a apresentação do relatório. 

Os desafios enfrentados pelos países em desenvolvimento, com aumento de juros em resposta à alta da inflação, muitas vezes não podem ser resolvidos sem a atenção da comunidade internacional, segundo a agência da ONU

O relatório conclui que transferências diretas de dinheiro para famílias vulneráveis, com prazo determinado, são a medida mais eficaz para lidar com os impactos. Já os subsídios energéticos em que muitos governos apostam seriam menos eficazes, beneficiando desproporcionalmente os mais ricos. 

"Embora os subsídios gerais à energia possam ajudar no curto prazo, no longo prazo eles impulsionam a desigualdade, exacerbam ainda mais a crise climática e não suavizam o golpe imediato do aumento dos custos de vida tanto quanto as transferências de dinheiro”, disse George Gray Molina, um dos autores do relatório, em comunicado. Segundo o especialista, o subsídio é “um remendo” que oferece algum alívio imediato, mas pode acabar por ser prejudicial a longo prazo. / COM EFE

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