Dida Sampaio/Estadão
Preços de feijão no supermercado; o IBGE divulgou o IPCA de março Dida Sampaio/Estadão

Com inflação recorde em março, mercado eleva projeções do IPCA para o ano

No mês passado, índice ficou em 1,62%, o maior patamar para o mês desde 1994, antes do Plano Real; chamam a atenção os aumentos da cenoura (31,47%) e do tomate (27,22%)

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 09h09
Atualizado 08 de abril de 2022 | 15h48

inflação oficial no País ficou em 1,62% em março, maior patamar para o mês desde 1994 (antes do Plano Real, quando o índice foi de 42,75%). A alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) veio acima das expectativas do mercado, que esperava 1,35% no mês, e foi puxada pelos combustíveis e alimentos. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira, 8, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Com o resultado do mês passado, a inflação acumulada em 12 meses subiu a 11,3%. Apenas nos três primeiros meses do ano, o IPCA já acumula uma alta de 3,2%. 

Esse números acima do esperado já fazem o mercado começar a rever as projeções para a inflação. As previsões se distanciam cada vez mais da meta do Banco Central para o ano, de 3,5%, com teto de tolerância de 5%, e já chegam mais perto de 8%.   

A LCA Consultores, por exemplo, elevou de 7,5% para 8% a sua projeção para o IPCA, após a surpresa para cima com o resultado de março. Em relatório, o economista da consultoria Fábio Romão disse que os dados sugerem pressões disseminadas à frente.

O banco BNP Paribas tem projeção ainda mais pessimista: projeta uma inflação de 8,5% no ano. “A surpresa (com o IPCA de marçoa) teve vários componentes, não vejo explicações pontuais. Seguimos bastante preocupados com a dinâmica inflacionária”, disse o chefe de pesquisa econômica para América Latina do banco, Gustavo Arruda. 

Os dados reforçam a perspectiva de novos aumentos na taxa básica de juros, a Selic, avaliou o economista-chefe da corretora de valores Necton Investimentos, André Perfeito. Ele espera que o Comitê de Política Monetária do Banco Central decida por uma alta de 1 ponto porcentual na Selic na reunião de maio, seguida de outro aumento de 0,5 ponto porcentual em junho, para o patamar de 13,25% ao ano.

“Revisamos o IPCA para o fim de 2022 de 6,77% para 7,4%”, disse Perfeito, em relatório.

O cenário inflacionário mais pressionado que o previsto deve pressionar mais o Banco Central no processo de aumento da taxa de juros, corroborou Eduardo Cubas, sócio da Manchester Investimentos.

"Temos batido na tecla que o pico da inflação será entre abril e maio, mas não esperávamos este nível. Isso deve tornar a tarefa do BC ainda mais complexa", admitiu Cubas.

Os combustíveis reajustados nas refinarias pela Petrobras em 11 de março foram responsáveis juntos por 0,56 ponto porcentual da taxa do IPCA no último mês. No entanto, as elevações nesses preços costumam afetar os demais produtos e serviços da economia, contaminando a inflação como um todo através de diferentes componentes, explicou Pedro Kislanov, gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE.

A gasolina subiu 6,95% nas bombas, impacto individual de 0,44 ponto porcentual no IPCA de março. O óleo diesel aumentou 13,65%, uma contribuição de 0,03 ponto porcentual. O gás veicular ficou 5,29% mais caro, contribuição de 0,004 ponto porcentual. O gás de botijão aumentou 6,57%, impacto de 0,09 ponto porcentual.

Os aumentos influenciaram diretamente itens como transporte por aplicativo (7,98%) e etanol (3,02%), mas também outros componentes, como os alimentos consumidos no domicílio (3,09%), através do encarecimento do frete.

“A gente tem diversos outros componentes do IPCA (contaminados pelos combustíveis), não tem como especificar, porque o custo do frete acaba afetando todos os outros itens da economia”, disse Kislanov. “De fato, o que acontece quando você tem uma alta do diesel e da gasolina é que tem um efeito em toda a economia. Todos os preços acabam sendo afetados, e isso acaba sendo repassado ao consumidor final”, afirmou.

Kislanov lembra que a inflação de março foi muito marcada pela alta nos preços dos grupos Transportes (3,02%) e Alimentação e bebidas (2,42%), que responderam juntos por cerca de 72% do IPCA.

“Os alimentos também são afetados por condições climáticas, sem dúvida, mas os combustíveis encarecem o custo do frete”, disse o gerente do IBGE.

Nos alimentos comprados em feiras e mercados, para consumo em casa, os destaques negativos foram tomate, cenoura, frutas, cebola, açaí e leite.

“A gente observou altas bastante expressivas. Essas altas são explicadas não só por questões climáticas, mas muito provavelmente também pelo aumento do custo do frete, aumento do diesel”, disse Kislanov. “No geral, esse aumento de preços está atrelado a problema climático e custo do transporte para levar esse produto até o consumidor final”, completou.

No entanto, houve aumentos também em derivados de commodities agrícolas pressionadas no mercado internacional pela invasão da Ucrânia pela Rússia, como o óleo de soja e o pão francês. A coleta de preços para o IPCA de março abrange exatamente o primeiro mês de guerra, de 25 de fevereiro a 30 de março.

“O impacto mais claro que a gente teve foi nos preços dos combustíveis, como a Petrobras segue uma política de preços que segue o preço do barril de petróleo”, lembrou Kislanov. “As altas de alguns preços de commodities agrícolas podem estar relacionadas à guerra, mas a gente não tem como cravar que o resultado A ou B é resultado direto da guerra”, ponderou.

A gasolina foi disparada a maior pressão, mas os aumentos permanecem disseminados entre os bens e serviços investigados. O índice de difusão do IPCA, que mostra o porcentual de itens com aumentos de preços, teve ligeira alta de 75% em fevereiro para 76,13% em março, maior porcentual desde fevereiro de 2016.

“A difusão mostra a inflação mais espalhada do que no ano passado”, disse Kislanov.

A difusão de itens alimentícios estava em 74% em fevereiro e assim permaneceu em março, enquanto a difusão de itens não alimentícios passou de 75% em fevereiro para 78% em março.

"O que aconteceu nos itens alimentícios é que as altas foram mais fortes do que no mês anterior. O número de produtos com aumentos foi o mesmo", explicou Kislanov.

A inflação de serviços – usada como termômetro de pressões de demanda sobre a inflação – passou de uma alta de 1,36% em fevereiro para elevação de 0,45% em março. Já os preços de itens monitorados pelo governo saíram de uma elevação de 0,12% em fevereiro para um aumento de 2,65% em março.

Para Kislanov, ainda não há sinais de pressão de demanda sobre a inflação no País, que permanece turbinada pelos itens monitorados pelo governo, em particular os combustíveis. Ele acredita que seja preciso esperar uma melhora mais contundente na renda da população, que possa aumentar a demanda a ponto de influenciar os aumentos de preços.

“O cenário continua o mesmo. A gente tem um cenário com alguns indicadores um pouco mais favoráveis, como redução do desemprego, uma renda que ficou estável, mas é um rendimento que não tem acompanhado a inflação. As pessoas ainda estão com a renda deprimida em termos reais, o que continua comprimindo o consumo”, justificou. “Inclusive alguns aumentos de serviços foram influenciados por custo de produção”, acrescentou./ COLABORARAM MARIA REGINA SILVA, GUILHERME BIANCHINI E CÍCERO COTRIM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com inflação em alta, Selic pode chegar a 13,5%, diz economista Sergio Vale

A perspectiva de um cenário turbulento dos preços deve fazer com que o Banco Central (BC) suba ainda mais a taxa básica de juros neste ano; leia entrevista

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 15h07

O galope da inflação em março, que atingiu 1,62%, a maior taxa em 28 anos, e a perspectiva de um cenário turbulento dos preços para os próximos meses devem fazer com que o Banco Central (BC) suba ainda mais a taxa básica de juros neste ano.

Nas contas do economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale, a Selic deve chegar em 2022 a 13,5% para conter as expectativas inflacionárias para 2023, que são crescentes. “Não vai bastar subir a Selic para 12,75%. Será preciso subir mais do que isso”, prevê.

Vale acha difícil que o BC consiga trazer a inflação para a meta de 3,25% no ano que vem, especialmente porque a autoridade monetária está sozinha no combate à inflação. Hoje o BC não conta com a ajuda da política fiscal para segurar os preços e é muito provável que esse quadro se repita em 2023. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a sua avaliação do resultado da inflação de março de 1,62%?

É um resultado muito ruim acima do que esperávamos,  alta de 1,27%. Março obviamente teve todo o impacto mais agressivo por conta da guerra. Esse resultado foi atípico e não deve se repetir até o final do ano nesse patamar. Mas há preocupações muito grandes para os meses de abril e maio, especialmente abril. Em abril teremos o benefício da bandeira verde da tarifa de energia. Mas, por outro lado, teremos a pressão dos medicamentos e as repercussões da alta das commodities. Provavelmente o IPCA acumulado em 12 meses chegará a 12% em abril.

E qual é a perspectiva?

Temos uma inflação ainda sob muito risco para os próximos meses. Com IPCA em 12  meses em 12% em abril, para fechar o ano com 7,8% é preciso ter uma média mensal de 0,42% a cada mês até o final do ano. E não vemos essa média no IPCA acontecer faz muito tempo. É preciso ter um processo de desinflação muito grande para chegar a 7,8% e isso está sob risco. O câmbio está começando a voltar agora com a subida dos juros nos EUA, tem o risco eleitoral no segundo semestre que pode jogar o câmbio mais para cima. As benesses que teremos com energia elétrica, talvez não sejam suficientes para se contrapor às pressões que teremos até o final do ano.

O sr. mudou a previsão de 7,8% para este ano?

Não. Mas há uma grande chance de o IPCA fechar 2022 acima de 8%. Isso traz preocupação para o ano que vem. Trazer a inflação em 12 meses de um nível de 12% em abril para perto de 3% em 2023, não vai ser tão simples assim. Tem a pressão na questão dos fertilizantes que ainda está em aberto, tem a pressão no câmbio por conta do novo presidente e o que ele fará da política econômica. 2023 será um ano arriscado para a inflação. Estou com um IPCA para 2023 de 4,2%, o mercado está sistematicamente subindo as expectativas. O BC tem que impedir que essas expectativas para o ano que vem começam a acelerar.

O que fazer?

O BC optou por algo escalonado: trazer a inflação para a meta no ano que vem. Só que essa inflação na meta no ano que vem está começando a ficar arriscada de não acontecer. Isso irá demandar um esforço adicional do Banco Central daqui para frente. Não vai bastar subir a Selic para 12,75%. Será preciso subir mais do que isso.

A Selic pode chegar a quanto?

Estamos com a previsão de Selic a 13% ao ano, mas possivelmente vamos revisar esse número para cima. Diria que a Selic pode chegar a 13,5%. Não vejo chegando a 14%, apesar de ser uma possibilidade.

A taxa de difusão, que mede a fatia de itens que estão subindo de preço, veio muito forte em março, foi de 76%. Por que a inflação está tão espalhada e acelerada?

Esse é o grande problema de termos choques contínuos como tivemos agora. Vimos uma discussão nos últimos dois anos de pessoas dizendo que o Banco Central não precisava fazer nada com a inflação porque era um choque de oferta que iria se dissipar. Estamos tendo a comprovação agora de que não é isso. Os choques de oferta que tivemos por conta da pandemia, guerra, são vistos na inflação e a inflação se espalha. O indicador mais importante é o de difusão. O que vemos hoje são choques que começaram na base da cadeia de tudo que se produz e consome. Não tinha como se imaginar que uma pressão na base da cadeia não seria repassada, especialmente num momento de saída da pandemia.

É factível atingir a meta de 3,25% em 2023?

Acho difícil. É um ano que vamos estar sofrendo o impacto da inflação deste ano.  O Banco Central tem insistido que não abre mão de tentar levar a inflação para a meta em 2023. Mas, para isso acontecer, o BC  vai ter que ter que subir mais juros e ter um esforço conjunto de todo o governo. Hoje o BC está sozinho para segurar a inflação. A política fiscal abandonou a ajuda que deveria dar à política monetária. O BC corre o risco de, no ano que vem, estar sozinho de novo. Talvez, vamos ter uma inflação acima da meta.

A inflação descontrolada vai ter impacto nas eleições?

É muito provável. Se pegarmos o IPCA acumulado em 12 meses, mês a mês,  é provável que a gente tenha inflação de dois dígitos até agosto, pelo menos. Em agosto estaremos no auge da eleição. E a taxa de desemprego também estará elevada, acima de dois dígitos. O índice de miséria é a soma das taxas de desemprego e de inflação. Esse indicador estará elevado no auge do período eleitoral. Isso é uma sinalização bastante persuasiva para a população que há problemas graves na economia. Isso dificulta, com certeza, a reeleição do governo Bolsonaro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cenoura sobe 166% em 12 meses; veja itens que dispararam e puxaram a inflação

IPCA subiu 1,62% em março, maior patamar para o mês desde 1994

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 12h09

Sete produtos, liderados pela cenoura, subiram mais de 50% no acumulado de 12 meses e ajudaram a puxar a inflação para cima. O IPCA, a inflação oficial no País, ficou em 1,62% em março, maior patamar para o mês desde 1994, e acumula alta de 11,3% no período, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 8. 

Dos mais de 400 itens acompanhados pelo IBGE, a cenoura é a que ficou mais cara no acumulado de um ano: alta de 166,17%. Os sete produtos seguintes no ranking são todos da área de alimentos e bebidas: tomate (94,55%), pimentão (80,44%), melão (68,95%), melancia (66,42%), repolho (64,79%), café moído (64,66%) e mamão (54,95%).

Dois combustíveis completam a lista de "top 10" dos produtos que mais subiram os preços no período: óleo diesel (46,47%) e gás veicular (45,54%).

Os maiores impactos na inflação de março vieram justamente das áreas representadas acima: os setores de transportes (que inclui combustíveis e representou 0,65 ponto porcentual do aumento) e alimentação e bebidas (0,51 ponto). Juntos, os dois grupos contribuíram com cerca de 72% do IPCA do mês passado.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.