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IPCA no crédito imobiliário eleva risco do tomador

Interessado deve considerar se está disposto a assumir o risco da inflação

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 05h00

Recentemente você escreveu sobre aplicação em dólares e citou o Forex. Como funciona esse investimento? É legal no Brasil?

O mercado Forex (Foreign Exchange Market) é um ambiente de operações com moedas estrangeiras. Esse mercado funciona com a compra de uma moeda e a venda de outra, simultaneamente. Como as moedas são sempre negociadas em pares, por exemplo, euro e dólar, os ganhos ou perdas ocorrem com a valorização de uma moeda em relação a outra. Não há a compra física de dólares ou euros, mas sim a relação monetária de troca entre elas, havendo ganhos em função da diferença na valorização dessas moedas. O Forex, portanto, é um tipo de derivativo cujos ativos subjacentes são pares de moedas. Essas operações são alavancadas, o que significa entrar no jogo em relações de 100:1, o que permite a realização de grandes ganhos, mas também enormes perdas. A volatilidade do mercado pode trazer ganhos em prazo muito curto, mas com a mesma facilidade você pode perder muito. De acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), não há nenhuma instituição autorizada a oferecer esse tipo de investimento no Brasil, portanto qualquer oferta feita aqui é ilegal. Por outro lado, não há proibição alguma de brasileiros investirem no exterior. Os riscos desse tipo de operação são vários, o primeiro a considerar é da própria natureza do tipo de investimento: por ser um mercado muito especulativo, está mais para uma aposta. Mas também há risco de lidar com corretoras não autorizadas, abrindo espaço para fraudes, além de todos as circunstâncias trazidas pela falta de proteção dada pelas regras brasileiras. 

Para quem vale a pena optar pela nova forma de contrato imobiliário com a Caixa, atrelado à inflação?

Uma primeira reposta simples seria dizer que o contrato indexado ao IPCA e com juros fixos menores seria indicado para quem tem carteira de trabalho assinada e acredita que irá se manter empregados por longo prazo. Mas é difícil responder de forma genérica, porque cada pessoa tem uma situação particular em relação a renda, orçamento de gastos, estrutura familiar, perspectiva profissional e grau de aversão a risco. A indexação pelo IPCA traz risco maior para o tomador porque se trata de um índice de preços relativo à cesta de consumo das famílias. A TR (taxa de referencial de juros), usada como indexador nas demais modalidades de crédito imobiliário, foi criada em 1991, pelo Plano Collor II, com dois objetivos: a desindexação da economia e o combate à hiperinflação. O argumento da Caixa é que, usando o IPCA, a taxa fixa de juros pode ser reduzida para a faixa entre 2,95% e 4,95% ao ano, o que resulta num custo previsto em 2019 entre 6,9% e 8,9% ao ano. Ao passo que a outra opção de crédito no banco está entre 8,5% e 9,75% ao ano mais a TR, atualmente zerada. O fato é que o risco da inflação está sendo passado para o tomador do empréstimo, por isso as taxas podem ser reduzidas – a modalidade ainda prevê a redução do prazo máximo de financiamento, o uso exclusivo da tabela SAC e diminuição do uso da renda de 30% para 20%. O interessado deve considerar se está disposto a assumir mais riscos para ter uma taxa mais baixa. É preciso levar em conta também que no longo prazo não há garantia de emprego nem de que a inflação vai permanecer controlada, como está atualmente. Mais uma vez o mercado resolveu o seu problema, mas quando será resolvido o problema das pessoas?

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