IPCA recua para 0,36% e reforça aposta na redução dos juros

Queda da inflação permitirá corte das taxas em 2009, dizem economistas

Jacqueline Farid, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

A queda nos preços de commodities agrícolas e o recuo na demanda por produtos como automóveis impediram uma contaminação do recente choque cambial na inflação e levaram o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a desacelerar para 0,36% em novembro. O resultado foi bem inferior ao esperado pelo mercado financeiro, de 0,5%. Em outubro, a taxa havia sido de 0,45%. A surpresa positiva ampliou as apostas de economistas em cortes de juros no ano que vem, mas não mudou as expectativas de manutenção da taxa básica (Selic) em 13,75% na reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) da próxima semana, a última de 2008. No ano, o IPCA acumulou 5,61% até novembro; em 12 meses, a taxa foi de 6,39%. É consenso entre os analistas de mercado que a inflação vai ultrapassar este ano o centro da meta (4,5%), e deve ficar bem próxima do teto fixado pelo Banco Central, de 6,5%. Segundo a coordenadora de índices de preços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eulina Nunes dos Santos, o temido contágio do dólar sobre a inflação ainda não ocorreu porque a desvalorização do real pode estar sendo compensada pelo recuo nos preços das commodities. Segundo ela, o atual choque cambial não teve, pelo menos por enquanto, a mesma influência de alta sobre a inflação como ocorreu em choques anteriores, porque "hoje o momento é outro, é uma situação muito diferente". Como exemplo dessa mudança, ela citou os automóveis usados, cujos preços caíram 2,61% em novembro, por causa das promoções, que tentam reduzir o recuo da demanda. Eulina citou ainda como exemplo a queda nos preços das commodities, como soja e milho, que está impedindo o repasse da alta do dólar aos alimentos. O óleo de soja, por exemplo, produto cuja cotação sempre acompanha a moeda americana, teve deflação de 1,68% no mês. Segundo ela, ainda que alguns itens com preços direta ou indiretamente atrelados ao dólar tenham subido, o peso desses artigos no índice de inflação é pequeno. "Ao mesmo tempo que o dólar sobe, os preços das commodities caem, então o efeito no mercado interno é de não haver forte alta nos alimentos."Os impactos do dólar ocorreram mais claramente, segundo Eulina, apenas em artigos como microcomputadores (que passaram de -1,92% em outubro para 1,78% em novembro) e eletrodomésticos (de -0,28% em outubro para 0,32%), mas mesmo nesses casos, de acordo com ela, não é possível antever se a pressão de alta vai prosseguir nos próximos meses. Exemplo de que o dólar ainda não influenciou a inflação de forma significativa está na lista de reajustes dos alimentos. Segundo Eulina, a alta de produtos como carne (2,53% em novembro) e tomate (20,87%) está relacionada a condições de mercado ou climáticas, mas não à desvalorização do real. JUROSPara economistas, a desaceleração do IPCA alivia o cenário inflacionário no País e referenda as expectativas de corte de juros em 2009, mas não muda a expectativa de manutenção da taxa na reunião da semana que vem. Gian Barbosa, da Tendências Consultoria, acredita que os dados do IBGE "reduzem a preocupação em relação à inflação corrente". Segundo ele, os resultados mostram indícios de menor pressão de demanda doméstica e os exemplos citados são a desaceleração nos preços dos alimentos e a queda nos automóveis usados. Marcela Prada, também analista da Tendências, avalia que os indicadores de atividade apontam para desaceleração e menor crescimento, o que diminui as pressões inflacionárias em 2009 "e eleva a chance de redução dos juros pelo Banco Central nos próximos meses". Já a economista-chefe da Arkhe DTVM, Inês Filipa, preferiu concentrar as apostas apenas na reunião da próxima semana do Copom, na qual, segundo ela, a taxa prosseguirá inalterada, já que o momento ainda exige cautela.

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