Wilton Junior/Estadão - 21/10/2021
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IPCA-15, prévia da inflação, chega a 0,99% em fevereiro, acima das projeções do mercado

Resultado é o maior para o mês desde 2016; no acumulado em 12 meses, número chega a 10,76%

Daniela Amorim, Cícero Cotrim e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 09h17
Atualizado 23 de fevereiro de 2022 | 11h57

RIO E SÃO PAULO - Os reajustes de mensalidades escolares e de alimentos turbinaram a prévia da inflação oficial no País em fevereiro. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) registrou alta de 0,99%, o maior resultado para o mês desde 2016, informou nesta quarta-feira, 23, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado superou até as expectativas mais pessimistas de analistas do mercado financeiro ouvidos pelo Projeções Broadcast, que esperavam uma alta mediana de 0,87%. A taxa acumulada em 12 meses subiu a 10,76%, também a mais elevada em seis anos.

"Já não é segredo para o mercado que só vamos ver um IPCA abaixo de dois dígitos ao fim do segundo trimestre", afirmou a economista-chefe da corretora Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, que conta com uma mudança em maio da bandeira tarifária que incide sobre a conta de energia elétrica, atualmente de "escassez hídrica". “Eventualmente, a inflação em 12 meses pode acelerar e ficar próxima de 11%, isso não pode ser descartado", alertou.

Educação e alimentos

Em fevereiro, os reajustes de mensalidades escolares no início do ano letivo impulsionaram os gastos das famílias com Educação, que subiram 5,64%, grupo de maior impacto no IPCA-15, uma contribuição de 0,32 ponto porcentual. Os cursos regulares aumentaram 6,69%. Houve altas de preços no ensino fundamental (8,03%), pré-escola (7,55%), ensino médio (7,46%), creche (6,47%) e ensino superior (5,90%). Também ficaram mais caros o curso técnico (4,40%) e a pós-graduação (2,93%).

Os gastos das famílias com alimentação e bebidas subiram 1,20% em fevereiro, uma contribuição de 0,25 ponto porcentual para a taxa do IPCA-15 deste mês. O custo da alimentação no domicílio avançou 1,49%, com o encarecimento da cenoura (49,31%), batata-inglesa (20,15%), café moído (2,71%), frutas (1,75%) e carnes (1,11%). Na direção oposta, as famílias pagaram menos pelo frango inteiro (-1,97%), arroz (-1,60%) e frango em pedaços (-1,31%). A alimentação fora do domicílio subiu 0,45% em fevereiro.

"De forma geral, a inflação brasileira continua sendo pressionada pela recomposição de margens das cadeias produtivas. A maior parte dos empresários teve aumento em seus custos de produção e ainda não conseguiu repassar tudo isso. Ainda tem muita recomposição de margem represada, e isso tende a continuar pressionando a inflação ao longo dos próximos meses", avaliou Eduardo Cubas, sócio e chefe de alocação de recursos da gestora Manchester Investimentos.

Cubas ressalta que a aceleração do IPCA -15 em nível superior ao esperado pelo mercado financeiro reforça a ideia de que a pressão da inflação doméstica não é tão passageira quanto muitos chegaram a estimar. Segundo ele, o encarecimento do petróleo, em meio à instabilidade geopolítica na Ucrânia, já contamina a inflação de curto prazo no Brasil.

"Isso pressiona mais as cadeias logísticas", justificou o sócio da Manchester Investimentos.

Combustíveis e artigos de residência 

Em fevereiro, os combustíveis registraram estabilidade de preços (0,00%). Houve aumentos no óleo diesel (3,78%) e na gasolina (0,15%), mas recuos no etanol (-1,98%) e gás veicular (-0,36%). No entanto, as famílias brasileiras gastaram 2,01% mais com veículos próprios: os automóveis novos subiram 2,64%; as motocicletas, 2,19%; e os e automóveis usados, 2,10%.

Os artigos de residência aumentaram 1,94%, puxados pelo encarecimento dos eletrodomésticos e equipamentos (3,46%) e dos itens de mobiliário (2,45%). Dos nove grupos de despesas que integram o IPCA-15, o único com deflação em fevereiro foi o de Saúde e cuidados pessoais (-0,02%), influenciado pela queda no custo do plano de saúde (-0,69%) e dos itens de higiene pessoal (-0,16%).

Estimativas

Após a divulgação do IPCA-15 de fevereiro, Camila Abdelmalack deve revisar a sua estimativa para a inflação apurada pelo IPCA no ano de 2022, de uma alta de 5,5% para perto de 6,0%. Ela reforça que ainda há riscos para cima no cenário, incluindo os preços de commodities agrícolas e os efeitos de eventos geopolíticos sobre o barril do petróleo, que ainda pode superar os US$ 100. 

No entanto, os riscos já parecem considerados no cenário do Banco Central (BC) e não alteram a avaliação da economista-chefe de uma elevação da taxa básica de juros, a Selic, a 12,5% ao ano no fim do ciclo de aperto monetário, com altas de 1 ponto porcentual em março e de 0,75 ponto em maio.

Já a Manchester prevê que o IPCA encerre 2022 entre 6,00% e 7,00%, mas acredita que o Banco Central (BC) possa adotar uma postura menos agressiva em relação à elevação da taxa Selic, que hoje está em 10,75% ao ano. Segundo Eduardo Cubas, o BC deve esperar para ver qual será a magnitude da primeira alta do juro americano, aguardada para março, e quais serão os sinais do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) para definir sua conduta.

"Não faz sentido uma postura dura em uma economia fraca e com contas fiscais muito apertadas, de mais inflação e juros altos. Tem de ser um pouco mais leniente e ser menos duro", defendeu ele.

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