Ipea: acesso à riqueza pelo trabalho ainda é difícil

As oportunidades de ser rico por meio do trabalho estão abertas a todos? A indagação, que intitula estudo concluído em junho pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tem resposta frustrante para a maioria dos trabalhadores: não. Utilizando cinco diferentes exercícios de simulação, feitos com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), o pesquisador Marcelo Medeiros mostra que, mesmo com incentivos massivos à educação, erradicação total da discriminação e da supressão das desigualdades regionais no Brasil, "as evidências empíricas disponíveis sugerem que os ricos continuariam como uma elite". Medeiros utilizou estatísticas das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (Pnads), do IBGE, de 1997 e 1999. A linha que divide ricos e não-ricos foi traçada por ele a partir de uma renda mensal familiar per capita não muito alta, de R$ 2.170,00. Para os exercícios que determinariam uma possível mobilidade entre as duas classes ele usou características concretas, que chamou de produtivas, como nível de escolaridade, região de residência do trabalhador, idade, raça e sexo. E também trabalhou com "resíduos" das Pnads, levantamento mais completo sobre o rendimento das famílias brasileiras, que chamou de "atributos não-produtivos". Este último parte de um conceito mais abstrato, que especula sobre redes pessoais de relacionamento e uma bagagem cultural enriquecida por "educação e treinamento de elite". O resultado dos cálculos estatísticos demonstra que, apenas se considerados os aspectos concretos, a mobilidade do estrato social seria mínima. Por exemplo, se todos os trabalhadores do País tivessem nível educacional superior completo, os ricos continuariam sendo uma pequena fração da população. Nesta simulação, "o movimento para o estrato rico ocorreria para apenas 0,7% dos não-ricos, o que nem sequer seria o suficiente para duplicar o número observado de ricos do País", mostra o estudo. O pesquisador ressalta que o aumento do nível educacional "teria impactos substantivos" sobre a renda da população, mas não o suficiente para criar uma grande massa de ricos. Do mesmo modo, políticas de redução da discriminação dos trabalhadores também não surtiriam este efeito.Em seu estudo, o pesquisador traça o perfil dos trabalhadores brasileiros mais bem remunerados: os que têm idade em torno de 53 anos, homens, brancos, residentes no Sudeste, com nível superior completo.

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