Ipea: alta do juro seria um 'banho de água fria'

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, divulgou uma nota hoje, na qual afirma que não há necessidade de elevação da taxa básica de juros, a Selic, neste momento. "Na atual conjuntura, a adoção de uma política monetária contracionista seria, no mínimo, precipitada", dizem os economistas Salvador Werneck Vianna, André de Melo Modenesi e Miguel Bruno, que assinam o documento. Atualmente, a Selic está em 11,25% ao ano, e as apostas do mercado dividem-se entre uma elevação de 0,25 ponto porcentual ou de 0,50 ponto. O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, não promove uma elevação da taxa básica de juros desde maio de 2005. Os técnicos do Ipea argumentam que "uma contração monetária representaria um forte impacto negativo nas expectativas empresariais, reduzindo a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento (da economia brasileira). Ainda que não interrompa os investimentos já em curso, uma elevação da Selic, certamente, inibiria novos investimentos. E aí sim, em um cenário de retração dos investimentos, a expansão da demanda poderia comprometer a estabilidade dos preços".O estudo do Ipea alerta que "uma contração monetária seria um tremendo banho de água fria no espírito empresarial, o que pode reduzir drasticamente a sustentabilidade do atual ciclo de crescimento".RazõesO estudo faz um levantamento dos pontos que têm sido destacados pelo Banco Central, desde janeiro, com temores de descompassos entre oferta e demanda. Para os economistas que assinam o estudo, "o BC indicou claramente que irá realizar uma alta preventiva da Selic, sob a justificativa de que, agindo assim, estaria minimizando os custos da estabilidade de preços".Para os economistas do Ipea, entretanto, há "evidências contrárias ao ajuste preventivo". Eles afirmam, no documento, que a atual "estabilidade" na massa salarial como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) "reforça a convicção de que a demanda interna não está excessivamente aquecida, o que se verifica é um crescimento saudável, compatível com uma trajetória sustentável de crescimento econômico".Os economistas argumentam, ainda, que os aumentos nas taxas de utilização da capacidade na indústria "são geralmente acompanhados de ganhos de produtividade". Além disso, segundo eles, a tendência da taxa de utilização da capacidade está em queda desde o início de 2007.Outro ponto destacado no estudo é a "diferença estrutural" entre o quadro atual e o de 2004, quando teve início o último ciclo de alta dos juros. "Naquela conjuntura, havia-se atingido níveis elevados de utilização da capacidade instalada. A diferença crucial é que não se registrava, tal como agora, um crescimento expressivo da taxa de investimento", diz o documento.Outro argumento é baseado nos resultados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, que apontaram unanimidade nas expectativas do mercado financeiro de elevação de juros na reunião do Copom desta semana. Para os economistas que assinam o estudo do Ipea, todos os núcleos do IPCA acumulados em 12 meses até março mostram inflação abaixo da meta, sendo que a "média dos núcleos" estava em 4,24%. O centro da meta definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 4,5% para 2008, com margem de tolerância de dois porcentuais para cima ou para baixo. "Em que pese a elevação do índice cheio (IPCA) em março, é preciso enfatizar que a perspectiva é de declínio ao longo do ano nos preços dos alimentos, que vem pressionando mais fortemente a inflação à medida que a safra agrícola comece a ser comercializada", diz o documento.ConclusãoSegundo as conclusões do documento, "o argumento em prol da atual necessidade de se realizar uma alta preventiva da Selic não encontra sustentação nos indicadores conjunturais e estruturais apresentados. Tanto o lado real quanto as expectativas de inflação da economia brasileira desabonam a tese da necessidade de uma reversão na política monetária".

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