Ipea: crise nos EUA deve reduzir crescimento do Brasil

A eclosão da crise global nos mercados nos últimos dias trouxe uma dose adicional de incerteza para os indicadores domésticos em 2008, segundo avalia o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Leonardo Mello de Carvalho. Ele acredita que os resultados deverão ser inferiores aos previstos anteriormente pelos agentes econômicos para o crescimento da economia e das exportações. As novas projeções do Ipea para 2008 serão apresentadas em boletim de conjuntura que será divulgado em março.Segundo Mello de Carvalho, há "grandes pontos de interrogação" para 2008. O principal deles é qual a profundidade e duração da recessão nos Estados Unidos. Para ele, é certo que os sintomas mais graves da crise norte-americana persistirão pelo menos neste primeiro semestre, já que as medidas de redução de juros determinadas ontem pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) não terão efeito em menos de seis meses. Além disso, ele lembra que o problema de liquidez nos bancos locais pode ser maior do que se apresenta até o momento.O resultado imediato dessa recessão no Brasil, segundo ele, será um desempenho das exportações pior do que se esperava, já que o mundo estará menos comprador nesse cenário de desaceleração de crescimento e aumento de desconfiança. Ele lembra que as exportações poderão aprofundar sua contribuição negativa - que já ocorreu em 2007 - sobre o PIB.Outro ponto de interrogação importante, segundo o economista, é o comportamento do preço das commodities. Neste caso, haverá "efeitos antagônicos" sobre a inflação doméstica, já que, por um lado, reduzirá os preços dos produtos agrícolas, mas, por outro, poderá pressionar o câmbio e, desse modo, elevar os preços de produtos como alimentos.Mello de Carvalho também cita como questão crucial o nível de utilização da capacidade instalada em 2007 e, mais que isso, a reação dos investidores não apenas à crise global, mas também aos problemas energéticos que se anunciam no País. "Quanto mais os agentes acreditarem nessa possibilidade (de racionamento), mais haverá impacto nos investimentos", disse.Para o economista do Ipea, permanece como fator positivo, diante das incertezas provocadas pela crise, o fato de que a economia brasileira está mais protegida diante das intempéries externas, sem dívida externa (na prática, já que os recursos disponíveis superam a dívida), com dívida interna desatrelada do câmbio e reservas elevadas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.