Ipea é acusado de ''ideologizar'' concurso

Órgão troca doutores da PUC-RJ pelos da Unicamp, mais próxima da cúpula

Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Alvo de polêmica nos meios econômico e acadêmico, o concurso do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluído neste ano selecionou menos pessoas com especialização em economia e mais perfis com origem acadêmica alinhada à da direção do órgão, representada pelo presidente, Marcio Pochmann, atualmente uma das vozes mais aguerridas do governo na defesa do fortalecimento do papel do Estado na economia.Análise curricular dos aprovados, cujos nomes foram divulgados há 11 dias no Diário Oficial, mostra que o concurso para técnicos de planejamento e pesquisa, o maior já promovido pelo órgão e que aprovou 62 pessoas, atingiu o objetivo da cúpula do Ipea: mudar o perfil dos servidores responsáveis pelas suas pesquisas e análises.Levantamento feito pelo Estado mostra que dez dos 21 aprovados com pós-graduação em economia vieram da Unicamp, da qual Pochmann é professor afastado e onde fez doutorado em políticas do trabalho. No concurso anterior, de 2004, na gestão do sociólogo Glauco Arbix, dos 44 aprovados, 26 tinham pós-graduação em economia - apenas um na Unicamp. Consideradas todas as áreas de atuação, não só economia, a Unicamp também lidera o ranking como origem dos títulos mais altos (pós-doutorado, doutorado e mestrado) dos que foram aprovados no concurso iniciado em 2008. São 12 títulos, seguidos por oito da USP e sete de universidades estrangeiras, em áreas que vão da economia à ciência política e química. O lançamento do edital para abertura do concurso, em setembro de 2008, suscitou uma série de críticas, feitas até por técnicos do órgão, que o interpretaram como mais uma medida de "padronização" ideológica promovida pela cúpula do instituto. Em 2007, Pochmann demitira quatro técnicos que adotavam uma linha de pensamento econômico independente da sua. Depois, o Ipea suspendeu a divulgação trimestral do tradicional Boletim de Conjuntura, que traçava projeções e análises das principais variáveis macroeconômicas. A decisão foi polêmica. A direção do instituto defendeu o foco em análises de mais longo prazo, alegando que o Ipea não era "operador do mercado financeiro". As projeções passaram, então, a ser anuais. O Ipea admite que, por meio do concurso, pretendia mudar o perfil dos novos técnicos. Faz também críticas às seleções realizadas no passado, caracterizando-as como excessivamente técnicas e responsáveis pela escolha de candidatos com formação humanística mais fraca, na visão do órgão. Esse diagnóstico já constava do planejamento estratégico do instituto, lançado por Pochmann, em 2008. PROVASA formação em economia não foi obrigatória no concurso, assim como em 2004. De acordo com os críticos, no entanto, foi muito fraca a exigência na matéria e, mais ainda, em econometria e estatística. "A qualidade da prova foi bastante baixa e não foi requisitado nenhum conhecimento aprofundado. Muito pouco foi cobrado de instrumentos indispensáveis ao pesquisador. Foi uma prova muito rasteira e escassa", afirmou Vinicius Carrasco, professor de economia da PUC-RJ. Sem criticar o Ipea, o professor de economia da USP Joaquim Guilhoto disse ser "importante ter uma base teórica forte para a análise isenta da economia".A prova objetiva - em que o candidato tinha de assinalar "certo" ou "errado" - trouxe teses sobre "neoliberalismo" e "globalização" e apresentou questões cuja resposta admitia várias interpretações. Quatro foram anuladas. No concurso para técnico de planejamento e pesquisa, o Ipea criou sete áreas de especialização. O objetivo era alcançar esse perfil mais plural defendido pela direção do órgão. Houve perguntas sobre o "comércio legal de veneno de cobra" e quatro questionamentos sobre cavalos-marinhos, na especialização em sustentabilidade ambiental. As discussões internas para elaborar o edital levaram mais de cinco meses. Nesse período, segundo apurou o Estado, falou-se até em "flexibilizar" o inglês como idioma obrigatório na prova e em adotar o sistema de "cadastro de reserva" - um concurso amplo permitiria ao Ipea a contratação de funcionários com o perfil almejado de acordo com a demanda do instituto no decorrer do tempo. Também descartou-se o convite a ex-diretores para discutir a seleção, sob a alegação de que existiam dúvidas se os concursos anteriores haviam sido "bem-sucedidos".A análise no resultado do concurso mostrou também queda na aprovação de candidatos com pós-graduação na FGV e na PUC do Rio.No concurso de 2004, pelo menos dez aprovados tinham pós-graduação em economia nessas escolas. No resultado desse ano, o Estado identificou apenas um aprovado com pós-graduação em economia na PUC-RJ.Essas duas escolas são conhecidas por terem uma visão mais ortodoxa e, de modo geral, defenderem o funcionamento livre do mercado e a participação reduzida do Estado na economia. Economistas do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan (ex-ministro da Fazenda) e Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central) deram aulas na PUC-RJ.Os concursos anteriores, que teriam favorecido esse perfil mais "economicista" , também foram alvos de críticas internas. Numa carta enviada à direção em 2004, intitulada Concurso Compromete Pluralidade Institucional, um grupo de sete servidores, parte deles ligada hoje à atual direção, dizia-se preocupado com o perfil "excessivamente matematizado" da prova. "Quanto ao perfil matematizado e à opção por uma linha teórica, estes não poderiam ser usados como critério eliminatório em um concurso público que busca profissionais capazes de contribuir em diversas áreas de atuação, e não aquelas delimitadas a um determinado perfil de economistas." Há atualmente 141 técnicos de pesquisa no Ipea. Além dos 62 aprovados que receberão salário de R$ 10.905, foram selecionados também 18 analistas de sistemas e técnicos de desenvolvimento.

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