Tiago Queiroz/Estadão
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Ipea melhora projeção para o PIB de 2020 e passa a ver queda de 5%

Projeção anterior era de recuo de 6%; segundo relatório do instituto, recuperação da economia começou em maio, puxada, entre outras coisas, pela flexibilização do isolamento social e pelo auxílio emergencial

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2020 | 11h34
Atualizado 11 de outubro de 2020 | 23h07

RIO - O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia, revisou sua projeção para o desempenho do Produto Interno  Bruto (PIB) de 2020 de um tombo de 6,0% para um retração um pouco mais moderada, de 5,0%, conforme relatório publicado em uma das seções da Carta de Conjuntura do 3º trimestre, publicada no site no órgão nesta quinta-feira, 1º. 

Mesmo com elevado grau de ociosidade na economia - calculada em 13,9% no segundo trimestre -, por causa dos preços de alimentos, o Ipea revisou a projeção para o IPCA de 2020 para 2,3%, ante o 1,8% estimado anteriormente.

A recuperação da economia em meio à recessão provocada pela covid-19 começou em maio, puxada pela “gradual flexibilização das restrições à mobilidade de pessoas, a extensão do auxílio emergencial, a ampliação do crédito a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) com garantia do Tesouro e a política monetária expansionista”, segundo o Ipea.

“O desempenho observado de parte dos indicadores de atividade econômica nos primeiros meses do terceiro trimestre permite uma expectativa mais otimista acerca do ritmo de recuperação ao longo do restante do ano”, diz o relatório do Ipea, alertando que “a intensidade da recuperação ainda depende da evolução da pandemia”.

Entre os indicadores que sustentam uma expectativa mais otimista, os pesquisadores destacaram a produção industrial e as vendas do varejo. Com a alta de 8,0% em julho, a produção industrial já acumula avanço de 28,8% desde maio, “uma recuperação expressiva, porém ainda insuficiente para compensar a queda de março e abril”, pois o nível da atividade ainda está “6% abaixo do registrado em fevereiro”. O crescimento expressivo do comércio varejista colocou o nível de vendas no varejo restrito, após a alta de julho, 5,3% acima do nível de fevereiro. 

No mercado de trabalho, a recuperação da economia tem aparecido de forma mais lenta. Para os pesquisadores do Ipea, a lentidão na criação de postos de trabalho pode ser explicada em parte pelo aumento do número de horas trabalhadas. De maio a agosto, o número médio de horas efetivamente trabalhadas por semana avançou de 27,4 para 34,1, diz o relatório, “sinalizando que, inicialmente, o ajuste está sendo feito na jornada de trabalho, ficando as contratações para um segundo momento”.

Nesse quadro, o Ipea manteve a projeção de crescimento de 3,6% no PIB em 2021, mas alertou sobre o risco fiscal no médio prazo. Na visão do diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo de C. Souza Júnior, a situação das contas públicas não permite que o governo espere “muito tempo” para fazer reformas que sinalizem o compromisso com o equilíbrio fiscal, diante do aumento do déficit nas contas públicas e da dívida pública, por causa das medidas contra a pandemia de covid-19 e das pressões que vêm se acumulando pelo aumento de gastos.

A solução para o financiamento de um novo programa ampliado de transferência de renda, agora batizado de Renda Cidadã, e medidas de planejamento para 2021 a serem anunciadas até o fim deste ano serão cruciais nessa sinalização, disse Souza Jr.

“Como esse programa de transferência de renda que se vislumbra significa um aumento de gasto significativo, a forma como vai se resolver isso é uma das coisas mais importantes para o cenário de retomada do equilíbrio fiscal”, afirmou o diretor do Ipea.

O diretor do Ipea reconhece que, mesmo com uma recuperação econômica mais firme do que se esperava no início da pandemia, uma ampliação das transferências de renda para famílias mais pobres e trabalhadores informais, quando comparadas com o que era feito até antes da crise, seria importante para atenuar uma esperada queda no consumo no início de 2021, com a retiradas dos auxílios emergenciais. No entanto, não compensa adotar essa medida sem encontrar espaço no Orçamento cortando outros gastos.

O estímulo à demanda não seria sustentável, segundo o economista. “Poderia até garantir alguma demanda no curto prazo. Por outro lado, aumentaria muito a desconfiança na economia, o custo de financiamento e retrairia os investimentos. Qualquer caminho de recuperação mais sustentável, que não seja um voo de galinha, tem que estar ligado a uma atitude fiscal responsável”, afirmou Souza Jr.

Embora veja pouco espaço para o governo demorar para agir, o diretor do Ipea ressalta que não há um “grande evento” associado ao risco fiscal no radar, mas “as coisas já estão acontecendo”, como a piora nas condições de refinanciamento da dívida pública. As condições podem não ser “tão graves”, mas estão piorando, lembrou Souza Jr. Além disso, o aumento dos juros cobrados nos títulos do governo impacta o setor privado, elevando o custo de financiamento das empresas em geral e afastando investidores.

O único fator que poderia levar a uma piora repentina e mais significativa nesse cenário seria uma mudança também repentina na postura da política econômica, disse Souza Jr. No quadro atual de impasse, um alinhamento maior do discurso em torno do equilíbrio fiscal, entre a equipe econômica e o Palácio do Planalto, ajudaria a reduzir a volatilidade no mercado e na percepção dos agentes econômicos, mas também não resolveria o problema das incertezas elevadas.

“Não dá para ficar só em declarações. O governo vai ter que, nos próximos meses, resolver a equação com medidas concretas. Enquanto medidas concretas não são tomadas, especulações sempre vão causar volatilidade. Não tem jeito”, afirmou Souza Jr. 

O cenário do Ipea se completa com um aumento da pressão inflacionária, oriunda dos preços dos alimentos, ainda que não haja reajustes generalizados. Por causa dos alimentos, o órgão revisou a projeção para o IPCA de 2020 de uma alta de 1,8% para um avanço de 2,3%, mas os pesquisadores ressaltaram no relatório que “a expectativa de uma retomada apenas gradual da demanda, aliada à capacidade ociosa presente na maioria dos setores produtivos e à redução dos custos de mão de obra e aluguéis, deve continuar mantendo uma trajetória bem comportada do nível médio de preços”. 

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