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Ipea troca equipe por 'alinhados'

Quatro economistas que divergiam do governo, principalmente na área fiscal, foram desligados da instituição

Nilson Brandão Junior, do Estadão,

15 de novembro de 2007 | 18h33

Mudanças internas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estão provocando polêmica dentro e fora da instituição. Com a chegada do novo presidente, Márcio Pochmann, em agosto, cinco das seis diretorias já foram trocadas, a maior parte em Brasília. No Rio, toda a área de macroeconomia está sendo reformulada. Quatro economistas que divergiam do governo, principalmente na área fiscal, estão sendo desligados da instituição - conforme revelou ontem a Folha de S. Paulo -, o tradicional Boletim de Conjuntura será extinto e o Grupo de Conjuntura Econômica (GAC), que recentemente marcou presença no noticiário com previsões independentes de crescimento, diferentes das feitas pela equipe econômica, e pelos alertas sobre o crescimento dos gastos públicos no País, não poderá mais "fazer recomendações públicas de política econômica". Em dezembro, deixam a instituição os economistas Fábio Giambiagi e Otávio Tourinho. Eles são funcionários do BNDES e o Ipea informou que o convênio de cessão vence no próximo dia sete e não será renovado. Giambiagi confirmou que deixa o Ipea, mas preferiu não comentar. Os economistas Regis Bonelli e Gervásio Rezende, especialistas em indústria e agropecuária, também deixam a casa, segundo o instituto, porque já estavam aposentados e vinham ocupando instalações da sede carioca. A questão, segundo um importante quadro do Ipea, é que os dois têm experiência de mais de três décadas no instituto e vinham trabalhando na produção de pesquisas e formação de pessoal mais novo. Na prática, saem economistas mais liberais ou neoclássicos (ortodoxos), com foco em questões fiscais, e entra um grupo que defende participação maior do Estado na economia. A primeira mudança que refletiu essa tendência aconteceu em setembro. O professor do Instituto de Economia da UFRJ João Sicsú, considerado um desenvolvimentista, substituiu o diretor de macroeconomia Paulo Levy. A mudança interrompeu uma longa trajetória de ascensão de quadros internos ao comando da diretoria, considerada a mais importante da instituição. Giambiagi foi afastado do cargo de coordenador do GAC. No seu lugar, especula-se que deverá assumir o economista Miguel Bruno, hoje lotado na Escola Nacional de Ciências Estatísticas, do IBGE. Em paralelo, economistas da UFRJ, UFF e Cândido Mendes foram chamados para trabalhar no Ipea no Rio, dizem fontes do instituto. Na área de macroeconomia, a nova direção extinguiu o Boletim de Conjuntura, publicação trimestral com mais de cem páginas que será substituído por uma Carta do Ipea, bem mais curta (10 páginas). Era justamente no Boletim de Conjuntura que vinham sendo veiculadas as avaliações GAC, algumas das quais divergiam frontalmente da visão de integrantes da equipe econômica do governo. Enquanto, por exemplo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendia que o País chegaria ao crescimento de 5% nos próximos cinco anos, trabalho de integrantes do GAC indicava que isso ocorreria de forma sustentada apenas em 2017.  Na última divulgação do boletim, em setembro, um alerta tratava do avanço dos gastos públicos no País. O texto pregava que o ritmo de crescimento do gasto público deveria ser reduzido já em 2008, sob pena de o País chegar a uma inflação anual de 5% entre 2009 e 2010. No mês anterior, ao assumir o cargo, Pochmann fez críticas ao que qualificou de "Estado raquítico". O discurso de Pochmann valeu um elogio no site do petista histórico José Dirceu, sob o título "Uma bela estréia", em agosto.  Idéias alinhadas Essa semana, o Ipea informou que o GAC "não fará em suas publicações recomendações de política econômica. "A atividade do GAC será de pesquisa (stricto sensu) e não de intervenção na conjuntura e/ou recomendação pública de políticas econômicas (o GAC fará recomendações ao governo pelos canais formais quando for solicitado)". A idéia geral é trocar a visão de conjuntura para análises de médio e longo prazo. Alguns pesquisadores comentam que o boletim do Ipea fazia isso também e se dizem preocupados com as mudanças. Contam que o clima é de desconforto. Segundo um técnico, a impressão é de que as alterações vieram "certamente lá de cima (do governo)".  "É uma mudança de orientação grande. A mudança essencial é o foco de conjuntura para uma coisa mais de médio e longo prazo. Agora, a visão anterior era a redução do crescimento do gasto público e a visão do novo presidente tem sido contrária a isso. Há diferença clara de visões de desenvolvimento", disse um dos principais pesquisadores do Ipea. Para alguns técnicos, que preferem não se identificar, as mudanças geram apreensão. "A mudança de orientação é uma coisa normal, faz parte do jogo", pondera um outro economista. Ainda assim, as novidades no instituto chamam a atenção de integrantes de outros órgãos do governo e do mercado. Uma fonte de um órgão da área de economia do governo comenta que as reuniões do GAC eram abertas para economistas de fora do Ipea e as opiniões podiam ser dadas livremente. Ele levanta a tese de que o governo talvez avaliasse como muito liberal a postura.  "Estão trazendo gente de fora, que nunca teve cargo executivo, para conviver com a velha guarda", comentou. Por meio de sua assessoria de imprensa, Pochmann assegura que quer manter a independência do instituto, pretende torná-lo "cada vez mais plural" e que não haverá cerceamento a pesquisadores.

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